Andreia Carreiro, 36 anos, natural dos Açores, onde vive e trabalha, foi distinguida pelo European Sustainable Energy Award 2022 na categoria Woman in Energy. O prémio da iniciativa da Comissão Europeia tem por objetivo premiar mulheres líderes na área da transição energética.
Doutorada na área da energia, passou pelo setor público, tanto no governo regional como enquanto Assessora do Secretário de Estado da Energia, estando envolvida no desenvolvimento do Plano de Recuperação e Resiliência de Portugal. Hoje ocupa o cargo de Innovation Strategy Director na Cleanwatts, focada na criação e gestão de comunidades de energia renovável.
Em conversa com a Líder, falou sobre o estado arte da transição energética em Portugal e os principais desafios no panorama nacional e europeu. Os Açores e o seu potencial de desenvolvimento para a neutralidade carbónica também estiveram em destaque.
Democratização da energia
Para Andreia Carreiro o desenvolvimento da transição energética requere “abordagens descentralizadas, focadas em comunidades de energia, que promovem o autoconsumo individual e coletivo, e, sobretudo, que sejam democráticas”, isto é, que beneficiem as pessoas envolvidas.
É preciso olhar para a democratização da energia, e para todos, como agentes ativos da transição energética e deixar de ser consumidores passivos. Precisamos de grandes centrais com capacidade de renováveis, mas estas têm impacto no território. Devemos usar as estruturas que já temos e adaptar para o autoconsumo e a partilha de energia.
Na sua opinião, o lucro para as empresas só acontece “ao gerar benefícios económicos para a comunidade, em que as pessoas consomem energia local a baixo preço, ambientalmente correto, promovendo a coesão social e combatendo a pobreza energética”.
Acerca do equilíbrio entre a redução de toneladas de Co2 e a danificação da paisagem, quando se falam em parques de eólicas ou solares, Andreia Carreiro admite ser por vezes difícil, não podendo existir extremismos. “Não há nada sem impacto ambiental. Mas podemos minimizar”, refere.
A transição energética em Portugal
Em Portugal, o grande desafio está na integração e a capacidade de gerir processos entre empresas públicas e privadas. “Portugal tem a visão correta e o rumo bem traçado, tendo sido pioneiro em assumir a neutralidade carbónica. Do ponto de vista de concretização no terreno para acontecer a transição energética, ainda estamos atrasados, mesmo em termos de digitalização do processo na rede”, declara, acrescentando, que o “potencial de evolução é muito grande e estamos no bom caminho”.
A burocratização é talvez o maior entrave, tanto em Portugal como na Europa. “Vejo que a legislação está tão certa e os políticos muito alinhados com a política energética e as empresas a tentar acompanhar, mas os entraves no terreno são imensos”, referindo-se à aprovação de licenças, ou do ponto vista ambiental.
Outro ponto está na mudança de paradigma de passar de consumidor passivo a agentes ativos de energia – e isto é mais do que simplesmente comprar um carro elétrico.
Andreia Carreiro é também membro do grupo de trabalho “Future Energy Leaders”, no âmbito da Associação Portuguesa da Energia (APE) parte do World Energy Council. A discussão sobre os desafios para a transição energética é dinâmica e na ordem do dia estão, neste momento, a questão tarifas de energia e a segurança do sistema elétrico. Por outro lado, envolver mais mulheres no papel de liderança na área da energia é também uma das prioridades da organização.
Açores: um laboratório vivo para a energia
O território dos Açores são para Andreia Carreiro uma motivação maior, com a ambição de se libertar do uso dos combustíveis fosseis, e tornar o arquipélago num território de energia limpa.
Alguns passos já estão a ser dados como no caso da Ilha Graciosa que junta energia eólica, parque solar e um banco de baterias, passando da dependência extrema nos combustíveis fósseis para estar integrada em renováveis em 65%.
O potencial de desenvolvimento é ainda muito grande e havendo um trabalho político integrado avançava-se muito. “Com nove ilhas muito diferentes e uma gestão de ecossistemas muito distintos, os Açores são um laboratório vivo”, diz acrescentando que não há uma só solução, num uma única tecnologia, “há que ter sistemas que integrem várias coisas é preciso haver ousadia para testar”.
O futuro passa por integrar renováveis, eficiência energética e mobilidade elétrica e para Andreia Carreiro, não há desculpas para não o fazer.
Por Rita Rugeroni Saldanha