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Home Notícias Trabalho Por que a semana de trabalho de quatro dias é melhor para todos

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Por que a semana de trabalho de quatro dias é melhor para todos

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30 Maio, 2022 | 7 minutos de leitura

No momento em que Portugal aprova a proposta para o estudo da semana de trabalho de quatro dias, Pedro Gomes, autor do livro “Sexta-feira é o novo sábado” derruba o ceticismo e defende a ideia de como esta forma de trabalhar é melhor para o negócio no palco da Leading People – International HR Conference, […]

No momento em que Portugal aprova a proposta para o estudo da semana de trabalho de quatro dias, Pedro Gomes, autor do livro “Sexta-feira é o novo sábado” derruba o ceticismo e defende a ideia de como esta forma de trabalhar é melhor para o negócio no palco da Leading People – International HR Conference, “Act Now for Human Health”.

O professor associado de Economia em Birkbeck, na Universidade de Londres, vê a semana de trabalho de quatro dias “como uma inovação social, uma melhor forma de organizar a economia no século 21”.

No século 19, as pessoas trabalhavam seis dias por semana, descansando aos domingos. Foi em 1908 que pequenas empresas nos EUA começaram a adotar a semana de cinco dias, com Henry Ford, a implementar o modelo na sua fábrica em 1926. “Todas as críticas que hoje ouvimos à redução da semana de trabalho, são as mesmas que se ouviam na altura”, refere o autor dando ainda como referência o nome de Richard Nixon, que em 1956, lançou o debate para a semana dos quatro dias. Na altura, foi considerado um visionário.

Hoje, no início século 21, é evidente para Pedro Gomes que uma semana de quatro dias é a melhor forma de organizar a sociedade. Em 100 anos tudo mudou, a estrutura familiar e económica, as práticas de trabalho, a tecnologia, menos a semana de trabalho, como se fosse uma constante de matemática impossível de mudar.

“A semana de trabalho não deve ser uma constante matemática, deve mudar, evoluir, à medida que a sociedade muda e evoluiu”, afirma. Para além disso, as empresas que hoje reduzem a semana de trabalho “ficam numa posição de empregadoras de excelência” de onde nenhum trabalhador quer sair. E no “caso de os ganhos de produtividade não serem suficientes para compensar a mudança, permite à empresa moderação salarial nos anos seguintes, porque ainda assim os trabalhadores não irão querer sair”, argumenta.

Para quebrar tabus e criar curiosidade sobre esta novo modelo, Pedro Gomes partilha 10 lições daquele que é considerado um dos maiores empresários do século 20, Henry Ford:

  1. Não se faz por sentimento – “Não há necessidade de apelar ao sentimento em toda esta questão do lazer dos trabalhadores. O sentimento não tem lugar na indústria.”
    Nenhum empresário está a dotar a semana de quatro dias por humanismo ou caridade. Se o fazem é porque melhora o negócio, afirma Pedro Gomes.
  2. Visão global da organização – “Numa grande empresa, o empregador, como o empregado, está perdido na máquina. Juntos, eles criaram uma grande organização produtiva”.
    A pergunta a fazer não é se os trabalhadores conseguem fazer o mesmo em quatro dias, mas se a empresa consegue produzir o mesmo, com menos custos, numa semana mais curta. O economista explica que as empresas que têm hoje adotado este modelo são mais pequenas (até 1000 trabalhadores), pois é necessário que o empresário tenha uma visão global.
  3. Melhores trabalhadores – “Descobrimos que os homens voltam após dois dias de folga tão frescos e despertos que se tornam capazes de pôr tanto a cabeça como as mãos no seu trabalho.”
    Há uma capacidade de trabalhar mais intensivamente nos restantes dias, para além de redução de erros e omissões no processo de produção, diminuição de absentismo e rotação de trabalhadores.
  4. Melhor gestão – “Se a tarefa é fazer mais em 5 dias do que agora em 6, então a gestão encontrará o caminho.”
    Henry Ford via a redução da semana de trabalho como melhoria contínua da empresa, de processos mais intensivos e por isso produção com menos custos. Os empresários que hoje reduzem a semana de trabalho usam isso como forma de reorganizar a empresa.
  5. Necessidade de experimentar – “Temos estado a prepará-la desde há três ou quatro anos. (…) Sabemos agora através da experiência da mudança de cinco para seis dias e vice-versa que podemos obter em cinco dias uma produção pelo menos tão grande como a que obtínhamos em seis.”
    Hoje as empresas que passam para a semana de quatro dias começam com uma experiência ao longo de um mês, depois três meses, em áreas distintas. “É preciso experimentar”, defende Pedro Gomes, e por isso “estes projetos pilotos que vão decorrer em Espanha, Escócia e Portugal são tão importantes para conseguir quantificar os ganhos”.
  6. Não se reduz o salário – “Os homens, segundo o seu mérito, receberão a mesma remuneração, equivalente a uma semana de seis dias de trabalho.”
    “O aumento de produtividade e redução de custos compensa esta mudança”, afirma o autor. Há exceções, com alguns setores e ocupações em que os ganhos podem não compensar, mas há outras formas de ajustamento, como, por exemplo, aumentar em meia hora ou uma hora a jornada de trabalho nos restantes dias.
  7. Trade-off na coordenação – “A partir deste momento, connosco deixará de haver trabalho aos sábados e aos domingos.”
    Esta é a maior dificuldade de implementar a semana de quatro dias, problema que desaparece quando o resto da economia normalizar o modelo. A principal decisão para as empresas que adotam a semana de quatro dias de trabalho é se todos folgam à sexta-feira ou em dias alternativos, sob o risco de haver problemas de coordenação externos com fornecedores, clientes, e outros.
  8. Visão de longo prazo – “Muitas coisas vão mudar. Aprenderemos a ser mestres em vez de servos da natureza.”
    É por isso que passados 100 anos falamos de Henry Ford, pela sua capacidade de ver o futuro e tomar um papel ativo na sua constituição. “Não é ficar à espera que aconteça, é tomar um papel de liderança na definição e construção desse futuro, e é assim que se constroem marcas inovadoras”, afirma Pedro Gomes.
  9. Vai estimular a economia – “O comércio em vez de abrandar por as pessoas estarem «sem trabalhar», vai-se acelerar, porque as pessoas consomem mais no seu tempo de lazer do que no seu tempo de trabalho. O que conduzirá a mais trabalho. E isso a mais lucros. E isso a mais salários. O resultado de mais tempo de lazer será exatamente o contrário do que a maior parte das pessoas crê que seria.”
    Não são tanto os benefícios diretos para as empresas que adotarem a semana de quatro dias, mas sim ganhos mais amplos para o resto da economia. O consumo vai acelerar, pois as pessoas consomem mais no seu tempo de lazer. “A economia sem clientes, não é uma economia dinâmica e pessoas sem tempo não são bons clientes”, argumenta o autor, referindo ainda os ganhos de um fim-de-semana de três dias para a indústria do Turismo em Portugal.
  10. Vai promover a inovação – “Foi em 1890 que comecei a trabalhar no motor de dois cilindros. (…) todas as noites e toda a noite de sábado. (…) Em 1892, acabei por construir o meu primeiro carro.”
    Antes de ser empresário, Henry Ford era mais um trabalhador numa das fábricas de eletricidade de Thomas Edison, onde trabalhava seis dias por semana. E todas as noites, durante três anos, começou a construir o seu primeiro carro com motor de combustão interna. “Ele tornou-se Henry Ford não pelo que fazia no seu tempo de trabalho, mas pelo que fazia no seu tempo de lazer”. Com mais um dia de descanso, “muitos que hoje têm um trabalho diurno, podem dedicar-se à sua paixão e contribuir para a economia, com o que fizerem no seu tempo de lazer”, defende o autor.

E porque não sermos um dos próximos Henry Ford?

“Se continuarmos a fazer o que sempre fizemos, continuaremos a ter o que sempre tivemos”.

Por Rita Saldanha

Assista à talk “A semana de trabalho de 4 dias: uma oportunidade para a economia” aqui.

Tenha acesso à galeria de imagens da Leading People – International HR Conference aqui.

 

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