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Home Opinião O jogo da imitação

Opinião

O jogo da imitação

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26 Maio, 2026 | 10 minutos de leitura

O cientista britânico Arthur Clarke (que muitos recordarão como autor do romance e coargumentista do filme 2001: Odisseia no Espaço) defendeu, num dos seus ensaios mais famosos, que: «qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia»[1]. O que é verdade, embora não seja necessariamente algo positivo.

É verdade, porque tanto as inovações tecnológicas como a magia nos provocam uma mistura de fascínio e receio, já que ambas desafiam as nossas expectativas sobre o que é possível.

Também nos causam desilusão quando descobrimos os seus truques. Por isso os mágicos não os revelam e os tecnólogos escondem-nos através do seu jargão.

E não é necessariamente positivo porque, no fundo, o olhar mágico impede-nos de pensar a tecnologia e de compreender as mudanças culturais que ela produz.

O olhar mágico, seduzido por encantamentos e feitiços, é uma forma algo infantil e caprichosa de enfrentar as inovações tecnológicas.

É como a atitude do Guille, o irmão mais novo da Mafalda, quando pede ajuda ao pai para escrever a carta aos Reis Magos.

O pai procura papel e lápis e Guille começa a ditar:

— Queridos Reis Magos: quero tudo.

— Como assim tudo, Guille? Eles não podem trazer-te tudo a ti. Têm de repartir os presentes entre as crianças do mundo inteiro.

— Ah… risca o “Queridos”.

É exatamente isto que nos acontece com a inteligência artificial.

O utilizador formula desejos, mas não consegue controlar a forma como eles são concretizados e, no final, pode receber algo diferente daquilo que pediu.

Uma metáfora inadequada

Um dos problemas que temos com a inteligência artificial é que a própria expressão nos impede de a pensar adequadamente.

É uma metáfora que nos fugiu das mãos.

Como alerta o meu mestre, Juan José García-Noblejas, é preciso escolher cuidadosamente as metáforas, porque os novos fenómenos da comunicação, diz ele, «transformam-se imediatamente — independentemente do que sejam — no objeto estritamente adequado à metáfora de que dispomos»[2] .

Por um lado, há uma obsessão com o facto de tudo ser inteligente (a televisão, o telemóvel, o relógio, os óculos, os altifalantes): estamos a desvalorizar a nossa própria inteligência cada vez que chamamos inteligentes aos eletrodomésticos que nos rodeiam.

Por outro lado, porque chamamos artificial apenas a esta tecnologia?

Porque não chamamos artificiais aos computadores, à internet ou à televisão?

Toda a cultura humana é artificial, começando pelo alfabeto e pela escrita. Os gregos não encontraram as vogais penduradas nas árvores — tiveram de as inventar.

Curiosamente, aquilo a que chamamos linguagem natural é um artifício, uma criação humana. É um sistema simbólico que construímos por consenso. E precisamente porque a linguagem é um sistema simbólico pode ser reproduzida eficazmente pelas máquinas [3] .

E se, em vez de inteligência artificial, lhe chamássemos estatística aplicada?

Perguntei isso à própria IA e a resposta foi: «seria como chamar a um avião “uma ventoinha que voa”. É parcialmente verdade, mas não capta a verdadeira complexidade».

E é exatamente isso que acontece com a metáfora da inteligência artificial: não capta a verdadeira complexidade.

O Teste de Turing

Outro britânico, o matemático Alan Turing (que muitos recordarão pelo filme The Imitation Game), colocou, num artigo publicado em 1950, esta questão crucial: «Podem as máquinas pensar?».

Turing queria evitar o dilema filosófico que implicava definir os conceitos de pensar e máquina, pelo que propôs substituir a pergunta por uma experiência mental a que chamou “o jogo da imitação”.

Nesse jogo existem três participantes em salas separadas: um humano e um computador, aos quais um interrogador faz perguntas através de mensagens escritas.

O objetivo do interrogador é determinar quem é o humano e quem é a máquina com base nas respostas. O humano deve responder naturalmente, mas o objetivo da máquina é enganar o interrogador fazendo-se passar por humano.

Desta forma, Turing substitui a pergunta inicial por outra: «É possível imaginar computadores digitais capazes de vencer o jogo da imitação?».

E assim abriu caminho a um campo que alguns anos mais tarde seria chamado inteligência artificial e a uma experiência observável que ficaria conhecida como Teste de Turing.

A expressão “inteligência artificial”

A expressão inteligência artificial foi utilizada pela primeira vez em 1955, numa proposta dirigida à Fundação Rockefeller, na qual um grupo de cientistas norte-americanos solicitava financiamento para um projeto de dois meses orientado para a criação de máquinas capazes de emular a inteligência humana[4]. Outra carta aos Reis Magos.

Poderíamos dizer que se tratou de uma estratégia de marketing, já que a designação inteligência artificial soava mais glamorosa do que ‘estudos sobre autómatos’, da mesma forma que hoje falamos de ChatGPT em vez de ‘máquinas geradoras de conteúdos sintéticos’[5], que é aquilo que realmente são.

Aquilo a que chamamos alegremente IA é, na realidade, um conjunto muito variado de tecnologias que vai desde o reconhecimento facial à condução autónoma, passando pelos algoritmos de recomendação, filtros anti-spam, moderação de conteúdos nas redes sociais ou navegação assistida por GPS.

Aqui vamos focar-nos apenas na IA generativa conversacional (a IA com a qual interagimos através de texto ou voz para gerar novos conteúdos). A IA em que entra texto e sai texto.

Máquinas falantes

Ao contrário de outras inovações no campo da Comunicação, estamos agora perante máquinas falantes. Máquinas capazes de simular a nossa linguagem, máquinas que parecem compreender-nos e que até nos respondem.

Aristóteles definiu o ser humano como «o único animal que possui palavra»[6] .

Um animal que fala (algo que se vê bastante no Twitter).

Somos seres constituídos por palavras.

É por isso que a IA nos provoca fascínio e receio. Porque a linguagem é a nossa marca identitária enquanto espécie.

Mas permitam-me dizê-lo com toda a clareza: a IA não compreende as palavras.

A IA generativa conversacional é construída sobre modelos matemáticos da linguagem. As palavras e frases utilizadas para treinar a IA transformam-se em representações numéricas. A IA calcula probabilidades a partir dos seus dados de treino e simula a linguagem sem a compreender.

Por isso, não nos deveria surpreender que a IA “alucine”, ou seja, que produza respostas convincentes, mas erradas.

É um erro bastante comum criticar uma tecnologia por fazer mal aquilo para o qual nunca foi concebida.

Ora, a IA não foi desenhada para saber o que é a verdade, nem para dizer a verdade.

A IA generativa baseia-se em modelos estatísticos da linguagem concebidos para gerar textos que pareçam escritos por humanos.

Um dilema perverso

Para a Universidade, enquanto instituição geradora de conhecimento, e especialmente para a nossa Faculdade e para o setor da Comunicação, a IA generativa constitui aquilo a que, na Teoria dos Jogos, se chama um dilema perverso.

Um dilema perverso só pode ser mitigado ou gerido, porque não tem uma solução correta: todas as opções razoáveis produzem efeitos negativos indesejados e cada solução cria novos conflitos. Até a própria formulação do problema depende da interpretação e dos valores de quem o analisa.

No campo da Educação discute-se se o uso da IA deve ser restringido ou incentivado, o que significa aprender e qual o valor do esforço, como evitar o plágio e como avaliar o conhecimento.

A irrupção da IA obriga-nos a reafirmar quais são as competências verdadeiramente valiosas e a sublinhar o papel da sala de aula, do atelier e do trabalho partilhado.

A IA oferece-nos uma excelente oportunidade para voltar a pensar e debater o que é o conhecimento, em que consiste a inteligência e qual o valor da criatividade.

Um padrão criado pela Google

No setor da Comunicação, a IA repete o padrão criado pela Google: cada pesquisa dos utilizadores treina gratuitamente um motor de busca cujo modelo de negócio assenta na publicidade contextual, retirando receitas ao mercado dos media.

Tal como a Google canibalizou a publicidade dos meios de comunicação, a IA está agora a canibalizar o seu conteúdo.

Ainda assim, a IA tornou-se, em poucos anos, uma das ferramentas mais poderosas e impactantes da Comunicação — ao nível da imprensa de Gutenberg ou da própria internet.

A IA está a reconfigurar as nossas profissões e a transformar todo o setor. Não podemos ignorá-la, nem repetir os erros cometidos com a web e as redes sociais.

De qualquer forma, confesso-vos que a minha esperança está precisamente naquilo que a IA não consegue fazer (e por isso é tão importante compreendê-la fora da lógica da magia).

A IA não possui senso comum, experiência de vida, empatia, perceção, vontade, desejos, intenções, curiosidade, paixões, consciência ou emoções.

Tenho esperança porque, quanto mais abundante e barato for automatizar a produção de conteúdos, mais valiosa se tornará a produção original de conteúdos não sintéticos e mais importante será a capacidade de verificar aquilo que é automatizado.

Preocupações

Por outro lado, a minha preocupação prende-se com o risco de estudantes e profissionais renunciarem ao desenvolvimento das suas capacidades intelectuais devido ao conforto de uma inteligência artificial que — mesmo quando utilizada de forma pobre — consegue executar tarefas sem esforço.

Preocupa-me que nos tornemos escravos das máquinas, não por alguma maldade intrínseca da IA, mas porque desistimos de desenvolver os talentos e competências que nos tornam humanos.

Conselhos

Um colega escreveu-me pouco tempo depois de se reformar:

«Vejo que a vida se pode resumir em três fases: receber conselhos que não seguimos, dar conselhos que ninguém segue e arrepender-nos de não ter seguido os conselhos.»

Como devem imaginar, estou plenamente na fase de dar conselhos, mas — ao contrário do meu amigo — espero que me oiçam.

Por isso, aqui ficam seis:

  1. Assumam que a IA não é magia, é programação automatizada; e não é inteligência, é simulação da linguagem.
  2. Não tenham medo da IA; tenham medo da preguiça induzida pela tecnologia.
  3. Tenham a coragem de procurar e dizer sempre a verdade, mas trabalhem com fontes que possam verificar — e lembrem-se de que nem a Google nem a IA são fontes.
  4. Usem a IA como um assistente cognitivo que vos ajude a pensar, não como substituto da vossa própria reflexão.
  5. Treinem diariamente a vossa inteligência através de boas leituras, grandes filmes e conversas profundas, cara a cara.
  6. Finalmente: não renunciem a pensar e não deixem de escrever. Por esta ordem. Todos os dias. Esse será o vosso superpoder.

Muito obrigado e boa sorte.

[1] Clarke, Arthur C., Profiles of the Future. An Inquiry into the Limits of the Possible, Warner Books, Nueva York, 1985, p. 26.

[2] García-Noblejas, Juan José, Medios de conspiración social, EUNSA, Pamplona, 1998 (2ª ed.), pp. 53-54.

[3] Turing, Alan M. “Computing Machinery and Intelligence” Mind, vol. 59, nro. 236, 1950, pp. 433-460.

[4] McCarthy, John, Marvin L. Minsky, Nathaniel Rochester y Claude E. Shannon, “A Proposal for the Dartmouth Summer Research Project on Artificial Intelligence, August 31, 1955”, AI Magazine, vol. 27, nro. 4, 2006, pp. 12-14.

[5] Bender, Emily M. y Alex Hanna, La estafa de la IA. Cómo combatir el espejismo de las grandes tecnológicas que amenaza tu trabajo y tu libertad, Paidós, Barcelona, 2026, p. 19.

[6] Aristóteles, Política, I, 1253a 10-11 (trad. Manuela García Valdés), Gredos, Madrid, 1988, p. 51.

[7] Sala i Martín, Xavier, Entre el paraíso y el apocalipsis. La economía de la inteligencia artificial, Conecta, Barcelona, 2025, pp. 690-691.

Luis Orihuela,
Professor de Comunicação e Multimédia na Universidade de Navarra, autor de Manual Breve de Mastodon (2023) e Culturas Digitales (2021)

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