Uma Ode à Comunicação

O que havia de acontecer ao mundo. Mas, então, e a Comunicação? Pois é. Se nos dissessem há apenas um par de meses que o mundo ia levar tamanha volta, diríamos que estávamos a ser pessimistas e, de forma depressiva, a criar cenários de horror.

Nem nós imaginávamos que os dias, as perspetivas, as saídas para situações rotineiras, as formas de vida das pessoas, das famílias, das empresas, passariam a configurar um novo ritmo e, sobretudo, a alterar a nossa noção de gestão de tempo, a nossa definição de curto, médio e longo prazo, a nossa perspetiva de relacionamento com os outros, também, e até sobretudo, do ponto de vista da Comunicação.

Pois bem, mas de todo este estado de coisas de fim à vista ainda muito pouco definido a comunicação sai abalada? Nem pensar.

Socorramo-nos das ferramentas do Marketing e façamos aqui uma análise de forças e fraquezas, de oportunidades e ameaças e tracemos uma linha o mais realista possível sobre o papel da Comunicação ao longo da última década e, sobretudo no momento atual e no futuro.

Comecemos, porém, por uma análise retrospetiva sobre o que tem sido a Comunicação ao longo das últimas décadas para fundamentar de seguida o que acredito poder ser o futuro da Comunicação e o papel crucial que ela desempenhará na forma como olhamos para factos que não são afinal tão distintos de país para país.

Pois bem, não vão muitos anos desde que esta área era olhada com alguma desconfiança ou, até, certa antipatia. Comunicar? O quê? Para quê? A quem muito quer saber nada se lhe diz. Falar publicamente sobre nós? Vamos é tratar do negócio. Festa? Para quê gastar dinheiro nisso? Mas, à medida que o tempo foi passando, foi sendo possível demonstrar que só comunicando com estratégia, seriedade e rigor se consegue a plena concretização de propósitos individuais e corporativos, o envolvimento dos colaboradores, dos clientes, dos parceiros, dos acionistas.  E foi possível provar que, não, dos profissionais de Comunicação não se esperava capacidade de organização de eventos, mas sim perícia no tratamento de informação e no desenvolvimento de relações pessoais capazes de fazer cumprir com sucesso os princípios encerrados nas tais ferramentas de análise de mercado.

Persistência, muita persistência. E uma obstinação sem limites no propósito de formar gestores, de convencer financeiros, de recrutar conhecimento científico e competências técnicas, de provar resultados de uma estratégia tantas vezes exercitada no modo “barro à parede”, de celebrar sucessos sem grande exuberância não fossem os passos remeter-nos para trás.

Difícil? Sim. Apaixonante? Sem dúvida. Acima de tudo não abrir mão do processo de transformação em boa hora encetado. Até porque, os negócios agradeciam.

Voltemos agora um pouco atrás e olhemos para a Comunicação em tempos de pandemia. Nunca tanto nem de formas tão distintas se comunicou. Imprensa, rádio, televisão, redes sociais, diretos, grandes reportagens, debates, comentários e documentários, opiniões, especiais, conferências de imprensa, nacionais, internacionais, programas de humor, programas de entretenimento, reality shows, tantos e tão distintos são os meios que não há como inventar desculpa para afirmarmos desconhecer o que acontece à nossa volta e no mundo.

E é precisamente na fase de constatação de que não há fome que não dê em fartura que nos cabe aprender a regular o quê, quando e como se comunica. Até porque, e temos assistido a tantos casos desses, nada pior do que informação mal trabalhada e mal veiculada para inquinar o resultado de investigação séria e pôr em causa o rigor dos dados que nos cabe por direito.

Assim sendo, embora consciente de que muito mais haverá para dizer sobre um tema que não esgota em matéria, em interesse ou em dependência, à questão de como encaro eu a Comunicação no pós situação a que assistimos atualmente, a resposta é, sem dúvida, de que só pode melhorar. Não sendo lógico qualquer retrocesso, mas sabendo que muito há a apurar também por uma questão de respeito por profissionais e utilizadores, vendedores e compradores, seremos capazes, não duvido, de separar o trigo do joio e, com recurso a sensatez na gestão da informação que exigimos deter, irmos contribuindo para a excelência do entendimento entre pessoas por via de processos de comunicação bem trabalhados em quantidade e em qualidade.

Até porque, defendem os estudos mais recentes, se muitas das atuais profissões não vão ter espaço num quadro de desenvolvimento futuro, tal não se aplica, definitivamente, à Comunicação. Essa, e de forma cada vez mais profissional, mais exigente, mais imperativa e mais rigorosa, veio para ficar e ser levada muito a sério na valorização dos profissionais que arregaçam mangas na hora de a levar a exercício.


Por Conceição Zagalo, membro fundador da GRACE e presidente da Assembleia Geral da Associação Cais

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