Num mundo marcado por fragmentação geopolítica, incerteza económica e transformação acelerada, Davos volta a afirmar-se como palco de debate global. No centro das atenções está a Europa e a forma como responde a uma mudança que, segundo Ursula von der Leyen - que marcou presença na inauguração do Encontro Anual do Fórum Económico Mundial - é estrutural e permanente.
Os primeiros dias da Reunião Anual do Fórum Económico Mundial (WEF) em Davos-Klosters, Suíça, marcaram o início de um encontro que junta mais de 2.500 líderes globais, representantes de governos, empresas, sociedade civil, academia e cultura para debater desafios geopolíticos, económicos e sociais complexos em 2026. O evento irá decorrer até 23 de janeiro, contando com vários painéis.
No segundo dia do encontro, Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia, assumiu um papel central ao inaugurar uma das sessões mais aguardadas de Davos. A líder europeia defendeu que a atual mudança geopolítica deve ser encarada como uma oportunidade – e uma necessidade – para construir uma nova forma de independência europeia, rejeitando qualquer ilusão de regresso à antiga ordem internacional.
Do espírito fundador de Davos à urgência de uma nova independência europeia
Ao assinalar mais de meio século desde o primeiro encontro em Davos, Ursula von der Leyen recuperou o espírito fundador do Fórum Económico Mundial como espaço de debate sobre «as questões e ideias do momento». Apesar de reconhecer que o mundo se transformou profundamente desde 1971, sublinhou que a essência de Davos permanece intacta. Por isso, disse estar particularmente satisfeita com o regresso às origens, através do tema deste ano, A Spirit of Dialogue, lembrando que «esse espírito é ainda mais importante num mundo que está mais fragmentado e mais conflituoso do que nunca».
A presidente da Comissão Europeia evocou ainda o chamado Nixon shock e o colapso do sistema de Bretton Woods como um momento de rutura que, paradoxalmente, abriu caminho a uma ordem verdadeiramente global e deixou uma lição clara para a Europa: a necessidade de reforçar o seu poder económico e político e de reduzir dependências estruturais.
Essa mesma lógica, defendeu, aplica-se ao presente. Para von der Leyen, os choques geopolíticos «podem e devem servir como uma oportunidade para a Europa». É neste contexto que enquadra o conceito de independência europeia, que classificou como «uma oportunidade, na verdade, uma necessidade de construir uma nova forma de independência europeia».
Admitiu que a expressão gerou ceticismo quando foi usada pela primeira vez, há cerca de um ano, mas garantiu que existe hoje um consenso alargado sobre a sua urgência. «A nostalgia não trará de volta a velha ordem», avisou, rejeitando qualquer tentativa de adiar decisões estruturais. Se a mudança é permanente, concluiu, «a Europa também tem de mudar permanentemente». Para a líder europeia, esta nova Europa já está em construção.
Comércio global, investimento e segurança: a Europa num mundo que mudou permanentemente
Como prova concreta dessa transformação, Ursula von der Leyen destacou a assinatura do acordo UE–Mercosul, após 25 anos de negociações, que criou a maior zona de comércio livre do mundo, representando mais de 20% do PIB global. O acordo, afirmou, envia uma mensagem clara: «estamos a escolher o comércio justo em vez das tarifas. A parceria em vez do isolamento. A sustentabilidade em vez da exploração». E acrescentou: «a Europa escolherá sempre o mundo. E o mundo está pronto para escolher a Europa».
A estratégia europeia, explicou, passa por diversificar cadeias de abastecimento, reduzir riscos e reforçar parcerias globais, da América Latina ao Indo-Pacífico, com novos acordos em curso com vários países e regiões.
No plano interno, a presidente da Comissão defendeu a necessidade de mobilizar os ativos europeus — poupança, competências e inovação — através de um ambiente regulatório previsível e verdadeiramente integrado. Anunciou a criação de um ’28.º regime’, o EU Inc., com um conjunto único e simples de regras aplicáveis em toda a União, permitindo que empresas sejam criadas em qualquer Estado-membro em 48 horas, totalmente online.
Paralelamente, destacou a construção da União da Poupança e do Investimento, a aposta numa verdadeira união energética e a aceleração da transição para energia acessível e resiliente. Num mundo de concorrência global «implacável», a Europa precisa, disse, de um verdadeiro urgency mindset.
Essa urgência estende-se à defesa e à segurança, com um reforço histórico do investimento europeu, e à guerra na Ucrânia, onde deixou uma mensagem inequívoca: «a Europa estará sempre ao lado da Ucrânia. Até que haja uma paz justa e duradoura». A concluir, sublinhou que, da economia à segurança, da defesa à democracia, «o mundo mudou permanentemente e a Europa precisa de mudar com ele».
Debate global com risco económico e tecnologia no centro da agenda
Enquanto os painéis oficiais ainda se distribuem ao longo da semana, tem-se sublinhado que o encontro deste ano se realiza num contexto de geoeconomia tensa, inovação tecnológica acelerada e fragmentação internacional. Dias antes do início oficial, o Relatório de Riscos Globais do WEF quebrou esperanças de estabilidade próxima: revelou que a escalada do confronto económico entre potências – impulsionada por sanções e tarifas – é a maior ameaça à estabilidade global em 2026, à frente de conflitos armados ou riscos climáticos. «A incerteza é o tema determinante das perspetivas de riscos globais em 2026», destaca o relatório.
A agenda do encontro, que decorre até 23 de janeiro, integrará debates sobre crescimento económico, resiliência, inclusão social, inovação tecnológica responsável e sustentabilidade, com foco particular na forma como se deve expandir o acesso a novas tecnologias, investir no capital humano e enfrentar desafios ambientais de forma equitativa.
O tom e as expectativas para os próximos dias
Os participantes parecem conscientes de que, em tempos de fragmentação política e económica, o espaço para diálogo imparcial e cooperação multissetorial é mais necessário do que nunca. A cerimónia de abertura e as primeiras conversas refletem uma tensão entre competitividade e colaboração, com uma clara preocupação em encontrar caminhos concretos para enfrentar os riscos globais.
Foto destaque: Fórum Económico Mundial


