Uma utopia de bolso

Enquanto continuarmos a ver no Chega um partido de fascistas, estaremos a alimentar o Partido dos Zangados. Eis uma pequena e incompleta lista de práticas que fermentam o descontentamento de muitos (imagino que à esquerda, à direita e ao centro), promovendo visões ideológicas desprovidas de pragmatismo, que se arriscam a agravar os problemas que prometem resolver:

  1. Um sistema de justiça irreformável que se move a passo de caracol vagaroso, e que gera…
  2. … a perceção de que “eles” se safam sempre
  3. Cargas fiscais asfixiantes sobre a classe média
  4. Uma burocracia estatal com traços kafkianos
  5. Perceção de que a corrupção é insuficientemente combatida
  6. Partidos-casulo, com escassa ligação à sociedade
  7. Nepotismo na política
  8. Cultura woke, geradora de um ambiente político com traços de crescente intolerância face à diferença
  9. Alguma imprensa que por vezes parece escrever para pertencer e não para compreender
  10. Um sistema de ensino desvitalizado – apesar da recente e impressionante demonstração de sentido de missão dos professores
  11. Um sistema de saúde que é usado como arma de arremesso ideológico
  12. Fobia ideológica inexplicável face à iniciativa privada
  13. Incapacidade de acabar de uma vez por todas com bairros de lata indignos
  14. Baixos níveis de produtividade.

Por onde começar a atacar estes problemas? Cada um terá a sua receita, mas eis um elenco de possibilidades:

  1. Acabar com mega-processos na justiça e torná-los a todos micro-processos
  2. Apostar na criação das melhores escolas públicas nos bairros mais desfavorecidos
  3. Dar espaço às empresas para inovarem, proporcionando o Estado programas e incentivos na linha da frente (sustentabilidade, espaço, tecnologias de informação, transformação digital)
  4. Pagar aos políticos salários alinhados com o que ganhavam antes de entrarem na política, para reter os bons que já lá se encontram (bem hajam!) e atrair outros como eles
  5. Formar os empresários para, seguindo Kouzes e Posner, se concentrarem em três coisas: criarem negócios lucrativos, partilharem os ganhos com os seus trabalhadores e garantirem que nas suas empresas o trabalho é visto como algo que é interessante e não torturante.

Parecendo difícil não será nada fácil. Haverá um milhão de razões para nada fazer. Mas como se costuma dizer, insensatez é fazer tudo igual e esperar resultados diferentes.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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