Ao longo de décadas, a nossa relação com a tecnologia foi mediada por ecrãs, cliques e menus. Mesmo as aplicações mais avançadas exigiam que soubéssemos onde clicar e como navegar. Mas este cenário está a mudar rapidamente.
No novo mundo que se anuncia, as interfaces diluem-se e a tecnologia, apesar de dominar tudo como nunca, passa a ser quase invisível.
O primeiro passo desta evolução foi assinalado com a chegada dos prompts de texto. Graças à inteligência artificial já não precisamos de comandos rígidos. Podemos escrever ou dizer o que pretendemos fazer em linguagem natural, como por exemplo: “Cria um resumo desta reunião”, ou “Gera um relatório de vendas”. Desta forma, as tarefas passam a ser mais simples e os utilizadores ganham liberdade.
Num segundo momento, surgiram as interfaces conversacionais dominadas pelo diálogo. Graças a elas, em vez de abrirmos uma aplicação para marcar uma reunião, basta dizermos: “Marca uma reunião com a equipa amanhã às 10:00 no Teams.” O sistema interpreta o nosso pedido/ordem, confirma e responde: “Reunião agendada para amanhã às 10:00 no Teams. Queres adicionar uma agenda?” Este modelo já está presente em assistentes virtuais e nas soluções empresariais que automatizam processos sem recurso a menus complexos, tornando as experiências dos utilizadores mais próximas de uma conversa real.
O passo seguinte é um conceito ainda mais sofisticado, onde não há interface visível e a tecnologia atua de forma proativa, antecipando as necessidades: o Zero UI. Este conceito leva-nos para novos patamares. Imaginemos que entramos num carro e ele ajusta automaticamente a temperatura e sugere pontos de carregamento; ou um sistema bancário que identifica que o utilizador vai viajar e propõe automática e proactivamente ativar o cartão para uso internacional sem ser sequer preciso dar qualquer ordem. Um conceito também presente no retalho, quando entramos numa loja e uma aplicação invisível reconhece o nosso histórico de compras e sugere produtos relevantes sem necessidade de abrirmos menus ou apps.
Num mundo onde os consumidores cada vez mais querem simplicidade e rapidez, esta é uma mudança crucial e que impacta também as empresas ao aumentar os níveis de satisfação e fidelização. Convém, contudo, percebermos que este não é ainda um percurso inteiramente linear, já que existem desafios a superar para que esta transformação seja segura e inclusiva, sobretudo no que diz respeito a garantir a privacidade, a confiança e a acessibilidade.
Em suma, o caminho para a Zero UI não é apenas uma questão tecnológica; é, sobretudo, uma transformação cultural. E para se alinharem com ela, as empresas terão de repensar o design, deixando de se focar numa abordagem de “como o utilizador navega” para passarem a adotar um novo modelo focado em “como antecipamos o que o utilizador realmente precisa?”. À medida que a IA se torna parte natural do nosso quotidiano, torna-se cada vez mais evidente que, por vezes, a melhor interface pode ser aquela que deixa de existir.
Este artigo foi publicado na edição nº 32 da revista Líder, cujo tema é ‘Simplificar’. Subscreva a Revista Líder aqui.
