Uma nova Era de Aquário

Vivemos tempos interessantes. A velha praga chinesa assume atualmente uma deliciosa ironia. O mundo “repolariza-se” inclinando-se para Oriente, que aparenta uma placidez, serenidade, ordem, rigor, em contraste com os “tempos interessantes” a Oeste. Prenhes de balcanizações de tudo, por nada, e envolvendo quase toda a gente.

Até a ciência e os cientistas, muito expostos durante a pandemia, parecem ter cedido ao novo Zeitgeist. De facto, durante os últimos meses apareceram posições que demonstravam uma causalidade, a sua simétrica, a raiz quadrada do axioma que as sustentava, a derivada das suas consequências, o integral dos factos e contra factos. Já abominámos as máscaras que entrementes se tornaram incontornáveis, e os anti-inflamatórios que afinal parecem imprescindíveis, os confinamentos que eram determinantes são agora órfãos de suporte científico. Brotam como cogumelos estudos que se debatem entre causalidade e correlação, provando quase tudo e o seu contrário, escorregando de forma demasiado óbvia para o terreno do ativismo político, na ânsia de apoiar correntes ideológicas que eventualmente se percebem nos domínios dos departamentos de linguística e de estudos de género, mas que, no domínio da ciência propriamente dita, parecem estranhos. Mas enfim, como aparentemente se “descobriu” que até as equações diferenciais parciais são misóginas e a identidade de Euler potencialmente racista, talvez tudo faça sentido. Os tempos interessantes nesta área são vivamente saudados pela China que nos ultrapassou em publicações STEM (Science, Tech, Engeneering e Math).

Não estou seguro de que retiraremos desta confusão lições preciosas sobre comunicação. Clara, simples, transparente. E, sobretudo, sobre liderança. Firme, autêntica e humilde.

Dispenso-me de equacionar quão interessantes estão os tempos em política. As clivagens são por demais óbvias. Explicáveis pela psicologia social. Aos “meus” tudo é perdoável, um erro foi sem querer, uma ação correta um produto natural da nossa superioridade intelectual. Nos demais, um erro é sempre intencional e uma coisa boa dos “outros” foi por mero acaso ou por força de pressões do contexto. O que parece novo é que, nesta tradicional dinâmica de rivalidades grupais, o terreno neutro parece ter-se evaporado, o espaço de potencial diálogo foi substituído por insultos rápidos, irrevogáveis e particularmente duros, com atribuições de maldade absoluta, nunca vista. Como se a História se reduzisse ao tempo presente e tudo fosse absoluto.

Na área dos posicionamentos de produtos e negócios estas tendências já se observavam há algum tempo também. Os produtos e serviços desligaram-se bastante dos seus referenciais racionais, das métricas objetivas para as quais possuíamos escalas e padrões. Tornaram-se, em grande medida, “artefactos” sociais com valor simbólico, emocional, identitário. O que permite que o seu preço diste muito do “valor” da sua criação. E muitos destes produtos corporizam clivagens entre tribos que podem assumir aspetos de “guerra” ou quase religiosos. Veja-se o que pensam, no Instagram ou no Twitter, as tribos da Nike e as tribos da New Balance. Ou como é que em Tóquio é admissível celebrar o sacramento do matrimónio numa loja da Apple?

Vivemos tempos interessantes.


Por José Manuel Fonseca, coordenador da Pós-Graduação em Gestão da Universidade Europeia

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