A passagem do calendário ilude, mas os problemas persistem. Enquanto o mundo avança, Portugal continua à espera de um salvador que nunca chega – o seu próprio D. Sebastião estratégico. O engano do calendário Há uma ilusão reconfortante na passagem do ano: a de que um dígito a mudar no calendário fecha portas e […]
A passagem do calendário ilude, mas os problemas persistem. Enquanto o mundo avança, Portugal continua à espera de um salvador que nunca chega – o seu próprio D. Sebastião estratégico.
O engano do calendário
Há uma ilusão reconfortante na passagem do ano: a de que um dígito a mudar no calendário fecha portas e abre outras, limpando o palco para um novo ato. É um conto de fadas para adultos. A realidade, especialmente a portuguesa, é mais dura e menos poética.
Os desafios de Portugal – a crise habitacional que estrangula gerações, o SNS que funciona na base do heroísmo em vez da eficiência, a economia que tropeça na burocracia e na fuga de cérebros – não fizeram as malas a 31 de dezembro. Não empacotaram. Não saíram. Hibernaram. Eram, são e serão os mesmos. O que mudou de 2025 para 2026 não foi a agenda nacional, mas apenas um número. Passámos de um ano que terminava em 5 para outro que termina em 6, mas continuámos presos ao mesmo script gasto: o da eterna intenção nunca concretizada.
Como na vida pessoal, também as nações são definidas por uma escolha simples, mas brutal: fazer acontecer ou ver acontecer. Portugal tornou-se um especialista na segunda arte. É o país-espectador da sua própria história.
O mito do D. Sebastião e o nevoeiro das distrações
A nossa crónica inação tem um arquétipo perfeito: o mito de D. Sebastião. A lenda diz que o rei desaparecido regressará num dia de nevoeiro para salvar a pátria. Esta narrativa não é um conto infantil; é o software operativo de um país que prefere a esperança mágica ao trabalho estratégico — um país que, por esperar salvação, deixa de planear a sua própria. Porque planeamento é trabalho. Espera é conforto.
O ‘nevoeiro’ não é meteorológico. É o nevoeiro das distrações estéreis que nos consomem: debates sobre sintomas em vez de causas, guerras culturais fabricadas, escândalos efémeros que ocupam manchetes enquanto 80 mil vagas ficam por preencher em construção, o SNS se desmancha lentamente, a habitação sobe a preços insanos. Esperamos, colectivamente, que a solução apareça na bruma – um salvador, um fundo europeu milagroso, um momento de iluminação coletiva. Enquanto isso, deixamos de plantar. E depois, admirámo-nos por o campo estar vazio. Nevoeiro é confortável. Claridade exige ação.
Esta espera passiva é a antítese da liderança. A Irlanda não esperou por um salvador; em 1987, decidiu atrair tecnologia global por meio de fiscalidade competitiva e de talento qualificado. Executou durante 30 anos, independentemente de quem governava. Resultado: GDP per capita €25.000 (1990) → €90.000 (2024). A Estónia não esperou pelo nevoeiro dissipar-se; em 1991, pós-soviética e falida, decidiu digitalização total. Em 10 anos tinha e-government completo. Nós, portugueses, continuamos à espera do rei.
Wishful Thinking vs. Realidade: a colheita do nada
Façamos, então, o exercício de honestidade que o mito nos impede de fazer. O que Portugal quer é conhecido: habitação, saúde, prosperidade. Bonito. Mas, como na agricultura, o inverno das intenções só dá fruto se for seguido pela primavera da ação e pelo verão da perseverança.
Querer não constrói nada
A verdadeira lição do novo ano é esta: querer não colhe. Só plantar colhe. E Portugal há décadas que se recusa a pegar na enxada. A questão não é se temos enxadas. É se temos coragem de as usar.
Vejamos o padrão que nos define:
- Queremos casas, mas aprovamos uma lei de imigração que afasta os 80.000 trabalhadores da construção de que o país precisa.
- Queremos um SNS forte, mas não atraímos os profissionais que o sustentam.
- Queremos riqueza, mas decidimos que burocrata em Lisboa — que nunca arriscou capital, nunca montou negócio — sabe melhor do que o empresário em Braga ou Alcobaça de que talento a empresa precisa. É lógica invertida: quem produz pede autorização a quem nunca produziu.
- Queremos o futuro, mas legislamos para o passado.
É mais do que wishful thinking. É autossabotagem estratégica: desejar os frutos da árvore enquanto se rega o cimento à sua volta.
A única palavra que o mito ignora: planeamento
Há uma palavra que desfaz mitos, dissipa nevoeiros e transforma desejo em destino. Uma palavra que países sérios sussurram nos corredores do poder e gritam nos seus planos de investimento. Uma palavra que Portugal teima em não pronunciar com a seriedade de quem a executa: PLANEAMENTO.
Planeamento não é burocracia. É o oposto. É a antecipação estratégica que substitui a reação caótica. É o que separa Singapura — que decidiu ser uma potência global e executou, ano após ano — da Argentina — que esperou ser salva pelos seus recursos naturais e viu-se reduzida à pobreza. É a diferença entre ter um mapa e andar às voltas no nevoeiro. E entre quem reconhece o nevoeiro como desculpa e quem o vence com clareza.
Singapura não tinha recursos naturais. Tinha planeamento. Identificou em 1965 que era um porto estratégico e virou-se para educação, talento, inovação. Executou. Resultado: PIB per capita de €70.000. Portugal tem recursos, geografia, talento. Tem tudo. O que não tem é o planeamento que transforma recursos em resultados.
Países que “fazem acontecer” não têm segredos mágicos. Têm uma disciplina feroz de planeamento: identificam um destino ambicioso, alinham recursos, definem métricas e executam, ano após ano, governo após governo. O seu “novo ano” é apenas mais uma etapa no caminho que traçaram — porque não esperam por salvadores; constroem com as próprias mãos. O nosso é um reset eterno, um voltar à estaca zero. 2026 é igual a 2025, que era igual a 2020 ou 2010. A ilusão do calendário faz-nos acreditar que algo mudou. Nada mudou. Até que alguém, finalmente, decida planear.
Conclusão: a escolha de 2026
O ano de 2026 já começou. A questão que ele nos coloca não é “o que desejamos?”, mas “o que vamos, finalmente, FAZER?”
A liderança que Portugal precisa não está num salvador mítico. Está na coragem de trocar o mito pelo mapa, a intenção pela ação, o desejo pelo planeamento. E essa liderança não vem de Lisboa. Vem de quem, em cada organização, em cada sector, em cada comunidade, decide que esperar é luxo que não podemos mais permitir.
Até que isso aconteça, seremos apenas espectadores do nosso próprio declínio, assistindo, ano após ano, à passagem dos calendários e à persistência dos nossos fracassos.
A escolha, como sempre, é nossa. Mas o tempo, esse, não aguarda mais nevoeiros. O que fazemos agora define o que colhemos em 2030. E o que Portugal será em 2045.
