As empresas portuguesas entram em 2026 com intenções de contratação positivas, mas mais seletivas. A automação, a eficiência de processos e a reorganização interna começam a ter um impacto direto na forma como se cria e se reduz emprego. De acordo com o ManpowerGroup Employment Outlook Survey para o primeiro trimestre de 2026, Portugal apresenta […]
As empresas portuguesas entram em 2026 com intenções de contratação positivas, mas mais seletivas. A automação, a eficiência de processos e a reorganização interna começam a ter um impacto direto na forma como se cria e se reduz emprego.
De acordo com o ManpowerGroup Employment Outlook Survey para o primeiro trimestre de 2026, Portugal apresenta uma Projeção para a Criação Líquida de Emprego de +19%, um sinal de otimismo moderado num contexto económico ainda marcado pela incerteza global. As intenções de contratação recuperam face aos dois trimestres anteriores e regressam a níveis semelhantes aos do início de 2025, mas o ritmo abranda e o perfil das contratações muda.
Otimismo contido e contratações mais cirúrgicas
Entre janeiro e março, 38% dos empregadores tencionam aumentar as suas equipas, enquanto 42% planeiam manter o número de trabalhadores e 17% admitem reduções. Apesar da melhoria das perspetivas, o número médio de colaboradores que as empresas pretendem contratar caiu de sete para quatro face ao trimestre anterior, um indicador claro de maior contenção.
No plano internacional, Portugal posiciona-se na metade inferior da tabela, ficando cinco pontos percentuais abaixo da média global, fixada nos +24%.
Segundo Rui Teixeira, Country Manager do ManpowerGroup Portugal, o cenário reflete a resiliência da economia nacional, apoiada pela revisão em alta do crescimento do PIB, pela estabilidade do desemprego e pelo aumento do rendimento disponível das famílias. O reforço do investimento associado ao Plano de Recuperação e Resiliência continua também a sustentar a procura interna. Ainda assim, a exposição da economia portuguesa ao exterior mantém a prudência nas decisões empresariais.
O principal motor das novas contratações permanece o crescimento das empresas. 42% dos empregadores indicam a expansão do negócio como razão para reforçar equipas, um aumento de sete pontos percentuais face ao trimestre anterior.
A necessidade de recursos para projetos específicos surge logo a seguir, referida por 23% das empresas, enquanto 20% apontam novas iniciativas que criam funções inéditas. O preenchimento de vagas em aberto de trimestres anteriores também assume relevância, refletindo a persistente escassez de competências críticas e processos de recrutamento mais longos.
A tecnologia mantém-se como fator estrutural, levando 17% das organizações a planear contratações adicionais, sobretudo para funções especializadas.
Automação e eficiência explicam a redução de postos de trabalho
Do lado das reduções, a automação ganha protagonismo. 24% dos empregadores apontam a automação e a otimização de processos como principal motivo para a diminuição de efetivos, a par da consolidação de funções. Trata-se de uma mudança estrutural no mercado de trabalho, em que a produtividade cresce, mas os perfis procurados tornam-se mais exigentes e especializados.
Os fatores económicos surgem em segundo plano: 21% referem desafios económicos e 23% mencionam reestruturações ou downsizing. Este padrão distingue Portugal do cenário global, onde o impacto económico continua a ser a principal razão para cortes, surgindo a automação com menor peso relativo.
Todos os setores analisados apresentam perspetivas de contratação positivas para o início de 2026. O Comércio e Logística lidera com uma Projeção de +29%, seguido da Indústria (+26%) e de Finanças e Seguros (+24%).
A Indústria destaca-se pelo crescimento mais expressivo em termos homólogos, com uma subida de 24 pontos percentuais. Já o setor de Tecnologia e Serviços de Informação apresenta a projeção global mais baixa (+10%), embora o subsetor de Tecnologia e Serviços de IT revele um desempenho significativamente superior, com +36%, sinalizando uma recuperação sustentada.
Sul do país destaca-se; médias e grandes empresas com mais força
A nível regional, todas as zonas do país apresentam expectativas positivas. A Região Sul lidera com uma Projeção de +30%, seguida do Centro (+24%) e do Norte (+16%).
Em contraste, a Grande Lisboa (+17%) e o Grande Porto (+11%) mostram sinais de abrandamento face ao primeiro trimestre de 2025, embora mantenham estabilidade em relação ao trimestre anterior. O dinamismo regional reflete a redistribuição do investimento e da atividade económica para fora dos grandes centros urbanos.
As intenções de contratação são mais robustas nas grandes empresas entre 1.000 e 4.999 trabalhadores, com uma Projeção de +25%. As empresas até 1.000 trabalhadores e as médias empresas seguem com +22% e +20%, respetivamente.
Nos extremos, a prudência é maior. Micro e pequenas empresas, assim como organizações com mais de 5.000 trabalhadores, apresentam perspetivas positivas, mas mais conservadoras, refletindo maior exposição ao risco e à volatilidade económica.
Europa recupera lentamente, América do Norte perde fôlego
A nível global, a Projeção para a Criação Líquida de Emprego fixa-se nos +24%, praticamente estável. O Brasil, a Índia e os Emirados Árabes Unidos lideram as intenções de contratação, enquanto vários países europeus de Leste e Hong Kong registam os valores mais baixos.
A Europa mostra sinais de recuperação gradual, com uma projeção de +19%, enquanto a América do Norte continua a perder dinamismo pelo terceiro trimestre consecutivo, atingindo o nível mais baixo desde 2021.
O retrato traçado pelo estudo é claro: o emprego continua a crescer, mas já não ao ritmo do volume. O foco desloca-se para a eficiência, a tecnologia e as competências críticas. A automação deixa de ser uma tendência futura e passa a ser um fator concreto nas decisões de contratação.


