As máquinas acenderam-se, as luzes piscaram, e alguém disse que o futuro tinha começado. O Homem acreditou, porque acreditar é mais fácil do que pensar. Criou sistemas para resolver problemas e, sem se dar conta, estimulou problemas para que os sistemas tivessem razão de existir. Chamou-lhe progresso.
Hoje, vivemos com cabos invisíveis e algoritmos que decidem por nós o que é relevante, o que é urgente, o que é desejável. E quando pensamos em George Orwell, entendemos que o poder absoluto já não precisa de pólvora. Basta a ocupação da mente, o controlo do desejo, a redução da liberdade ao aceitável. Assim, estamos perante uma sociedade que prefere a anestesia do prazer à agonia da escolha. Eis-nos aqui, adormecidos pelo brilho dos ecrãs, entretidos com a ideia de que questionar é supérfluo e até mesmo inconsequente.
Simplificar tornou-se, portanto, um acto de resistência. Respirando tempos de idolatria à complexidade, ser simples é ser radical.
Simplificar não é reduzir. É clarificar. É devolver ao gesto humano a sua intenção e ao pensamento a sua hora.
Este enquadramento nasce dessa urgência. É uma proposta e talvez uma confissão de que a tecnologia precisa de reaprender a ser humana. Porque a máquina nunca foi o problema: o problema é o que esperamos dela. Criámos ferramentas para comunicar e, pelo caminho, perdemos a linguagem. Desenvolvemos a Inteligência Artificial, e esquecemo-nos de cultivar aquela que nasce connosco.
A simplicidade é o novo código. É uma ética que exige menos filtros e mais sentido. Nas organizações, traduz-se em processos mais leves, em estruturas menos hierárquicas, em decisões mais transparentes. Saramago dizia que «somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos». Talvez seja isso que falta ao nosso tempo. A tecnologia é memória acumulada, mas sem consciência torna-se apenas acumulação. A liderança tecnológica do futuro terá de saber fazer o que os líderes antigos faziam recorrendo a armas forjadas no fogo: cortar o desnecessário.
Slack Technologies – quando simplificar é devolver tempo
Em 2013, Stewart Butterfield percebeu que o futuro do trabalho não precisava de mais ferramentas, mas de menos ruído. O Slack nasceu por acaso, a partir de um videojogo falhado (Glitch), mas o sistema interno de mensagens criado para a equipa mostrou-se mais útil do que a primeira ideia. Dali emergiu uma das plataformas mais influentes do trabalho digital moderno.
Com a filosofia de human-centered technology, o Slack redefiniu a colaboração: menos e-mails, menos dispersão, mais clareza. Ao substituir o caos das caixas de entrada por canais organizados e conversas abertas, simplificou a comunicação e devolveu tempo às equipas. Um exemplo de como a tecnologia, quando se torna humana, não complica – liberta.
Pergunta o leitor se esta é a última utopia possível. Responderei que sim. Deve ser um tempo em que a tecnologia serve para iluminar o humano, e não para o distrair. Um tempo em que o simples volte a ser suficiente, e o suficiente volte a ser tudo.
Este artigo foi publicado na edição nº 32 da revista Líder, cujo tema é ‘Simplificar’. Subscreva a Revista Líder aqui.

