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Home Opinião Uma negociação OVAL: sem ponta por onde se lhe pegue!

Opinião

Uma negociação OVAL: sem ponta por onde se lhe pegue!

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24 Março, 2025 | 9 minutos de leitura

Uma análise pelo prisma de um método de negociação eficaz, à reunião entre o Presidente Donald Trump, o Vice-Presidente J.D. Vance, e o Presidente Volodymyr Zelensky, na Sala Oval, facilitando a reflexão sobre uma competência chave para Chefes de Estado e Equipas de Governo. Apresentarei resumidamente quatro princípios e outros elementos fundamentais de negociação e, […]

Uma análise pelo prisma de um método de negociação eficaz, à reunião entre o Presidente Donald Trump, o Vice-Presidente J.D. Vance, e o Presidente Volodymyr Zelensky, na Sala Oval, facilitando a reflexão sobre uma competência chave para Chefes de Estado e Equipas de Governo.

Apresentarei resumidamente quatro princípios e outros elementos fundamentais de negociação e, para cada um, um comentário sobre o que aconteceu na reunião da Sala Oval.

Relembremos primeiro, o ponto de partida. Esta reunião foi anunciada como o culminar de rondas produtivas de negociações, após a qual se assinaria um acordo de exploração de recursos minerais da Ucrânia pelos EUA, em contrapartida de segurança contra a Rússia e uma entrevista conjunta posterior.

 

1. Princípio de separar as pessoas do problema: defende que as contrapartes se devem focar nos interesses em jogo e em resolver os problemas, evitando que questões pessoais interfiram na negociação, que não se ataquem mutuamente, que tratem a outra parte como parceiro e não como oponente e que saibam gerir as questões emocionais e substanciais separadamente.

O que constatei pela visualização dos vídeos e análise da transcrição na íntegra, é completamente diferente. Assistimos a um questionamento crítico por um repórter do dress code de Zelensky e a afirmação de que não usar um fato constitui uma falta de respeito para com os interlocutores e local da reunião. Vance acusou Zelensky de ter feito campanha «pela oposição» durante as últimas eleições e de ser desrespeitoso, ao atacar o Presidente e sua Administração, exigindo uma demonstração de gratidão explícita por parte de Zelensky ao Presidente dos EUA e ao País nesta mesma reunião: «Diga simplesmente obrigado.»

Trump afirmou que Zelensky odeia Putin e que o Putin também não está exatamente apaixonado por ele. Trump verbalizou emoções e ataques pessoais a alguém que não estava na reunião. Referindo-se a Biden disse: «…um tipo chamado Biden, que não é uma pessoa esperta. Um presidente estúpido.»

Zelensky cometeu alguns erros, nomeadamente ao atacar emocional e pessoalmente o Presidente Putin – com quem terá de fazer a paz – desdizer Trump e Vance e prever o que os EUA virão a sentir. Em suma, observou-se uma personalização excessiva das questões em debate que redundou num completo falhanço em separar as questões pessoais dos problemas em discussão, desviando o foco dos temas centrais.

 

2. Princípio de concentrar-se nos interesses, não nas posições: recomenda que se deve identificar os interesses subjacentes das partes, em vez de se fixar em posições rígidas.

Trump focou-se na sua posição: a Ucrânia teria de assinar nesse dia o acordo de exploração de minerais. Os interesses de Zelensky foram explicitados, mas completamente ignorados. O líder ucraniano fez um paralelismo com o passado e explicou que, no seu entender, a Ucrânia já havia assinado acordos de cessar-fogo e paz, de troca de prisioneiros e até contratos de gás com a Rússia. Ainda asism, apesar das garantias de outros mediadores internacionais (Macron e Merkel), no seu entender, Putin os violou sistematicamente entrando na Ucrânia e que, por isso, precisava agora de garantias de que os USA não deixariam os russos violar os acordos. Este é o interesse de Zelensky: paz com garantias americanas ou guerra até as conseguir.

O Presidente da Ucrânia, por seu lado, não entendeu que tais garantias podiam levar à III Guerra Mundial, tal com Trump lhe disse. Subentende-se que a visão de Trump é a de que, no caso de os EUA darem as garantias coercivas e depois a Rússia violar os acordos, isso levaria a um conflito entre as duas superpotências, envolvendo o resto do mundo.

Trump e Vance reafirmaram que, em troca de assinar o acordo de exploração de minerais, Zelensky iria obter o engajamento diplomático americano que iria parar a destruição da Ucrânia. Vance insistiu na posição de que a Ucrânia deveria mostrar gratidão, sem abordar diretamente os interesses de segurança expressos por Zelensky.

Pareciam dois monólogos, com cada um a repetir a sua posição de forma cada vez mais agressiva e veemente.

Em síntese, Zelensky e Trump procuraram direcionar a conversa para o que veem como os seus interesses sem compreender os do parceiro e, numa negociação, a concessão mais poderosa e mais barata que podemos dar ao outro é ouvi-lo, não para responder de imediato, mas primeiramente para o compreender.

 

3. Princípio de gerar opções: criar várias soluções (opcionais) que atendam aos interesses de todas as partes envolvidas. Visa estar preparado e aberto para se inventarem soluções inovadoras e criar valor na negociação de forma a gerar várias soluções alternativas possíveis para chegar a acordo ou partes de um acordo.

O que se assistiu foi a um clima de falta de confiança, no qual é impossível ser inovador, carecendo de uma exploração ou pré-disposição conjunta para soluções que pudessem beneficiar ambas as partes e tudo ficou restringido a um único ponto de negociação, sem possibilidade de gerar alternativas colaborativas. A ausência de propostas concretas para avançar nas negociações de paz ou fortalecer a cooperação bilateral evidenciou a falta de opções de ganho mútuo.

 

4. Princípio de utilizar critérios objetivos: basear a negociação em padrões externos e critérios imparciais para garantir justiça (ex. precedentes, leis, benchmarks ou avaliações independentes).

Zelensky tentou explicar a sua preocupação baseando-se na sua visão dos precedentes (o que aconteceu entre 2014 e 2022, com vários presidentes americanos – Obama, Trump, Biden) mas a resposta que obteve de Trump foi «eu não estava cá em 2014».

A falta de critérios objetivos foi evidente na troca de argumentos. As acusações de desrespeito e as exigências de gratidão não se basearam em padrões ou evidências imparciais. A ausência de consenso a referências e acordos internacionais, resoluções ou dados concretos sobre a situação no terreno dificultou uma avaliação justa e equilibrada das reivindicações de cada parte.

 

5. Pacotes negociais: a criação de uma agenda de negociação em pacotes, ao invés de um único assunto, apresenta vária vantagens das quais destaco o facto de criar espaço que permite trocas e compensações entre os elementos do pacote negocial, tornando mais fácil atingir um acordo que sirva as partes. No entanto a reunião reduziu os vários aspetos a negociar a um: obter a assinatura do acordo de exploração de recursos minerais da Ucrânia pelos EUA em troca de um esforço diplomático que levaria à paz no entendimento americano, e a um simples cessar-fogo no entendimento de Zelensky.

 

6. Chantagem emocional: assistiu-se a elementos de chantagem emocional, explícitos nas frases: «ou faz um acordo ou estamos fora. E se estivermos fora, você lutará. Não acho que vai ser bonito, mas vai lutar. Não tem as cartas. Mas quando assinarmos este acordo, estará numa posição muito melhor, mas não está a agir de forma agradecida. E isso não é uma coisa boa. Serei honesto. Isso não é uma coisa simpática».

 

7. Prazos irrealistas: constatou-se uma pressão de Trump para fechar um acordo no imediato, sem acautelar as preocupações ainda presentes na contraparte. Este padrão já vinha do passado, com o estabelecimento por parte de Trump de prazos irrealistas e da sua violação constante, nomeadamente das inúmeras vezes que garantiu que resolvia a guerra em 24h ou menos, porque iria dizer alguma coisa (que não iria revelar) ao Zelensky e ao Putin e que garantia que a guerra pararia em menos de 24h e não haveria mais bombardeamentos da Ucrânia ou da Rússia.

 

8. Término abrupto da reunião sem acordar o próximo passo: uma reunião de negociação em curso deverá terminar com uma visão conjunta sobre a próxima ronda negocial. Neste caso, a reunião terminou abruptamente com as palavras de Trump: «Está bem, acho que já vimos o suficiente. Foi um grande momento de televisão.»

 

9. Linguagem não-verbal: Trump utilizou repetidamente o gesto do dedo indicador levantado em direção a Zelensky, associado a acusação ou ameaça. Zelensky evidenciou desconforto através de suspiros, braços cruzados e olhares para o teto, indicando uma postura defensiva. A reação de Oksana Markarova, embaixadora ucraniana nos EUA, à discussão entre Trump e Zelensky, levando as mãos ao rosto, fechando os olhos e abanando ligeiramente a cabeça, é ilustrativa da sua indelével frustração.

 

Resultado e conclusão

A reunião na Sala Oval exibiu vários aspetos e ‘erros’ típicos de uma prática mais comum de negociação ao invés de uma abordagem eficaz, ambas descritas no meu artigo no Jornal Económico: As duas melhores ferramentas para a sua próxima negociação.

A personalização das questões, a ênfase em posições rígidas, a falta de busca por soluções de benefício mútuo e a ausência de critérios objetivos contribuíram para uma interação pouco produtiva. A análise da linguagem corporal reforça a tensão e a falta de alinhamento entre os líderes, sublinhando a importância de uma abordagem mais estruturada e colaborativa em futuras negociações. Como resultado, Zelensky acabou por ser instruído para deixar a Casa Branca mais cedo e a entrevista conjunta foi cancelada.

Talvez o facto que mais me surpreendeu foi o de que reuniões públicas como estas são um momento de assinatura protocolar e de alto nível de algo já acordado e, ao ter fracassado desta forma, indicia que foi negligenciada, pelo menos, a mais importante das sete fases de uma negociação de alta implicação: a fase de preparação.

Podemos todos aprender com este exemplo de tanta notoriedade que o processo de negociação é uma competência profissional e que a sua preparação e execução nunca deve ser descurada. Pode e deve seguir um método eficaz com provas dadas em vários tipos de negociação importantes, quer sejam internas ou externas, empresariais, diplomáticas ou políticas.

Valter Alcoforado Barreira,
Especialista em Competências de Business Networking e de Negociação

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