Depois de uma primeira volta das eleições presidenciais muito imprevisível, com o mais alto número de candidatos de sempre, tudo indica que na segunda volta haverá uma vitória folgada de António José Seguro. Como explicar esta reviravolta em tão curto espaço de tempo?
As presidenciais são as únicas eleições unipessoais no nosso regime democrático. É por isso que as características individuais de cada candidato são da maior relevância. A atitude moderada, decente e informada de Seguro destacou-se pela diferença, em especial em relação a Ventura, sempre estridente, a apontar o dedo a bodes expiatórios de estimação e ao ‘sistema’, palavra que para ele designa coisas muito diferentes, incluindo o regime democrático conquistado em 1974.
São também opostas as visões que cada um deles tem do mundo, da sociedade e das relações entre as pessoas e os povos. Seguro acredita na dignidade de todos os seres humanos, sem distinção de cor de pele, religião ou país de nascimento, e defende os valores e direitos constitucionais. Ventura autoatribui-se o monopólio da identidade nacional, ignorando a história de um país que há mais de 900 anos se fez de chegadas e partidas, e provoca-nos clamando por três Salazares.
Mas talvez mais ainda que tudo isto, que é imenso, pese neste momento na decisão de cada eleitor a incerteza do futuro, a mutação a que assistimos na repartição do mundo pelos mais poderosos e o espetáculo diário da insanidade de Donald Trump ao comando de uma verdadeira ‘egopolítica’ de escala mundial. Ventura tem-se afirmado como uma imitação caseira desse ego desmesurado, de quem copia ideias e o descaramento na falsificação de factos e dados.
Multiplicaram-se, entretanto, apoios a Seguro vindos da esquerda e da direita e das mais diversas personalidades. Este facto, que muito irritou Ventura, torna claro o que está em jogo: Seguro pretende merecer efetivamente a possibilidade de ser o «presidente de todos os portugueses», sem ódios nem revanchismos; Ventura quer extremar a direita portuguesa, esvaziando o espaço central da direita democrática para minar por dentro o nosso regime democrático. É aliás essa a intenção reiterada da extrema-direita iliberal e xenófoba que vem crescendo na Europa e no mundo.
Estamos em plena vaga de desconstrução democrática, com todos os perigos de violência, insegurança e retrocesso nos direitos fundamentais que ela traz consigo.
Apesar de estarmos perante uma escolha tão clara, Luís Montenegro eximiu-se a assumi-la. O seu «não é não» caducou. Não será ele a garantir o cordão sanitário que a defesa da democracia e dos direitos humanos, que devem ser garantidos a todos, exige neste momento histórico.
Caberá agora ao povo português, com o seu voto livre, dar a resposta que se impõe, colocando em Belém um homem que tudo fará para honrar Portugal e manter bem vivo o sonho de um país «mais livre, mais justo e mais fraterno» inscrito há cinquenta anos na nossa Constituição.


