O mundo entra neste ano sem colapso, mas também sem fôlego. A economia global continua de pé, embora mais lenta, mais desigual e mais dependente de alguns motores específicos. É este o retrato traçado pela Crédito y Caución no relatório agora divulgado sobre as perspetivas económicas para 2026 e 2027, num momento em que a guerra comercial, a fragmentação geopolítica e a transição tecnológica continuam a marcar o ritmo da atividade económica.
Depois de ter surpreendido pela resiliência nos últimos anos, o crescimento global deverá moderar para 2,6% em 2026, recuperando ligeiramente para 2,8% em 2027. Não é uma travagem brusca, mas é um abrandamento claro, que reflete o esgotamento de alguns estímulos e o impacto acumulado das tensões comerciais.
Mais do que a média global, o relatório sublinha um mundo económico que avança a diferentes velocidades. Os Estados Unidos deverão crescer cerca de 2,0%, abaixo da média mundial, enquanto os mercados asiáticos emergentes continuam a liderar, com um crescimento próximo dos 4,0%, ainda que mais lento do que em ciclos anteriores.
Na base desta divergência está uma economia cada vez mais polarizada entre regiões que investem agressivamente em tecnologia e infraestruturas e outras que continuam presas a fragilidades estruturais antigas.
Zona euro: crescimento curto e recuperação desigual
Entre as economias avançadas, a zona euro surge como o elo mais frágil. O relatório antecipa um crescimento de apenas 0,9% em 2026, seguido de uma recuperação modesta para 1,6% em 2027, num contexto em que os efeitos das tarifas norte-americanas e da menor procura externa se tornam mais visíveis.
Ainda assim, esta recuperação não será homogénea. Espanha, Portugal, Itália e Grécia deverão destacar-se positivamente, sustentadas pelo dinamismo do setor dos serviços e pela procura interna. O caso espanhol é apontado como o mais robusto, impulsionado pelo turismo e por um mercado de trabalho mais resiliente, com o consumo privado a crescer cerca de 2,6%, beneficiando da melhoria dos níveis de emprego.
O relatório descreve, assim, uma Europa a duas velocidades: um núcleo mais exposto à desaceleração industrial e um sul mais apoiado no consumo, nos serviços e no turismo — uma leitura que dialoga com análises recentes publicadas na Líder sobre o impacto estrutural do turismo e do consumo nas economias periféricas da União Europeia.
Inflação controlada, exportações fracas
Do ponto de vista macroeconómico, o cenário europeu apresenta sinais mistos. A inflação deverá situar-se em torno de 1,6% no final de 2026, enquanto as exportações crescem apenas 0,3% e a taxa de desemprego estabiliza nos 6,3%. Os salários continuam a ajustar-se gradualmente a um contexto de menor pressão inflacionista, o que ajuda a sustentar o consumo, mas não chega para relançar o crescimento de forma mais robusta.
Este equilíbrio frágil entre rendimentos, consumo e investimento ajuda a explicar porque é que a recuperação europeia continua lenta, mesmo num ambiente de inflação mais controlada.
Estados Unidos: tecnologia como amortecedor
Do outro lado do Atlântico, a economia norte-americana mantém um crescimento sustentado, apoiado sobretudo no investimento em Inteligência Artificial e em infraestruturas associadas. Estes fluxos de capital dirigidos a centros de dados, semicondutores e redes energéticas, têm funcionado como amortecedor face a fragilidades emergentes na economia real.
Segundo as análises, este padrão deverá manter-se em 2026 e 2027, reforçando a centralidade da tecnologia como motor económico, mas também aumentando a dependência de um número limitado de sectores estratégicos.
China abranda, Índia destaca-se
Entre os grandes mercados emergentes, a China deverá abrandar para um crescimento de cerca de 4,4% em 2026, penalizada pela perda de fôlego das exportações. O relatório aponta que parte dessa desaceleração resulta do efeito de antecipação de compras registado no ano anterior, antes da entrada em vigor de novas tarifas, o que retirou dinamismo ao comércio externo.
Em contraste, a Índia surge como o mercado com melhores perspetivas, com um crescimento estimado em 6,3%, apoiado numa procura interna robusta e em políticas macroeconómicas favoráveis. A Crédito y Caución sublinha ainda o aprofundamento da cooperação entre a Índia e os Estados Unidos em áreas estratégicas como semicondutores, cibersegurança, minerais críticos e indústria da defesa, setores que poderão moldar a geopolítica económica da próxima década.
Crescer menos, mas continuar a avançar
A leitura final do relatório é clara: a economia global continua a crescer, mas fá-lo de forma mais lenta, mais desigual e mais dependente da tecnologia. Os efeitos positivos do investimento em Inteligência Artificial continuam a sentir-se, sobretudo nos Estados Unidos, mas já não têm a mesma capacidade de compensar as tensões comerciais, a incerteza política e a fragmentação dos mercados globais.
Em 2026, o crescimento não desaparece, mas está em clara transformação e a grande dúvida deixa de ser apenas quanto o mundo cresce, para passar a ser quem cresce, com que motores e a que custo.


