Titular da Cátedra UNESCO de Literacia de Futuros no Museu do Amanhã e professor de Ecologia na UFRJ, Fábio Scarano esteve nas Conferências do Estoril, na NovaSBE, com a Inspirational Talk «Preparing for Tomorrow». À Líder, fala de presença, de clima, de inteligência artificial e da utopia que nasceu de uma carta.
Se pudesse oferecer uma nova capacidade à humanidade, Fábio Scarano não escolheria a de prever o futuro, mas a de o imaginar de outra maneira. Para o ecólogo brasileiro, o que hoje nos falta é presença: sem ela, não antecipamos, e sem imagens do futuro o amanhã será igual ao presente, ou pior.
O desmatamento na Amazónia caiu para o nível mais baixo desde 1988, com 3.335 km² estimados pelo Inpe entre agosto de 2025 e julho de 2026, menos 42,5% do que os 5.796 km² do ano anterior. Ao mesmo tempo, as emissões de CO2 de origem fóssil atingiram em 2025 um máximo histórico de 38,1 mil milhões de toneladas, e o orçamento de carbono que resta para travar o aquecimento em 1,5 °C equivale a cerca de quatro anos ao ritmo atual.
É este desfasamento entre o que se vê e o que se faz que Fábio Scarano, titular da Cátedra UNESCO de Literacia de Futuros no Museu do Amanhã e professor de Ecologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, trouxe às Conferências do Estoril, na NovaSBE. , Na conversa com a Líder, defende que não houve recuo na sustentabilidade, porque o mundo nunca chegou a avançar, e que o maior contributo da inteligência artificial pode ser obrigar-nos a perguntar o que é ser humano. Recorda ainda a carta de Américo Vespúcio de onde nasceu a palavra utopia e a «utopia do amor» que, diz, continuamos a procurar.
Se pudesse oferecer à humanidade uma nova capacidade, seria a de prever o futuro ou a de conseguir imaginá-lo de outra maneira?
A segunda: imaginar de outra maneira. Julgo que a principal capacidade que hoje nos falta é a presença, que é, aliás, o tema de que vinha a falar. A forma como nos fazemos presentes é fundamental para integrar a memória, a atenção e a antecipação. E a antecipação é adaptativa, algo que aprendi no mundo biológico.
No caso humano, criamos imagens do futuro e agimos em função delas. Se não conseguimos criar essas imagens, o futuro será igualzinho ao presente, ou pior.
Somos melhores a explicar crises depois de acontecerem do que a evitá-las. Porque é tão difícil perceber os sinais a tempo e o que mudaria na forma como decidimos? Governos e empresas pensam no próximo ano, enquanto os grandes problemas demoram décadas a revelar as consequências.
Há uma combinação de duas coisas. O ser humano é, por definição, imediatista. A nossa projeção é curta e apostamos que o pior não nos vai apanhar. Por vezes, nem nos importamos que apanhe os outros, mas um dia essa coisa má apanha-nos. Vimo-lo com a pandemia e vemo-lo com os eventos extremos das alterações climáticas. É claro que as pessoas mais vulneráveis, mais pobres, estão normalmente mais expostas, mas, de uma maneira ou de outra, acaba por apanhar toda a gente.
Entramos, então, como que em modo automático. Há um filósofo francês de quem gosto muito, Henri Bergson, que dizia, no início do século XX, que quando o automático se instala, o espírito retira-se. E o espírito é justamente aquilo que decorre da nossa presença, um estado de consciência que nos deixa alerta, que nos deixa vivos. Por vezes, por cansaço, entramos em modo automático e deixamos de estar presentes.
Mas somos pessoas, não temos grande poder sobre as consequências, embora possamos mudar um bocadinho. Já outras entidades têm. Vários bancos abandonaram a aliança climática e algumas petrolíferas voltaram a apostar no petróleo e no gás. Estamos perante um recuo na sustentabilidade?
Não diria que é um recuo, porque, pensando bem, não se avançou muito. O painel do clima da ONU, no qual atuei durante seis, sete anos, foi criado em 1988. De lá para cá, todos os anos batemos o recorde de emissões de gases com efeito de estufa, apesar de tudo o que a ciência vem dizendo. A única exceção foi 2020, por causa da pandemia. Em todos os outros anos batemos recordes. Há vários países a anunciar compromissos de zero carbono, mas, no total, as emissões têm batido recordes. Por isso, não houve retrocesso, porque sequer se chegou a começar. Há ainda muito por fazer.
A sustentabilidade e o clima são um problema planetário. Podemos ser super sustentáveis, mas, se o vizinho não for, vai correr mal para nós da mesma maneira. Depois vem o argumento de que foi o Brasil, de que foi a China, de que foram os Estados Unidos. É uma questão planetária e esse acordo planetário, infelizmente, não é posto em prática.
Em que pode a inteligência artificial ajudar-nos a antecipar o que aí vem? E o que continua a escapar-lhe e só o olho humano consegue descobrir? Corre o risco de nos dar ainda mais confiança nas ideias que já temos?
É uma ótima pergunta. Para mim, talvez a principal contribuição que a inteligência artificial possa vir a dar é fazer-nos refletir sobre o que é ser humano. Essa pergunta precisamos mesmo de a fazer. Tenho a impressão de que a inteligência artificial não deve ter remorsos, não deve apaixonar-se e certamente não sente saudade. Há um conjunto de coisas que nos tornam humanos e de que nos temos esquecido. Vivemos em modo automático, e esse modo automático a máquina consegue fazê-lo facilmente.
Além da questão filosófica, há problemas práticos. Imagine o seguinte quadro: há três frentes de utilização de minérios que vão exigir muito. Uma é a transição energética para o solar: os painéis solares precisam de metal, as pás eólicas, metal, as hidroelétricas, metal. A inteligência artificial, metal, terras raras. A guerra, o armamento, metal. Estas três frentes vão competir. Oitenta e cinco por cento desses minérios estão debaixo de terra indígena, de floresta tropical. E há ainda a quantidade absurda de água que a inteligência artificial usa. De onde vem essa água? Como vamos mantê-la, com as florestas a serem desflorestadas à velocidade a que estão a ser?
O que nos diz a Amazónia sobre o nosso próprio futuro? Ou, dito de outra forma, o que podemos aprender, em Portugal, com o Brasil, e o que lhe podemos ensinar?
Vou contar-lhe uma coisa que sei que pode soar polémica e que as pessoas conhecem pouco, e é por isso que gosto de falar dela. Em 1500, quando os portugueses chegam ao Brasil, começa o episódio da colonização, que teve mil coisas problemáticas, próprias de uma época. Mas houve um momento muito interessante. Em 1502, Américo Vespúcio, navegador florentino, foi incumbido pela coroa portuguesa de visitar o Atlântico Sul e ver o que se passava por lá. Escreveu várias cartas. Uma delas, escrita algures entre a Baía de Guanabara, onde está o nosso Museu do Amanhã, e o litoral norte de São Paulo, chamava-se «Mundo Novo».
A carta fala do povo que ali vivia, os Tupinambá. Julgo que o que Américo viu neles foi o que queria ver. Diz que essas pessoas se amavam umas às outras, que foi recebido com festa, festa todos os dias. Diz que amavam a natureza, porque tudo o que faziam estava ligado diretamente aos elementos da natureza. Diz ainda que tinham amor-próprio, e isso deduziu-o do facto de andarem nuas. Na época, toda a gente na Europa usava muita roupa, a corte e tudo isso. Esta trindade do amor, a si mesmo, ao próximo e à natureza, sugere um regime de governação ideal. Américo especula que talvez essas pessoas não tivessem lei, talvez não houvesse rei e talvez não houvesse um Deus punidor.
Essa visão de um sistema de governação possivelmente ideal inspira o livro «Utopia», que sai treze anos depois, escrito pelo inglês Thomas More.
Assim, a palavra utopia, que se tornou tão importante, que designa uma bússola, um caminho, uma direção para um futuro melhor, nasce da relação entre o Brasil e Portugal, uma relação que, sabemos, teve vários problemas.
Infelizmente, a visão do mundo que prevaleceu não foi a da carta de Américo, foi a da carta de Pero Vaz de Caminha, que dizia: «Nessa terra, em se plantando, tudo dá.» Um trazia uma visão utilitária do mundo, o outro uma visão poética. Venceu a utilitária.
Mas o sonho que Américo viu é o sonho da América. O continente é batizado de América por causa dessa carta. Para mim, esta é a grande utopia dos últimos quinhentos anos, a utopia do amor, que não está perdida, porque continuamos à procura dela.
Que aula, professor. Depois de tantos anos a estudar a natureza e a trabalhar para a proteger, o que mais o surpreende? É aquilo que continuamos a destruir, sabendo as consequências, ou aquilo que ainda não conseguimos compreender sobre o que estamos a destruir?
O que mais me espanta é que já passou um quarto do século XXI e ainda precisamos de discutir porque é importante conservar a natureza. É incrível que ainda não tenhamos aprendido que temos de a conservar, porque nós somos natureza. Somos parte dela, dependemos dela, somos interdependentes de tudo o que é vivo, uns dos outros, das árvores, das plantas, dos fungos, das bactérias, numa relação de interdependência que a ciência demonstra há séculos. E ainda não conseguimos absorvê-lo.
Isso acontece porque somos, como dizia mais cedo, antropocêntricos. Somos excecionalistas, porque achamos que somos diferentes, maiores do que tudo o resto. E agimos assim em relação ao mundo, mas também em relação ao próximo. Os nossos preconceitos nascem desta característica. Para mim, este é o purgatório que teremos de atravessar para chegar a um mundo melhor.
O professor trabalha todos os dias a tentar perceber o futuro, mas, quando chega a casa, também dá por si a tentar prever o que vai acontecer, ou consegue simplesmente viver sem antecipar a próxima catástrofe?
Muito boa. A minha relação com o futuro não é de previsão. Acredito que o futuro emerge. E esse emergir dá sinais, mas às vezes há sinais que simplesmente não percebemos. É como se carregássemos o futuro dentro de nós, por isso temos de estar atentos a ele.
A preocupação em prever tem a ver com uma preocupação muito moderna de ter controlo. Depois de muita coisa que já vi na minha vida, desisti do controlo, digo-lhe com total tranquilidade. Não há muito que queira controlar, porque a vida, apesar da sua beleza, é fluida, é aberta.


