Uma pandemia que está a ser uma pancada

De repente levamos um murro que nos faz cair na realidade, ou sair da realidade, na verdade, não sabemos bem o que se está a passar.

Talvez seja este o sentimento generalizado, um género de atordoamento parecido com o que nos acontece quando batemos com a cabeça fortemente no chão. É isto que estamos a experimentar no mundo inteiro. Um pan(atordoamento), o efeito de uma pancada.

Quando era bem mais nova, caí de uma árvore, acho que era uma figueira. Caí de costas, como quem quer morrer de imediato. Fiquei uns bons segundos sem conseguir falar, dizer uma palavra que fosse, nem chorar sequer. Fiquei ali, suspensa, confinada ao espaço que ocupava com o meu corpo no chão e ao silêncio daquele momento quase eterno.

Tenho-me lembrado daquela queda muitas vezes nos últimos dias, porque os segundos que vivi naquela altura se os expandisse, seriam os tempos que estamos hoje a viver. Atordoamento, confinamento, embargo de palavras e medo. Também os murros nos levam até aqui, a este espaço inebriado e de repentina dor.

São as quedas, os murros que nos fazem, normalmente, acordar, também os baldes de água fria, nos despertam do sono.

Mas a questão que se coloca no meio desta pandemia é exatamente a de saber que realidade é esta onde estamos? Estávamos a dormir enquanto poluímos as nossas cidades com os escapes dos nossos automóveis? Quando as nossas fábricas trabalharam continuamente libertando para a atmosfera quantidades incomensuráveis de gazes tóxicos? Estávamos a dormir quando consumimos desenfreadamente tudo o que não precisávamos e produzimos toneladas e toneladas de lixo? E quando não tínhamos tempo para estar com os filhos ou fazer exercício físico, ou mesmo cozinhar em casa, estávamos a dormir?

Pois, se estávamos e se acordamos agora constatando a existência de um mundo mais limpo, não será melhor mantermos este novo nível de consciência?

Neste preciso momento, em que estamos a voltar à realidade, ou à normalidade, isso significa que estamos a tentar voltar a adormecer, estamos a preparar-nos para aquele sono consolador, anestésico que nos deixa reféns de nós próprios?

Depois de cair da árvore, tenho ideia, que nunca mais voltei a subir a nenhuma figueira com a desfaçatez com que o fiz, trepando até ao ramo mais alto sem me preocupar com a sua resistência para aguentar o meu peso.

Depois desta pandemia, seria ajuizado não escalarmos as curvas dos poluentes físico-químicos e biológicos do ar e da água, entre muitas outras curvas. Nesta fase, a prioritária é a curva das infeções por COVID-19, mas no futuro, não podemos adormecer para um novo acordar à bruta, para uma nova queda, a queda de um anjo, porque não temos desculpa possível, já perdemos a nossa versão angelical. Os anjos vivem uma espécie de vida suspensa, entre o céu e a terra, numa constante vigilância das coisas humanas e da natureza. Nós que já não somos da família dos anjos, talvez pudéssemos aprender com eles este meio caminho, este meio termo, esta virtude da vigilância das coisas humanas e da natureza. Camilo Castelo Branco deixou que os anjos caíssem, mas cabe-nos agora a nós não deixar que a história se repita.


Por Catarina G. Barosa, diretora de conteúdos da Tema Central

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