A Europa voltou a arder. Na semana de 23 de junho a 2 de julho de 2025, uma vaga de calor extremo matou mais de 2 300 pessoas em excesso nas principais cidades europeias, segundo dados divulgados pela Rede Europeia de Vigilância da Mortalidade (EuroMOMO). Um estudo coordenado pelo Instituto Grantham do Imperial College de Londres confirma: mais de 1 500 destas mortes foram diretamente provocadas pelo calor — um número «altamente compatível com o impacto das alterações climáticas causadas por emissões humanas».
Em Portugal, os termómetros explodiram. Em Mora, no Alentejo, os 46,6 °C foram a temperatura mais elevada do ano até agora, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). No mesmo período, a Direção-Geral da Saúde (DGS) reportou 284 mortes em excesso, sendo a maioria em idosos com mais de 85 anos. Este número é superior ao registado durante as ondas de calor de 2013 e 2016, apontando para uma tendência clara e crescente.
Mar quente, florestas secas, animais em colapso
O impacto foi transversal. No Mediterrâneo, a temperatura da água do mar atingiu valores recorde, com zonas próximas da costa a chegarem aos 30 °C, segundo o programa europeu Copernicus. A vida marinha ressentiu-se: houve registos de mortalidade súbita de peixes e invertebrados em zonas costeiras de Itália, Espanha e Croácia.
Na Grécia, incêndios florestais devastaram zonas da ilha de Creta e da região de Argólida, obrigando à evacuação de centenas de pessoas. Mais de 8 000 hectares de floresta arderam numa única semana, segundo a Proteção Civil grega. Em França, rios secaram em três dias e centenas de aves morreram em pleno voo, sem abrigo térmico.
Estamos a assistir a uma transformação do mundo vivo. E quem nega as causas humanas dessa transformação, fá-lo contra a ciência, contra os factos e contra os mortos.
Negacionismo: o luxo de quem não sofre o calor
Em pleno colapso térmico, ainda há quem recuse a realidade. Os negacionistas climáticos — entre políticos, cronistas e vozes amplificadas nas redes sociais — continuam a semear dúvidas onde já não há espaço para debate. A temperatura média global nos últimos 12 meses foi a mais elevada desde que há registo (NOAA, NASA, Copernicus). A frequência de ondas de calor quadruplicou desde os anos 1980. Os dados existem. A ciência é clara.
Negar é um ato de privilégio. Porque o calor não mata quem vive num ambiente climatizado. Mata quem definha no 6.º andar com telhados desfeitos, sem ar-condicionado e com um coração cansado de sobreviver.
Lisboa repensa-se: um plano, um exemplo
Face a este cenário, Lisboa tenta responder. Durante os três dias da Archi Summit 2025, decorre no Hub Criativo do Beato a iniciativa ‘ReThink Lisbon: Climate & Regeneration Proposal 2030′, liderada pelo gabinete de arquitetura hori-zonte. O objetivo: entregar à cidade um plano técnico e cientificamente fundamentado para enfrentar o desequilíbrio térmico urbano.
Entre os especialistas envolvidos estão Filipe Duarte Santos, climatologista e presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável, os arquitetos Aires Mateus e Inês Lobo, o urbanista Daniel Casas Valle, e a especialista em saúde pública Teresa Leão. A proposta será apresentada esta hoje, 11 de julho, às 14h30, e entregue à Câmara Municipal de Lisboa.
Cidade viva, soluções regenerativas
O foco está na desigualdade térmica do território urbano. Lisboa tem bairros onde o calor se acumula, amplificado por ruas sem árvores, fachadas que absorvem radiação e ausência de espaços verdes. A proposta do ReThink Lisbon aponta caminhos: telhados verdes, corredores de sombra, revestimentos térmicos de alto desempenho, reflorestação urbana e novos critérios para o desenho dos espaços públicos. Tudo isto com base num princípio simples: a cidade como sistema vivo e adaptável.
Segundo Diogo Lopes Teixeira, cofundador do hori-zonte, «Lisboa já vive as consequências do aumento das temperaturas. Precisamos de pensar o território como um organismo que sente, reage e se transforma.» A proposta não substitui políticas públicas: potencia-as. E poderá colocar a cidade num lugar pioneiro dentro do compromisso assumido com a neutralidade carbónica até 2030, no âmbito da Missão da União Europeia para as 100 Cidades Climaticamente Neutras.
Outros seguem, Lisboa propõe
Lisboa não está sozinha. Paris já substitui asfalto por zonas verdes temporárias. Barcelona integra sistemas de sombreamento natural nas suas escolas. Em Milão, a reflorestação urbana inclui mais de 3 milhões de árvores até 2030. O que Lisboa agora propõe é juntar-se a essa frente — com um plano pensado de raiz, com dados, especialistas e vontade política.
O calor mata. O silêncio mata mais. Mas ainda é possível responder com inteligência, com urbanismo responsável e com políticas ancoradas na realidade. O ReThink Lisbon é um exemplo. Que não seja o último.