Terra onde o tempo até parece andar descalço, o Uruguai despediu-se esta semana de José ‘Pepe’ Mujica — ex-guerrilheiro, ex-presidente, eterno jardineiro da democracia — com um nó na garganta e uma flor no bolso. Mujica não foi só um político: foi um poema vivo de coerência, um cavalo velho que nunca esqueceu o caminho […]
Terra onde o tempo até parece andar descalço, o Uruguai despediu-se esta semana de José ‘Pepe’ Mujica — ex-guerrilheiro, ex-presidente, eterno jardineiro da democracia — com um nó na garganta e uma flor no bolso. Mujica não foi só um político: foi um poema vivo de coerência, um cavalo velho que nunca esqueceu o caminho da esquerda, mesmo quando a esquerda se perdeu de si mesma.
Segundo o Democracy Index 2024 da Economist Intelligence Unit, publicado em fevereiro de 2025, o Uruguai mantém-se como uma ‘democracia plena’, ocupando o 15.º lugar global com uma pontuação de 8,67. Este resultado reflete a robustez das instituições democráticas do país, incluindo um processo eleitoral transparente, funcionamento eficaz do governo e respeito pelas liberdades civis.
No Global Soft Power Index 2025 da Brand Finance, o Uruguai ocupa a 67.ª posição a nível mundial, mantendo-se entre os países latino-americanos com maior influência cultural e reputacional. Este desempenho reflete a imagem internacional do país como um bastião de democracia, direitos civis e políticas públicas progressistas.
Cultura
O Uruguai lê-se devagar, com a atenção que se dá aos detalhes. Menos exuberante que os vizinhos, mas de uma profundidade serena, feita de gestos contidos, palavras escolhidas e uma melancolia que não pede desculpa. A cultura vive nas entrelinhas, nos pequenos rituais, nas memórias que cabem numa esquina ou num banco de jardim.
Montevideu é uma cidade onde a literatura tem morada certa. As esquinas guardam versos de Eduardo Galeano e Juan Carlos Onetti como se fossem bússolas. Guitarras tocam candombe ao ritmo dos corpos, e o tambor dispersa não como ruído, mas como linguagem ancestral. Nos cafés antigos, nos mercados com cheiro a doce de leite e carne grelhada, a cultura é resistência inspiradora.
O futebol também é fé — mas fé sem milagre. É suor e tática, com sabor a glória antiga e a derrota digna. Ainda se fala de Alcides Ghiggia como quem conta histórias à volta da fogueira: «só três pessoas calaram o Maracanã — o Papa, Frank Sinatra e eu», dizia ele. Essa frase ficou para sempre, como a expressão de um país pequeno que ousou ser gigante por um dia.
A música — essa outra língua nacional — ecoa no tango de Carlos Gardel (que dizem que nasceu aqui), nas milongas que embalam o tempo, nos violões partilhados à sombra das árvores. Mas também na murga, nas canções de protesto, e na voz rouca de um povo que canta até quando cala. Aqui, o silêncio também tem som — e é profundamente uruguaio.
Política
A política no Uruguai é marcada pela sua estabilidade e pela transição pacífica após a ditadura militar, que durou de 1973 a 1985. Durante esse período, o país foi governado por uma estrutura militar que suprimiu as liberdades democráticas e cometeu abusos contra os direitos humanos. A transição para a democracia, liderada por figuras como o ex-presidente Tabaré Vázquez, foi um marco significativo na história política do país.
Desde então, o Uruguai tem sido uma das democracias mais sólidas da América Latina, com uma forte ênfase na transparência e na justiça social.
Pepe Mujica, que governou o Uruguai de 2010 a 2015, tornou-se uma figura emblemática não só do país, mas também do planeta. Conhecido como ‘o presidente mais humilde do mundo’, era famoso pelo seu estilo de vida simples, morando numa pequena ‘chácara’, além de doar grande parte do seu salário.
Atualmente, o Uruguai é liderado por Luis Lacalle Pou, presidente desde 2020. Lacalle Pou é membro do Partido Nacional e apresenta um governo com uma linha mais liberal e de mercado, focado em políticas económicas de ajuste fiscal e incentivo ao setor privado.
Embora tenha conquistado a simpatia de setores mais conservadores, o seu governo enfrenta críticas por não abordar de forma eficaz a desigualdade social. Aumentou também a idade mínima de reforma de 60 para 65 anos, sendo alvo de contestação por parte de sindicatos e movimentos sociais.
Em termos de liberdade política e direitos civis, o Uruguai continua a ser um dos países mais avançados da região, apresentando-se como um dos países da América Latina com menor índice de corrupção. Um reflexo das suas instituições sólidas e do compromisso com a transparência.
Economia
O Uruguai não faz milagres económicos — faz contas. Cresce devagar, mas cresce. Tem um dos PIB per capita mais altos da América Latina (cerca de 23 mil dólares em 2023, segundo o Banco Mundial), mas também sabe que isso, por si só, não resolve a vida de todos. O país parece ter trocado o deslumbramento pelo equilíbrio. Prefere a prudência à promessa fácil.
Nos últimos anos, apostou em três trunfos: agro-exportações, turismo sustentável e transição energética. O campo continua a ser o motor discreto do país — a carne, a soja, o arroz e o leite viajam bem, e sustentam um modelo que, apesar das crises globais, tem conseguido manter alguma estabilidade.
O turismo, por sua vez, passa despercebido como aquela terra. Punta del Este brilha, mas o resto prefere o charme calmo das estâncias e do litoral interior. Nada de multidões — só céu largo e vinho local.
Mas é na energia que o Uruguai desafia expetativas. Mais de 94% da eletricidade vem de fontes renováveis, incluindo hídrica, eólica e solar — uma das taxas mais altas do mundo. O país conseguiu esta transição em menos de uma década, e sem subsídios massivos. Para muitos, é um feito técnico. Para os uruguaios, é apenas sensatez.
A inflação — um fantasma constante na região — está sob controlo: fechou 2023 abaixo dos 6%, dentro da meta do Banco Central. Já o desemprego ronda os 8%, uma taxa moderada, ainda que com variações regionais e desigualdades de género e idade.
Sim, há pobreza. E desigualdade. Menos de 10% da população vive abaixo da linha dos mínimos da dignidade, e a concentração de riqueza ainda pesa. Mas há um Estado que, em geral, funciona — com políticas sociais relativamente eficazes, acesso universal à saúde, e uma rede de proteção que, embora longe da perfeição, resiste.
Sociedade
O Uruguai envelhece — como quem medita. A taxa de natalidade está entre as mais baixas da América Latina (apenas 1,4 filhos por mulher em 2023, segundo a Cepal), e o número de jovens a sair do país ultrapassa os que entram. O futuro é cinzento? Talvez. Mas é um cinzento limpo, com dignidade, com saúde pública e reforma garantida. O país envelhece devagar, como quem aceita o tempo sem pânico.
É também um dos países mais progressistas do mundo. Legalizou o aborto (até às 12 semanas, desde 2012), o casamento entre pessoas do mesmo sexo (desde 2013), e a cannabis recreativa (em 2013, sendo o primeiro país do mundo a fazê-lo com regulação estatal). Tudo isto foi feito com debate, com pragmatismo, sem histerias nem referendos ensanguentados. É uma democracia que prefere o consenso ao ruído.
Não há histeria moral nem espetáculo nos parlamentos. Mujica dizia que a liberdade era mais importante que o consumo — e o país parece ter ouvido. Ainda se compra pouco, mas lê-se muito. Não é raro ver discussões políticas sérias nas praças, nos cafés, nas aulas. E mesmo entre os mais jovens, o desinteresse globalizado convive com uma ética cívica muito própria.
Ainda assim, na educação, há dificuldades — como em todo o continente — mas também conquistas: o Plano Ceibal, que desde 2007 distribui computadores portáteis a todos os alunos das escolas públicas, transformou o acesso digital e tornou-se referência internacional. Hoje, mais de 85% das crianças têm acesso diário à internet em casa ou na escola.
Conclusão
Com a morte de Mujica, o Uruguai perde uma voz — mas não a memória. Talvez seja isso que o define: um país onde as recordações pesam mais que o discurso. Que escolhe ser pequeno para poder ser inteiro.


