Eis um grupo de livros que, acredito, merecem atenção no meio de estantes cada vez mais iguais por esse mundo fora. Vários géneros para vários gostos. P.S – Estão a ser reeditados alguns dos grandes livros de Gabriel Garcia Marquez, como o maravilhoso Amor nos Tempos de Cólera (Dom Quixote). Um clássico, ou seja, intemporal. […]
Eis um grupo de livros que, acredito, merecem atenção no meio de estantes cada vez mais iguais por esse mundo fora. Vários géneros para vários gostos. P.S – Estão a ser reeditados alguns dos grandes livros de Gabriel Garcia Marquez, como o maravilhoso Amor nos Tempos de Cólera (Dom Quixote). Um clássico, ou seja, intemporal.
Na área da liderança chega Projeto Fricção de Robert Sutton e Huggy Rao (Vogais). Há muitos anos que sigo com atenção e admiração o trabalho destes dois excelentes investigadores, aqui em modo divulgadores. Este trabalho dedica-se às muitas formas das “fricções” que tornam o trabalho, tantas vezes, insuportável. Como todos podemos ser causas de fricção, eis um livro para todos.

Na literatura de gestão em formato académico, chegou um livro que explora uma ideia fascinante: a importância da cor na organização e gestão: Organizing Color de Timon Beyes (Stanford University Press). Beyes percorre a importância da cor como “força organizativa”, viajando da indústria química da República de Weimar ao cinema de Godard, passando pela obra literária de Thomas Pynchon. Uma viagem colorida pela gestão.
No ensaio, chega tradução de outro herói intelectual, Jonathan Haidt, aqui em parceria com Greg Lukianoff, autores de A Infantilização da Mente Moderna (Guerra e Paz). O título original aludia à mente americana, mas o fenómeno, todos percebemos, tomou conta do ocidente global. Como tem sido observado, a sensibilidade às agressões (reais e imaginárias) criou um conjunto de disfunções sociais que se tornaram demasiado visíveis nos últimos anos. Um livro para descodificar a realidade.
Outro livro cuja tradução importa celebrar é O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell (Alma dos Livros). Trata-se de um clássico que codifica os passos da jornada do herói. Os heróis têm mil faces, mas a jornada que percorrem não difere muito: partida, iniciação, retorno. Conhecer esta jornada é conhecer um pouco melhor a alma humana.

Sobre ideias e política regista-se a chegada de A Nova Peste, de Manuel Maria Carrilho (Desassossego). Com o subtítulo Da ideologia de género ao fanatismo woke o livro analisa o fenómeno que alguns (os apaniguados) dizem não existir: o pensamento woke. Refletir sobre tudo o que nos polariza importa e Carrilho, professor de filosofia, está bem posicionado para ajudar a navegar estas águas turbulentas e divisivas. Tem a vantagem de incluir um capítulo sobre a variante local do wokismo.

Sobre a justiça, escreveu este junho António Barreto que «são proverbiais os adiamentos, as deslocações inúteis, as esperas», etc. etc. Pois Barreto é um signatário de Pela Reforma (Bertrand), o manifesto dos 50. Um livro oportuno sobre aquele que poderá ser o maior problema do nosso país. Este volume é mais um apelo, talvez um SOS para que o setor acorde da modorra em que se instalou.

Tem feito furor O Jogo dos Milhões, de Gary Stevenson (Lua de Papel), o trader que, vindo de baixo, depois de ganhar muito dinheiro se tornou crítico do sistema. Trata-se de um personagem pouco convencional que disse, por exemplo, em entrevista ao Negócios, que «Muitos ricos acham que os pobres são estúpidos». Um dos livros-sensação do ano.

Na frente da história de Jaime Nogueira Pinto aterra a reedição de Nuno Álvares Pereira (Dom Quixote). A vida do “cavaleiro monge” é o tema de um livro que estuda um dos heróis da nação. Num tempo em que o passado é alvo de reescritas críticas há certamente lugar para trabalho biográfico como este, de um autor que, gostemos mais ou menos, pensa pela sua cabeça.

E no terreno da ficção, termino com A Arte da Alegria, de Goliarda Sapienza (Dom Quixote). Talvez a autora não seja um dos nomes mais populares da literatura italiana, mas é uma obra notável, com uma escrita solar, mas carnal. Uma evidência de como a literatura nos pode transportar para outras vidas e outros lugares. Este livro leva-nos a uma Itália que talvez me tenha feito lembrar Elena Ferrante. Excelente.

Este artigo foi publicado na edição nº 31 da revista Líder, cujo tema é ‘Decidir’. Subscreva a Revista Líder aqui.


