Uma sociedade, três pilares

Tenho lido, por dever de ofício mas também por gosto, vários textos sobre a pandemia. Entre os textos que gostei de ler incluem-se A Cruel pedagogia do Vírus, de Boaventura de Sousa Santos (Almedina) e A pandemia que abalou o mundo, de Slavoj Žižek (Relógio d’Água). São dois livros interessantes, empenhados, capazes de fazer pensar.

 

Os dois, sem surpresa, são muito críticos do mercado. Preconizam alternativas ao neoliberalismo, com as quais é fácil concordar. Mas a redução da economia de mercado à economia de casino deita fora o bebé com a água do banho. Existe uma maneira de ver a sociedade para lá do dualismo Estado vs mercado ou público vs privado.

 

Em Portugal, em particular, continuamos muito presos a falsos dualismos que opõem público e privado, como se numa sociedade decente a força de um tiver de representar a fraqueza do outro. É possível discordar: uma sociedade decente funda-se sobre três pilares: Estado, livre empresa e comunidade. Nenhum quer sobrepor-se aos outros. A relação deve ser de sinergia. Incluindo tensões, inevitáveis, mas compreendendo que a colaboração é aquilo que distingue as melhores sociedades, não o predomínio do Estado todo-poderoso pairando sobre a cabeça dos cidadãos, nem a sociedade de mercado que tudo reduz a um nexo de transações. Em vez de pensar em “ou” usemos o poder do “e”, como numa coisa “e” outra.

 


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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