Há livros que nascem no meio da tempestade não para a deter, mas para ensinar a navegar por entre as marés. Empresas Magnéticas, de Salvador da Cunha, é um desses livros: uma reflexão lúcida e urgente sobre o poder da reputação, da influência e da comunicação num tempo em que a atenção se tornou o novo ouro e a confiança, o seu último refúgio.
A apresentação da obra decorreu a 30 de outubro, na Casa de Praia, o espaço do WYgroup, em Santo Amaro de Oeiras, durante o Encontro de Conselheiros da revista Líder.
A reputação como ponto de partida
Para Salvador da Cunha, a reputação não é uma questão de imagem, mas de substância. «As perceções dos stakeholders definem como é vista a empresa. Se não soubermos isso, não temos um ponto de partida. Como é que as empresas querem ser vistas?», perguntou.
O autor sublinha que compreender o contexto, interno e externo , é o primeiro passo para qualquer construção reputacional sólida: “Saber onde estou para perceber para onde vou.»
O livro distingue entre fatores endógenos (o que está nas mãos das organizações) e exógenos, como a geopolítica ou as forças do mercado. E lembra que «o mais importante numa empresa é sermos bem vistos por aqueles que realmente nos interessam. Talento, clientes, stakeholders».
O poder invisível da influência
Na segunda parte da obra, Salvador da Cunha entra no terreno da influência e da tomada de decisão. A base é científica, mas a leitura é quase filosófica: como decidimos e porque erramos tanto. «Tomamos trinta mil decisões por dia e não fazemos a mínima ideia do quê», afirmou, recordando que grande parte da nossa vida é comandada pelo impulso. «O cérebro humano continua a ter mais energia do que qualquer supercomputador.»
A partir de autores como Robert Cialdini e Daniel Kahneman, o autor desmonta os mecanismos invisíveis que guiam o comportamento humano: da reciprocidade ao compromisso, da prova social à autoridade, passando pelos vieses cognitivos, como preconceitos, ancoragens, pressões entre pares, que distorcem percepções e escolhas. «A procrastinação nem sempre é preguiça», explicou. «Às vezes é apenas um mecanismo de proteção biológica.»
Comunicar num mundo que muda a cada seis meses
A terceira parte do livro mergulha no território da comunicação, que Salvador da Cunha descreve como uma força viva, em constante mutação. «Há uma mudança dramática de seis em seis meses.» Os padrões de pesquisa estão a migrar de motores de busca para plataformas de inteligência artificial, e o próprio SEO está a transformar-se. «Temos de produzir conteúdos que falem com máquinas. Que algoritmos nos leem? Como podemos ultrapassar a concorrência?
No entanto, mais do que acompanhar tendências, defende o autor, as empresas precisam de aprender a adaptar-se. «As empresas têm de estar constantemente preparadas para alterações, ouvir os seus parceiros e ajustar-se. As agências fazem parte desse trabalho.»
Num mundo saturado, onde a atenção humana é o recurso mais escasso, a comunicação eficaz é menos sobre volume e mais sobre direção.
Homens, mulheres e o peso da reputação
Num dos momentos mais pessoais da sessão, Salvador da Cunha refletiu sobre as diferenças de comportamento entre géneros na esfera pública. «Os homens funcionam de maneira diferente das mulheres, numa ótica de perpetuar o seu legado», afirmou, citando Shakespeare: ‘Perdi a minha reputação, perdi parte do meu ser’. «As mulheres são mais cuidadoras, menos individualistas. Nota-se desde logo na visibilidade pública: as mulheres procuram atenção na comunidade; os homens, no reflexo do seu ego.»
Assim, para o autor, compreender estas nuances é essencial na construção de lideranças mais equilibradas e empáticas, capazes de inspirar equipas e fortalecer culturas corporativas.
Mede-se pouco, comunica-se muito
No encerramento, Salvador da Cunha lançou um desafio direto às empresas portuguesas: «Saberão as empresas portuguesas onde estão?»
Segundo ele, pouco se mede em Portugal. «Fazemos isso com alguns clientes, mas só 5% a 10% o fazem, e repetem apenas três ou quatro anos depois. Os rankings servem como barómetro, mas são normalmente mal feitos.»
A falta de métricas sólidas, sublinha, compromete a evolução do setor e a credibilidade de quem nele atua. Reputação, influência e comunicação precisam de ser medidos, geridos e afinados com método — não apenas com intuição.
Empresas magnéticas, líderes conscientes
Empresas Magnéticas é um livro sobre liderar com consciência, influenciar com ética e comunicar com inteligência emocional.
«A liderança é uma das componentes mais importantes para uma empresa ser magnética», afirmou. «Um líder tem de ser visível e comunicar bem, mas saber equilibrar o espaço que ocupa.»
No fim, Salvador da Cunha deixou uma ideia que ecoou na sala — simples, mas com o peso das grandes verdades empresariais: o sucesso não está em atrair todos, mas em atrair os certos.
E talvez seja essa, afinal, a verdadeira definição de magnetismo.
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