O cessar-fogo assinado a nove de outubro prometia ser a luz ao fundo do túnel que a Palestina e o mundo tanto pediam. Um mês e meio depois, tudo indica que não passa antes de fogo de vista. Mais de 300 palestinos foram mortos e quase 900 ficaram feridos desde que o acordo de cessar-fogo […]
O cessar-fogo assinado a nove de outubro prometia ser a luz ao fundo do túnel que a Palestina e o mundo tanto pediam. Um mês e meio depois, tudo indica que não passa antes de fogo de vista.
Mais de 300 palestinos foram mortos e quase 900 ficaram feridos desde que o acordo de cessar-fogo entrou em vigor, a 10 de outubro, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. Israel confirma que três dos seus soldados perderam a vida no mesmo período.
Na primeira fase do plano de cessar-fogo, Israel concordou em recuar para uma fronteira que se estende no norte, sul e leste de Gaza. A linha, marcada por blocos amarelos espalhados em algumas áreas, ficou conhecida como a ‘linha amarela’. De acordo com o mapa acordado, Israel continua a controlar mais de 50% de Gaza.
Os palestinianos continuam a estar condicionados e muitos são impedidos de regressem às suas casas em áreas como a Cisjordânia. Um relatório da Human Rights Watch afirma que Israel continua a cometer crimes de guerra e contra a humanidade desde o abrandamento das hostilidades.
A 29 de novembro assinala-se o Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino, instituído em 1977 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, numa homenagem ao dia em que, em 1947, foi aprovada a resolução que previa a partilha da Palestina em dois Estados – árabe e judeu.
A urgência deste apelo voltou a ganhar atenção global com a intensificação do conflito, desde 2023, com a crise humanitária na Faixa de Gaza e o aumento das vozes que exigem paz e autodeterminação. A par de vários países no mundo, uma comissão de inquérito independente nomeada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, alegou que as ações de Israel em Gaza «constituem um genocídio».
A Líder deixa uma lista de livros para melhor entender o complexo conflito que perdura há décadas e parece não ter fim à vista.
Palestina – Uma Biografia – Rashid Khalidi

Ideias de Ler
«Em nome de Deus, que a Palestina seja deixada em paz.» É desta forma que o presidente da câmara de Jerusalém termina a carta enviada em 1899 a Theodore Herzl, pai do movimento sionista, onde explicava que a Palestina tinha habitantes nativos e advertia para os perigos que se aproximavam.
E é com este relato que Rashid Khalidi, historiador do Médio Oriente nos Estados Unidos e sobrinho-neto do autor da dita carta, inicia a sua narrativa sobre os palestinianos e a guerra contra eles travada.
Esta obra cruza eventos históricos, materiais de arquivo e relatos de gerações, tratando de forma simultaneamente sóbria e emotiva os factos de um confronto trágico entre dois povos que reivindicam o mesmo território. Esta obra promete não se pautar pela vitimização ou por uma tentativa de branquear os erros dos líderes palestinianos nem a negação da emergência de movimentos nacionalistas de ambos os lados.
Palestine – Joe Sacco

Random House UK
No final de 1991 e início de 1992, na época da primeira Intifada, Joe Sacco, jornalista e cartoonista, passou dois meses com os palestinianos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, viajando e tomando notas.
Ao regressar aos Estados Unidos, começou a escrever e a desenhar Palestine, que combina as técnicas da reportagem testemunhal com a narrativa em banda desenhada para explorar esta situação complexa e emocionalmente pesada. O jornalista capta a essência da experiência palestiniana em imagens, num formato muitaz vezes esquecido, com grande perspicácia e humor notável.
A série de banda desenhada de nove edições ganhou o American Book Award de 1996. Agora é publicada pela primeira vez num único volume, condizente com o seu estatuto de um dos grandes clássicos da não ficção gráfica.
Eu Vi Ramallah – Mourid Barghouti

Casa da Palavra
Exilado da sua terra natal após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, o poeta Mourid Barghouti passou trinta anos no exílio, viajando entre várias cidades do mundo, sem se sentir seguro em nenhuma delas, separado da sua família durante anos a fio, sem nunca ter a certeza se era um visitante, um refugiado, um cidadão ou um hóspede.
Ao regressar a casa pela primeira vez desde a ocupação israelita, Barghouti atravessa uma ponte de madeira sobre o rio Jordão para entrar em Ramallah e não consegue reconhecer a cidade da sua juventude. Ao vasculhar as memórias da antiga Palestina, que se chocam com o que agora encontra nesta mera «ideia de Palestina», descobre o que significa ser privado não só de uma pátria, mas também do «lugar e estatuto habituais de uma pessoa». Uma obra de memória e reflexão, lamentação e resiliência, Eu Vi Ramallah é um livro humano e essencial para a compreensão do Médio Oriente atual.
Um Dia, sempre Teremos Sido Todos contra Isto – Omar El Akkad

Tinta da China
A 25 de Outubro de 2023, três semanas depois da intensificação dos bombardeamentos em Gaza, Omar El Akkad publicou um tweet: «Um dia, quando for seguro, quando não houver consequências pessoais por chamar as coisas pelos nomes, quando for demasiado tarde para responsabilizar quem quer que seja, sempre teremos sido todos contra isto.» Teve mais de dez milhões de visualizações.
Enquanto imigrante que veio para o Ocidente, El Akkad acreditava que este prometia liberdade e justiça. Mas nos últimos 20 anos, ao fazer a cobertura de guerras e protestos, e sobretudo ao assistir ao massacre em Gaza, chegou à conclusão de que grande parte do que o Ocidente promete é mentira, e que haverá sempre grupos de seres humanos a não serem tratados como tal. Não apenas árabes, muçulmanos ou imigrantes, mas quem quer que fique de fora das fronteiras do privilégio. Este livro é uma crónica dessa dolorosa constatação, um debate moral sobre o que significa, enquanto cidadão, talhar um qualquer sentido de possibilidade numa era de carnificina.
Gaza in Crisis – Ilan Pappe e Noam Chomsky

Penguin Books
Escrito em coautoria por duas vozes importantes na luta pela libertação da Palestina, este livro apresenta uma análise perspicaz e essencial do contexto político em torno desta região, que se encontra num impasse desesperador.
Desde os ataques a escolas e hospitais até ao uso indiscriminado de fósforo branco, a conduta de Israel na «Operação Chumbo Fundido» abalou até mesmo alguns dos seus mais fervorosos apoiantes. Em Gaza in Crisis, Noam Chomsky e Ilan Pappe analisam as consequências dessa devastação e colocam o massacre em Gaza no contexto da longa guerra de Israel contra os palestinianos. Trata-se de uma análise rigorosa, historicamente fundamentada e muito necessária, que será bem-vinda por todos aqueles que anseiam pelas perspetivas de Chomsky e Pappe sobre mais uma catástrofe política.
The Arsonists’ City – Alyan Hala Alyan

Hala Alyan
Este livro é uma carta de amor ao Líbano. A autora, palestino-americana, partilha o seu olhar pessoal sobre o legado da guerra no Médio Oriente através da história de uma família. Mãe síria, pai libanês, três filhos americanos.
Apesar de uma vida de migração, mantém a antiga casa em Beirute. No entanto, depois da morte do chefe de família, surge a possibilidade de vender o lar ancestral – mas será realmente essa a melhor opção? A par dos dilemas desta família, Hala Alyan revela uma cidade que vive com um fluxo contínuo de refugiados, tensão religiosa e protestos políticos.


