Em criança, o meu sogro aprendeu que a forma educada de terminar uma refeição era dizer: «Estou cheio. Posso levantar-me da mesa, por favor?» Muitas famílias têm uma variação desta frase — e a maior parte faz provavelmente muito mais sentido do que esta. Mas isto levanta uma questão: como é que sabemos que estamos saciados? E como é que aquilo que aprendemos na infância afeta a forma como comemos em adultos?
Uma forma de saber que já comemos o suficiente é quando os recetores sensíveis à distensão enviam uma mensagem para o cérebro através do nervo vago, informando-o de que o estômago está a ficar cheio, e isso leva-nos a reduzir a ingestão de alimentos. O momento em que esta resposta é ativada pode variar, mas alguns estudos realizados com voluntários que beberam água até se sentirem satisfeitos, e depois continuaram até se sentirem desconfortavelmente cheios, sugerem que começamos a sentir-nos saciados quando atingimos 50 a 60 por cento da nossa capacidade máxima, o que corresponde a cerca de 1 litro para a maioria das pessoas.
Um estudo sobre um caso extremo de alimentação excessiva sugere que podemos alterar o nosso limite de saciedade — por vezes ao ponto de já não conseguirmos sequer sentir que estamos cheios. Em 2007, investigadores da Universidade da Pensilvânia observaram o estômago de um concorrente num campeonato mundial de comida enquanto ele engolia o maior número possível de cachorros-quentes em doze minutos (o tempo habitual em competições deste tipo). O homem conseguiu comer trinta e seis cachorros-quentes em dez minutos, altura em que os investigadores interromperam a experiência, preocupados com o facto de que o seu estômago tivesse expandido tanto que pudesse rebentar. Surpreendentemente, apesar de o seu estômago se ter tornado, como escreveram os investigadores, «um saco gigante e flácido que ocupava a maior parte do abdómen superior», o homem não se sentiu cheio nem inchado e não relatou qualquer desconforto. Em comparação, um participante do grupo de controlo conseguiu ingerir apenas sete cachorros-quentes antes de não suportar mais, sentindo que ficaria enjoado se tentasse continuar.
Os participantes nestes concursos de comida treinam antes dos campeonatos, comendo além do limite de saciedade para expandirem o estômago para a grande competição. Uma estrela destes concursos de comida, Takeru Kobayashi, anunciou a sua retirada em 2024, invocando que, após vinte anos a forçar quantidades excessivas de comida para dentro do estômago, já não conseguia sentir fome nem saciedade. E sem sensações viscerais para se orientar, chegava a passar três dias sem comer. Estava preocupado, receando ter causado danos permanentes ao seu próprio corpo.
Ainda não se sabe ao certo se formas menos extremas de comer em excesso também dilatam o estômago e abafam os sinais interocetivos de saciedade. Alguns estudos concluíram que pessoas com obesidade têm uma capacidade estomacal significativamente maior do que indivíduos mais magros, enquanto outros sugerem que estômagos maiores são capazes de reter mais comida antes de o sinal de saciedade ser ativado. Não é claro o que surge primeiro: se as pessoas que desenvolvem obesidade já têm estômagos naturalmente maiores ou menos sensíveis, ou se elas se tornam menos sensíveis aos seus sinais de saciedade, fazendo com que o estômago se distenda e exija mais comida para se sentir saciado.
No entanto, o que é certamente verdade é que algumas pessoas são mais sensíveis às sensações do seu estômago do que outras, e isso afeta a quantidade de comida que ingerem. O modo como essas diferenças se manifestam e a sua relação com os sinais e a interpretação que o cérebro faz deles é algo que Sahib Khalsa quer descobrir com a sua cápsula vibratória.
No primeiro estudo realizado pela equipa, publicado em 2023, voluntários saudáveis usaram um conjunto de elétrodos no estômago para medir os ritmos naturais do sistema gastrointestinal, e outro no couro cabeludo para medir a atividade cerebral. A equipa da investigadora Catherine Tallon-Baudry, da École Normale Supérieure, em Paris, já tinha identificado uma «rede gástrica» no cérebro que monitoriza a atividade do estômago, e Khalsa queria perceber se a cápsula vibratória seria capaz de a ativar.
E foi o que aconteceu. Cerca de meio segundo depois de a cápsula começar a vibrar, foi detetada atividade na rede gástrica do cérebro, e quanto mais forte era a vibração da cápsula, mais intenso era o sinal no cérebro. A perceção consciente das vibrações (avaliada pela rapidez com que os voluntários carregavam num botão) surgia cerca de meio segundo depois para a vibração mais fraca — que, para mim, parecia um leve tremor, quase impercetível. A vibração mais forte, semelhante ao zumbido de uma mosca presa, tornava-se consciente um pouco mais rapidamente, cerca de 0,2 segundos depois de o cérebro registar o sinal. É importante notar que os elétrodos colocados no abdómen dos voluntários mostraram que a cápsula não alterava o ritmo natural gastrointestinal — uma onda de atividade elétrica que percorre todo o comprimento do sistema a cada vinte segundos, começando no esófago, que liga a garganta ao estômago, e continuando pelo intestino delgado e grosso até sair pela outra extremidade. Assim, as alterações no cérebro ocorriam devido à estimulação das vias intestino-cérebro e não porque a cápsula estivesse a provocar movimentos anormais no estômago ou no intestino.
Khalsa e a sua equipa tencionam agora usar a cápsula para explorar a variação da sensibilidade do sistema gastrointestinal em pessoas com perturbações alimentares, obesidade ou outras perturbações, como a síndrome do intestino irritável. A ideia é que, quando compreendermos melhor se estas perturbações estão relacionadas com uma sensibilidade deficiente ou excessiva aos sinais viscerais, e se o problema ocorre no estômago e intestinos ou no cérebro, talvez possamos ser treinados para interpretar melhor as nossas sensações estomacais.
Pode demorar algum tempo até que isto esteja disponível como terapia, mas uma versão menos tecnológica que todos podemos tentar desde já é algo chamado alimentação intuitiva. Foi apresentada pela primeira vez pelas nutricionistas Evelyn Tribole e Elyse Resch em meados da década de 1990 como uma alternativa à cultura das dietas, que, segundo elas, não promove uma relação saudável com os alimentos nem permite manter a perda de peso que a dieta pode ajudar a alcançar.
A ideia da alimentação intuitiva consiste em prestar atenção aos sinais viscerais quando começamos a comer e em manter a atenção para percebermos quando é que nos sentimos saciados. Entre as principais recomendações de Tribole e Resch estão «honre a sua fome» e «respeite a sua saciedade». Outra das recomendações é que preste atenção às suas necessidades psicológicas, além das físicas. Se sentir necessidade de conforto alimentar, não há problema, desde que perceba o que está a fazer e porquê. Por outras palavras, a alimentação intuitiva consiste em detetar e interpretar os sinais interocetivos — e em compreender como é que eles se relacionam com a forma como nos sentimos.
A alimentação intuitiva não foi concebida como uma intervenção interocetiva, mas os investigadores interessaram-se pela forma como ela se relaciona com o apetite e as emoções. Alguns estudos sugerem que as pessoas que detetam com maior precisão os seus batimentos cardíacos têm maior probabilidade de comerem por motivos físicos e não emocionais, e de confiarem nos sinais do corpo quando têm fome e estão saciadas. Curiosamente, Chris White, o negociador de reféns que conhecemos no capítulo 1 e que obteve uma pontuação quase perfeita no teste de deteção do batimento cardíaco, tem uma abordagem à comida muito semelhante à alimentação intuitiva. «Sei quando preciso de comer — e nem sempre é pequeno-almoço, almoço e jantar», afirma. Mesmo que seja a meio do dia e alguém anuncie que está na hora do almoço, ele não se deixa influenciar. «Se não tenho fome, não como», declara.
Eu consigo perceber isto. Quando era criança, parava de comer quando me sentia cheia — e nenhum castigo na Terra me fazia limpar o prato se já tivesse comido o suficiente. Apesar da minha teimosia, a minha mãe e o meu padrasto conseguiram incutir-me a ideia de que comer tudo o que nos põem à frente é um sinal de «boa educação à mesa». A mensagem deve ter acabado por passar, porque em adulta consigo ignorar a minha saciedade quando a educação assim o exige. Até já me ouvi a dizer ao meu filho adolescente que comer algo que não queremos é uma competência essencial para a vida — basta enfiar a comida na boca, mastigar, engolir e dizer obrigado.
Porém, embora a alimentação intuitiva pareça uma abordagem mais sensata do que ignorar ou anular as nossas sensações viscerais, ela esbarra num grave problema da sociedade ocidental moderna. Porque, para o bem ou para o mal, a saciedade já não é o sinal fiável de outrora.
De acordo com estimativas recentes, 60 por cento da alimentação média no Reino Unido e nos Estados Unidos consiste em alimentos ultraprocessados (AUP). O termo foi cunhado por um grupo de investigadores brasileiros em 2010 e adotado pelas Nações Unidas em 2019. O grau de processamento dos alimentos foi desde então introduzido como parte do aconselhamento dietético oficial em países como o Brasil e o Canadá, que aconselham a substituição de alimentos ultraprocessados por alimentos integrais, sempre que possível. Nos últimos anos, esta questão gerou controvérsia nos círculos de investigação sobre nutrição e no público em geral, após uma onda de interesse dos meios de comunicação social sobre o modo como os AUP e as dietas modernas estão associados à obesidade e a uma saúde precária. São vários os critérios que permitem classificar um alimento como ultraprocessado, mas, no geral, se ele tiver sido produzido em larga escala e for barato e viciante, provavelmente encaixa nessa categoria. Carlos Monteiro, o nutricionista que lidera o grupo brasileiro, descreveu os alimentos ultraprocessados como «fórmulas artificialmente criadas pela indústria a partir de fontes baratas de energia e nutrientes, com aditivos, que passam por vários processos». Por outras palavras, não são exatamente comida de verdade.
Tem havido muito debate sobre a utilidade do rótulo «AUP» e sobre as desigualdades sociais profundamente enraizadas que tornam estes alimentos difíceis de substituir. No que diz respeito às nossas sensações viscerais e ao modo como elas devem ser interpretadas, a coisa mais importante sobre os alimentos ultraprocessados é que eles parecem influenciar as vias interocetivas que nos indicam quando devemos comer e quando devemos parar e a relação entre a comida e a forma como nos sentimos.
Este artigo foi publicado através de um excerto original do livro ‘O Sentido Interior’ da autora Caroline Williams, com o consentimento da mesma.