Penso, logo existo, escreveu Descartes, confiando no pensamento como prova última da existência. Hoje, parece que a equação se inverteu. O que legitima já não é a consciência, mas a obediência. Já não é o pensar, mas o funcionar. O existir passou a ser medido pela capacidade de cumprir, de alinhar, de corresponder ao esperado, […]
Penso, logo existo, escreveu Descartes, confiando no pensamento como prova última da existência. Hoje, parece que a equação se inverteu. O que legitima já não é a consciência, mas a obediência. Já não é o pensar, mas o funcionar. O existir passou a ser medido pela capacidade de cumprir, de alinhar, de corresponder ao esperado, sem erros, sem atrito, sem demora.
Há qualquer coisa de profundamente inquietante quando passamos a existir apenas enquanto cumprimos. Quando o gesto é exacto, mas vazio. Quando a obediência toma o lugar da consciência. Quando cumprir se torna mais importante do que compreender. Quando nos habituamos à fluidez dos dias sem perguntas, e deixamos que a normalidade nos desfigure sem darmos por isso.
Platão falava da caverna, onde se confundem sombras com verdade. Kant dizia que há um mundo para lá do que podemos conhecer, onde habita aquilo que nenhuma razão pode tocar. Ambos reconheciam um limite, esse ponto onde o humano se afirma não pelo controlo, mas pela consciência do que lhe escapa. Um lugar onde o erro tem valor. Onde a dúvida é condição de liberdade. Onde o que não serve é, tantas vezes, o que salva.
Hoje, esse limite não desapareceu. Apenas mudou de forma. Chama-se agora algoritmo. Um sistema que responde, calcula, antecipa. Que nos conhece melhor do que nós próprios ou, pelo menos, assim se diz. Um sistema que obedece com perfeição. E que, aos poucos, se torna modelo do que esperamos de nós: precisão, velocidade, previsibilidade. Tudo limpo. Tudo certo. Tudo funcional. Tudo controlado até à última variável.
A máquina não hesita. Executa. Sem angústia. Sem contradição. Sem demora. Nós, cada vez mais, fazemos o mesmo. Agimos por reflexo. Tomamos decisões por automatismo. Reagimos segundo o que é suposto. E chamamos a isso inteligência, eficiência, adaptação. Mas talvez seja apenas o fim do humano como espaço de liberdade.
Porque existir não é só fazer. É escolher. É resistir. É errar. É amar sem lógica. Perdoar sem cálculo. Parar sem justificação. Nenhuma máquina faz isso. Nenhuma IA contempla o silêncio. Nenhuma sente o peso de uma ausência, o impacto de um olhar, o mistério de um gesto gratuito. Nenhuma se espanta com a beleza ou vacila perante o abismo. Nenhuma se lembra. Nenhuma se comove. Nenhuma vive.
Obedecer não é existir. É funcionar. E, no entanto, é essa funcionalidade que hoje se valoriza. O útil tornou-se critério de valor. O resto, a alma, a dúvida, o espanto, foi empurrado para os bastidores. Para o silêncio dos que ainda ousam perguntar.
Kant dizia que o ser humano é um fim em si mesmo. Que a dignidade reside na liberdade interior, não na conformidade exterior. Mas hoje, nesse desejo de sermos sempre performativos, disponíveis, alinhados, vamos abdicando do que nos torna únicos.
Penso, logo existo foi a afirmação radical de uma humanidade desperta. Mas agora que obedecemos sem pensar, que nos moldamos sem consciência, é legítimo perguntar: será que ainda existo?

