Uma mente otimista. Sempre

Estamos novamente a sentir-nos angustiados e apreensivos. Algo que já aconteceu no início do ano passado. Ainda me lembro quando cheguei a Lisboa, em Fevereiro de 2020, e começavam a surgir as primeiras notícias sobre a pandemia. Dias depois, em Março, o confinamento. Vivemos os dias de hoje com esta memória e com a sensação de que tudo está a voltar a ser como dantes. Chega a parecer que o ano tem mais de 365 dias e ainda não terminou.

Não tenho dúvida de que tudo o que passámos nos deixará algumas marcas e, por isso, gosto de pensar que podemos estar a escrever a nossa própria história. A história de superações, de autoconhecimento, de solidariedade, de medos e fracassos, de falta de perspetivas…Em suma, a história da nossa vida. O ano acabou e não conseguimos ter aquela sensação de começar uma vida nova, cheios de resoluções de ano novo, visto o COVID continuar presente e bastante ativo nas nossas vidas. Tudo isto é completamente normal, já que o nosso cérebro está habituado a celebrar os momentos que se repetem e que nos despertam emoções positivas. Contudo, nas celebrações de fim de ano, talvez isso não tenha acontecido.

Gostaria de abordar uma questão que me colocaram, sobre a qual tenho estado a refletir: “Descreva uma vitória que teve nos últimos sete dias.” Sim, apenas uma vitória. Tenho a certeza que teve várias, todavia, tendemos sempre a olhar para o lado negativo das coisas, o que não funciona. Esta é uma reação humana do nosso cérebro, que está preparado e alerta quando percebemos que algo está errado, o que nos obriga a ativar o nosso instinto de sobrevivência. Mas pense novamente na pergunta. Se conseguiu identificar uma vitória, seria possível repeti-la nos próximos sete dias? Tente fazer este exercício e escreva a sua vitória num local visível, para que a possa repetir e ver frequentemente. É imperativo que não deixe que as más notícias o impeçam de comunicar e visualizar as boas, as suas conquistas!

Enquanto líder, teve que definir objetivos de negócio para 2021, tal como fez algumas resoluções que espera que sejam cumpridas. Transforme as suas resoluções em objetivos, permitindo-lhes ganhar mais força. Quando conseguimos cumprir algo a que nos propusemos, o sentimento de conquista é indescritível. Pretendo, por isso, partilhar como pode definir objetivos resilientes. Todos os objetivos, sejam pessoais ou profissionais, devem basear-se em dois pontos anteriores à sua definição – propósito e valores, e outros dois pontos posteriores a esta mesma definição – hábitos e auditoria.

  1. Propósito: Pergunte-se qual é o seu papel enquanto líder e em servir os seus colaboradores. O que é importante para si e o motivo de querer atingir esse objetivo.
  2. Valores: O que realmente valoriza e nunca compromete, isto é, aquilo que não é negociável. Estes valores irão determinar os seus comportamentos que, quando repetidos frequentemente, determinarão a cultura da sua empresa.
  3. Objetivo: O que pretende realmente alcançar descrito de maneira inteligente – SMART (Simple, Measurable, Achievable, Realistic and Time bounded).
  4. Hábitos: Quais são os seus hábitos? Os nossos hábitos são comportamentos subconscientes e automáticos, por isso é tão difícil mudá-los. Ao passarmos por inúmeras mudanças, como o que tem estado a acontecer atualmente, os nossos hábitos estão a ser postos à prova e as nossas emoções, nomeadamente, a ansiedade, traumas e medos, estão a vir ao de cima.
  5. Auditoria: Como pode saber se os seus objetivos estão a ser afetados pelas suas emoções e hábitos? Como faz esta avaliação, tentando perceber se os objetivos estão alinhados com os seus valores e propósito? Quem o ajuda nesta revisão? Estas três perguntas são realmente importantes e poderosas, e devem ser constantemente relembradas e revistas.

Mas como referi anteriormente, estamos a educar o nosso cérebro para criar novos hábitos, tendo em conta a velocidade das mudanças a que temos assistido e sofrido. É por isso que sentimos esta sensação de desconforto. Nós, líderes, precisamos de reaprender a liderar neste novo contexto. A fórmula tradicional, de que uma solução se aplica a todos, funcionava muito bem num ambiente controlado, com um horário de trabalho definido e regras claras. No mundo do teletrabalho, de novas regras que ainda estão a ser estabelecidas, cada um tem o seu ritmo, o seu espaço, as suas necessidades e a sua liberdade. Precisamos de aprender a ser mais flexíveis. É preciso ter a intenção genuína de ajudar e não tentar manter o controlo que tínhamos outrora. Uma boa maneira de começar, é perguntando a cada um dos seus colaboradores duas coisas que poderá fazer por eles, a fim de lhes proporcionar um maior acompanhamento e suporte. Acredite que se irá surpreender com as respostas. Não force comportamentos. Seja um líder que vive para servir os seus colaboradores, de forma autêntica e genuína.

Duas grandes investigadoras que leio regularmente, Valerie Alexander e Eve Meceda, descrevem alguns insights que todos os líderes deveriam conhecer e praticar. Valerie, especialista em Happiness Behaviour, comenta como o comportamento no trabalho se reflete bastante na nossa felicidade. Existe, de facto, uma correlação direta. É preciso criar espaço para as pessoas falarem sobre os seus medos, desafios e condições, sem serem julgadas e terem receio de possíveis repercussões. Já escrevi sobre este tema, no meu artigo sobre Segurança Psicológica no trabalho. Uma das máximas da Valerie que merece ser destacada: “Trate as pessoas como elas querem ser tratadas e não como quer ser tratado. Respeite a individualidade de cada membro da sua equipa.”

Eve Meceda é psicóloga e estuda o pensamento da aprendizagem (Growth Mindset) para criar uma vida fenomenal no trabalho. Eve menciona que todas as crises são um ciclo. Vivemos num mundo previsível, até que uma catástrofe aconteça e precisemos de nos reerguer novamente. Pense em todas as crises que já passou na vida, tanto a nível pessoal como profissional, e como sobreviveu a todas. Quantos ciclos foram? Eve relata que precisamos de aprender a harmonizar os nossos sentimentos e emoções para voltarmos a ter o controlo do nosso cérebro racional. Se vir que não consegue, peça ajuda. Investir na sua saúde mental deve ser o seu primeiro objetivo.

No seu recente estudo sobre engajamento dos colaboradores no trabalho, Eve identificou mais de 100 variáveis, sendo que, as três primeiras tinham uma correlação muito forte e identificavam claramente o modo como nos sentimos envolvidos no trabalho, traduzindo-se em três perguntas que fazemos inconscientemente e nos fazem sentir parte de um todo:

  1. Onde é que eu me encaixo neste grande esquema da organização?
  2. Porque é que o que eu faço é importante? Porque me preocupo com isso?
  3. Como posso fazê-lo de maneira extraordinária?

Quando conseguimos responder a estas perguntas, temos uma sensação de realização e plenitude total.

A natureza do trabalho está continuamente em transformação e o futuro sempre foi incerto. A incerteza não foi causada por uma pandemia, mas sim pela nossa incapacidade como líderes de servir os nossos colaboradores. Toda a energia emocional, que temos estado a criar e a armazenar, precisa de ser transformada em paz e harmonia. Quando cuidarmos de nós próprios, iremos igualmente cuidar dos nossos colaboradores. Cabe a nós, líderes, identificar quais as motivações e necessidades de cada um, para que possam atingir esta plenitude, comunicando claramente os limites e a importância do seu trabalho. Seja autêntico, honesto consigo e com os demais. Reestruture a sua conversação.

Afinal, esta tem sido uma oportunidade de nos reerguermos mais humanos!


Por Gustavo Santos, Chair of CEO Advisory Board Vistage Portugal – Lisbon

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