Num mundo onde a mudança deixou de ser fenómeno para passar a ser estado natural, já não basta liderar com a cabeça. Exige-se que se lidere com a pele toda. Que se saiba sentir antes de mandar. Ouvir antes de corrigir. Humanizar antes de contabilizar. E é aqui que a empatia e a inteligência emocional deixam de ser palavras bonitas e passam a ferramentas indispensáveis de gestão.
Durante décadas, o mito do líder frio, racional e imperturbável alimentou a cultura empresarial como um dogma. Mas a realidade mostra o seu contrário: quem lidera como se fosse máquina perde as pessoas. E sem pessoas, não há organizações. A inteligência emocional já não é apenas uma vantagem competitiva – é um requisito mínimo de sobrevivência.
O psicólogo Daniel Goleman, autor do já clássico Inteligência Emocional, escreveu que «líderes empáticos são capazes de compreender e responder adequadamente às emoções dos seus colaboradores, criando um ambiente de confiança e colaboração». Parece simples, mas implica um trabalho interior de subtil afinação.
O corpo dos números e a alma dos dados
Um estudo da Universidade de Harvard revela que líderes com alta inteligência emocional são, em média, 40% mais eficazes nas suas funções do que os restantes.
Empresas que cultivam uma cultura de empatia podem alcançar até 60% mais lucro do que aquelas que não o fazem. Basta lembrar o caso da Starbucks: após implementar programas de treino de empatia para os seus colaboradores, as vendas aumentaram 11% num único trimestre.
Mais exemplar ainda é a revolução tranquila operada por Satya Nadella, CEO da Microsoft. Em 2014, herdou uma organização gigante, mas emocionalmente estagnada. Não entrou de rompante. Escutou. Reformulou. Apostou numa cultura de vulnerabilidade, aprendizagem contínua e segurança psicológica. Resultado? Queda de 20% na rotatividade de funcionários e um salto de 86 mil milhões de dólares em receitas até 2021. A Microsoft voltou a respirar. E o mundo tomou nota.
Será que sentir demasiado pode atrapalhar? Será que a empatia esvazia a firmeza? Que liderar com o coração fragiliza a decisão?
A resposta está no equilíbrio. A liderança empática não implica decisões baseadas exclusivamente em emoções – isso seria ingénuo e até perigoso. Daniel Goleman diz que «na liderança, a empatia é mais do que uma virtude – é uma ferramenta de precisão». Liderar, portanto, é transformar a experiência – própria e alheia – em caminho.
A liderança do futuro – que é já do presente – é feita de coragem emocional, escuta ativa e empatia prática. No fim do dia, tudo se resume a isto: as organizações não são feitas de processos, mas de pessoas. E as pessoas não seguem títulos. Seguem líderes. Líderes com presença. Líderes com pele.
Este artigo foi publicado na edição nº 30 da revista Líder, cujo tema é ‘Enfrentar’. Subscreva a Revista Líder aqui.