Portugal decidiu ontem quem vai disputar a Presidência da República a 8 de fevereiro e as projeções confirmaram o cenário mais provável: António José Seguro (31,1%) e André Ventura (23,5%) seguem para a segunda volta. A campanha foi marcada por temas fortes — identidade nacional, segurança, funções presidenciais e o papel das instituições — num país cada vez mais fragmentado e com uma participação cívica cheia de nuances. E os números confirmam-no: os portugueses saíram do sofá e foram às urnas. A abstenção, com 46%, é a mais baixa dos últimos vinte anos.
Ao longo da campanha, as posições públicas dos candidatos foram tão diversas quanto os 11 nomes oficialmente admitidos no boletim de voto. O vencedor da noite foi António José Seguro e nas suas palavras realçou ter recebido apoio de vários quadrantes políticos, «demonstrando a natureza independente, livre e sem amarras da sua candidatura».
A partir das Caldas da Rainha, terra onde reside, apelou à consciência democrática e que «unidos é possível vencer o extremismo». Foi mais longe ao ressalvar «que será sempre o Presidente de todos os portugueses» e que «a política ou serve os interesses da população ou não serve para nada». Já durante a sua candidatura, a bandeira foi essa quando referiu que «as eleições presidenciais não são de partidos, são de pessoas», procurando destacar a sua intenção de ser um Presidente agregador e autónomo, capaz de reforçar a confiança nas instituições e dar voz aos desafios sociais e económicos do país.
À chegada ao seu quartel-general em Lisboa, Ventura reagiu às projeções com uma visão estratégica para a segunda volta, afirmando que pretende «agregar a direita a partir de hoje», numa tentativa de consolidar apoios entre os eleitores não socialistas e reforçar a sua posição contra Seguro na etapa final da corrida presidencial. O candidato insistiu ser o «novo líder da direita em Portugal» e prometeu trabalhar para obter o apoio daqueles que votaram em nomes como Cotrim de Figueiredo e Luís Marques Mendes.
André Ventura, líder do Chega, apostou numa fórmula que marcou boa parte da sua campanha: uma linguagem direta e combativa, personificada na frase que se tornou uma das mais associadas à sua candidatura: «sou o Presidente que quer dar um murro na mesa». Essa postura traduziu-se num tom firme e numa tentativa de capitalizar o descontentamento com o establishment político, utilizando símbolos e imagens que ressaltaram em vários momentos do percurso eleitoral. Prometeu ainda combater o socialismo e endereçou agradecimentos aos emigrantes portugueses que demonstraram uma preferência significativa pelo principal rosto do Chega, enquanto realçava que a sua campanha será concentrada em unir esse eleitorado em torno da sua candidatura na segunda volta.
Resultados da primeira volta
António José Seguro — 31,1%
André Ventura — 23,5%
João Cotrim de Figueiredo — 16%
Henrique Gouveia e Melo — 12,4%
Luís Marques Mendes — 11,3%
Catarina Martins — 2,1%
António Filipe — 1,6%
Manuel João Vieira — 1,1%
Jorge Pinto — 0,7%
André Pestana — 0,2%
Humberto Correia — 0,1%
Abstenção: 46%
Cotrim: alternativa liberal e mensagem clara aos sociais democratas
João Cotrim de Figueiredo terminou em terceiro, com 16%, depois de na reta final da campanha ter sido visto como o principal candidato capaz de rivalizar com André Ventura pela segunda vaga. A possibilidade de um confronto direto entre o liberal e o líder do Chega chegou a estar em aberto até às projeções dos últimos dias, mas acabou por não se concretizar.
Cotrim surgiu como uma alternativa num cenário político marcado pela fragmentação. A sua candidatura conseguiu captar atenção ao apresentar uma abordagem liberal, centrada na ideia de renovar o debate político e oferecer uma terceira via, aproximando-se dos jovens, num momento em que o país se viu demasiadamente indeciso. Nas suas declarações, enalteceu a sua campanha que «fez história e que isso já ninguém lhes tira», sublinhando um resultado expressivo e positivo para o projeto liberal. Lamentou não ter recebido apoio do PSD, culpabilizando Luís Montenegro «pela sua falta de estratégia».
A campanha acabou por ser marcada por uma série de episódios que desviaram a atenção das ideias para o país. Casos laterais e declarações polémicas, por vezes mal calibradas, contribuíram para desalinhar a mensagem e dificultar a consolidação do impulso inicial. Ainda assim, a candidatura manteve a esperança de chegar ao segundo lugar até ao fim. A presença de Ventura na segunda volta e a posição de Cotrim reforçam a ideia de que a direita terá de negociar o futuro próximo entre alinhamentos estratégicos e uma reconfiguração do espaço político.
O declínio de dois candidatos que chegaram a ser favoritos
A campanha ficou também marcada pelo declínio inesperado de dois nomes que, durante meses, pareciam caminhar com segurança para o pódio. Henrique Gouveia e Melo (12,4%) entrou na corrida com o capital simbólico da pandemia e a imagem de autoridade técnica, mas nunca conseguiu transformar esse lastro numa narrativa política consistente. A falta de um discurso claro sobre o papel presidencial, aliada a uma comunicação excessivamente controlada e pouco empática, foi esvaziando o entusiasmo inicial. No seu discurso felicitou os dois candidatos que passaram à segunda volta, e reforçou que acredita que o cargo de Presidente deve ser «apartidário».
Luís Marques Mendes (11,3%) conheceu um destino semelhante. Experiente, omnipresente no comentário político e conhecedor profundo do sistema, acabou penalizado precisamente por isso. A campanha revelou os limites de uma candidatura excessivamente ancorada no passado e numa lógica de estabilidade que já não mobiliza um eleitorado cansado do mesmo registo. Marques Mendes falou para dentro do sistema num momento em que muitos eleitores procuravam ruptura ou, pelo menos, um sobressalto. No fim, não endossou votos para a segunda volta e elogiou o espírito cívico dos portugueses.
Lutas ideológicas legítimas, mas eleitoralmente residuais
Quanto aos restantes candidatos, a campanha confirmou aquilo que já era antecipado: lutas ideológicas legítimas, mas eleitoralmente residuais. Cada um defendeu as suas causas — sociais, sindicais, cívicas ou simbólicas — com coerência e convicção, mas sem nunca conseguir furar o rumor mediático nem alterar a perceção generalizada de que o seu peso no resultado final seria limitado. A sua presença serviu mais para marcar posição no debate público do que para disputar seriamente o acesso à segunda volta.
Ainda assim, com cerca de 2,1% dos votos, Catarina Martins reagiu às primeiras projeções e deixou um apelo claro aos eleitores: na segunda volta, o voto deve concentrar-se em António José Seguro. A deputada europeia reforçou que a noite eleitoral deixou também uma mensagem política mais ampla, ao qualificar a queda de Luís Marques Mendes como «uma hecatombe» e sublinhar que o resultado é, em última análise, uma derrota do Governo.
António Filipe (1,6%), apoiado pelo PCP, endossou os votos a Seguro. Além disso, teve a sua leitura: «Pesou na cabeça de alguns eleitores o voto em António José Seguro, com receio de terem dois candidatos de direita na segunda volta». Nota ainda para Manuel João Vieira (1,1%), homem da cultura e com uma abordagem satírica que teve mais votos que Jorge Pinto (0,7%) deputado do Livre.
Com este cenário, a primeira volta acabou por funcionar como um grande funil político, reduzindo rapidamente o campo e empurrando o país para uma escolha binária. A eleição ainda não terminou, mas a campanha revelou já vencedores e derrotados antes mesmo da contagem final dos votos. A segunda volta, marcada para oito de fevereiro, será agora um confronto direto entre projetos antagónicos, num país politicamente desgastado, dividido e à procura de um Presidente que seja mais do que uma figura de passagem.


