Mudançafobia

Pouca coisa soa tão poderosa e ao mesmo tempo provoca tanto temor como a palavra “mudança”. Ao nível racional, as pessoas costumam atribuir positividade à ideia de mudar. Até porque como ninguém deseja mudar para pior, quando um líder afirma que o caminho é a mudança, os aplausos surgem na hora. O problema é o depois. Nem tudo o que dizemos é o que sentimos.

Somos animais de hábito, de rituais, de tradições. Gostamos do conhecido, ele conforta-nos.

A mudança quebra coisas, desarruma a casa, tanto promove quanto despromove, traz no seu bojo um certo impulso de morte: para algo novo começar, algo velho tem de acabar. Se isto é assim na maior parte das empresas, não seria diferente naquela que é a maior corporação de cunho religioso do ocidente. Claro que o Papa não é apenas um CEO da Igreja Católica. É também o Chairman. E o único que tem contacto direto com o acionista principal (mais conhecido como Ele).

Ao aplicar novas diretivas, modernizando a Igreja na tentativa de parar a perda de clientes, Francisco faz um movimento importante, necessário e, se calhar, um pouco tardio. Irá enfrentar resistências internas, claro. Mas este não é o busílis. Muitos dos fregueses mais fiéis da Igreja são aqueles que não desejam mudanças no status quo. Trata-se de um daqueles casos em que para se garantir o futuro há que se sacrificar uma parte do presente.

A Coca-Cola fracassou quando tentou mudar o seu sabor. O McDonald’s há anos que insiste em vender a ideia de que se trata de um excelente lugar para comer saladas. Poucos acreditam. O tempo dirá se o Papa mudará a Igreja ou se será a Igreja que mudará de Papa.

Ou como diria o meu Tio Olavo, a citar Platão: “Tente mover o mundo. O primeiro passo será mudar a si mesmo”.


Por Edson Athaíde, CEO da FCB Lisboa

[A opinião foi integrada no tema de capa da edição n.º 12 da revista Líder.]

Artigos Relacionados: