Neste março de 2025, Portugal veste-se de cinza e prata, com nuvens carregadas que despejam sobre o território uma abundância de chuva não vista em décadas. As ruas de Lisboa, Coimbra ou Porto refletem o brilho molhado das calçadas, enquanto os campos do Alentejo absorvem cada gota como terra sedenta que finalmente encontra alívio. Este […]
Neste março de 2025, Portugal veste-se de cinza e prata, com nuvens carregadas que despejam sobre o território uma abundância de chuva não vista em décadas. As ruas de Lisboa, Coimbra ou Porto refletem o brilho molhado das calçadas, enquanto os campos do Alentejo absorvem cada gota como terra sedenta que finalmente encontra alívio. Este cenário pluvioso, que poderia ser motivo de celebração, traz à tona reflexões profundas sobre a gestão e sustentabilidade dos nossos recursos hídricos.
Um março para recordar
As estatísticas meteorológicas apontam para um março excepcionalmente chuvoso, rivalizando com os registos históricos. Em 2013, por exemplo, Lisboa e outras sete estações meteorológicas registaram o março mais chuvoso desde que há registos, com precipitações que superaram largamente as médias habituais, como se pode ler na imprensa nacional publicada naquele ano.
Agora, embora os dados completos ainda estejam a ser compilados, observa-se uma tendência semelhante, com níveis de precipitação que podem colocar 2025 entre os anos mais húmidos das últimas décadas. Depois de três depressões consecutivas – Jana, Konrad e Laurence -, chegou hoje outra que vai durar até amanhã, também com direito a nome: chama-se Martinho.
Mas, se no centro e norte do país as sarjetas se entopem e os telhados pingam como torneiras mal fechadas, no resto do território a realidade é mais complexa. O Alentejo, habituado a longas estiagens, recebe esta chuva como uma bênção, mas teme que ela venha demasiado tarde ou demasiado rápido, sem tempo para penetrar os lençóis freáticos, um problema agravado pelo aumento das temperaturas médias e pela sobre-exploração agrícola.
No Douro e no Centro, por sua vez, a abundância hídrica traz um equilíbrio precário: as vinhas, ainda a recuperar do stress hídrico do verão passado, enfrentam agora o risco de doenças fúngicas causadas pelo excesso de humidade, enquanto as barragens começam finalmente a encher-se após meses de níveis alarmantes, um alívio temporário num cenário de incerteza climática.
Paradoxo hídrico: abundância e escassez
Esta abundância de água, contudo, contrasta com os alertas recentes sobre a sustentabilidade hídrica em Portugal. O Relatório do Estado do Ambiente 2024, publicado pela Agência Portuguesa do Ambiente, destaca que, apesar dos episódios de chuvas intensas, o país enfrenta riscos significativos de escassez de água nos próximos 20 anos. Fatores como as alterações climáticas e práticas agrícolas intensivas contribuem para esta vulnerabilidade.
Um dado alarmante é que 71% dos agricultores não utilizam sistemas de medição de consumo de água, dificultando a implementação de estratégias eficientes de gestão hídrica. Isto significa que, mesmo num ano de chuvas intensas, a capacidade de armazenamento e uso eficiente da água continua a ser um dos maiores desafios do país. E não é apenas a agricultura que enfrenta problemas. O consumo urbano, marcado por redes antigas e perdas de água significativas, precisa de investimentos urgentes.
Em Lisboa, Porto ou Faro, a questão é clara: ter chuva não significa ter água. O ciclo da água já não é o que era, e o que cai do céu não chega para sustentar um país se não for bem gerido.
Iniciativas para a sustentabilidade
Em resposta a estes desafios, foi criado o grupo de trabalho ‘Água que Une’, conforme o Despacho n.º 7821/2024 publicado no Diário da República. Este grupo tem como missão desenvolver uma nova estratégia nacional de gestão da água, visando políticas que assegurem a sustentabilidade dos recursos hídricos no país. Entre as medidas que já estão a ser discutidas estão incentivos para a modernização dos sistemas de rega agrícola, campanhas de sensibilização para a redução do consumo urbano e a renovação das infraestruturas de abastecimento.
Paralelamente, o Panorama Global de Recursos 2024 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente enfatiza a necessidade urgente de uma transformação global para o uso sustentável da água. Os especialistas alertam que a escassez hídrica será um dos grandes desafios da humanidade neste século, afetando não apenas a segurança alimentar, mas também a estabilidade económica e social de muitas regiões.
Portugal, apesar de ser um país pequeno, não está imune a essa realidade. A alternância entre períodos de seca extrema e chuvas torrenciais exige uma adaptação rápida e eficaz, sob pena de o país enfrentar uma crise hídrica nos próximos anos.
Reflexão final
No mundo, há ainda 756 milhões sem acesso a água potável. Só este ano, já morreram 177 mil pessoas por doenças causadas devido a água sem condições para consumo. Assim, enquanto as chuvas de março caem generosas sobre Portugal, é imperativo que esta dádiva não nos faça esquecer os desafios que se avizinham. Como um rio que tanto pode ser fonte de vida como de destruição, a água exige de nós respeito e responsabilidade na sua gestão.
O que fazemos com a água que nos é dada determinará o futuro do país. E se este março ficar para a história como um dos mais chuvosos, que seja também lembrado como o mês em que se começou a falar, a sério, sobre o que fazer com a água que temos à nossa disposição.


