A COP29 começou com ambiente de desconfiança. Os principais líderes mundiais, dos países que mais poluem, não quiseram viajar até Baku, Azerbaijão, onde termina hoje a 29ª cimeira pelo clima das Nações Unidas. A ausência de Joe Biden, Vladimir Putin, Xi Jinping ou até mesmo de Ursula Von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia, não […]
A COP29 começou com ambiente de desconfiança. Os principais líderes mundiais, dos países que mais poluem, não quiseram viajar até Baku, Azerbaijão, onde termina hoje a 29ª cimeira pelo clima das Nações Unidas. A ausência de Joe Biden, Vladimir Putin, Xi Jinping ou até mesmo de Ursula Von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia, não foi indiferente e o resultado está à vista. Discórdias e impasse ecológico, enquanto o planeta precisa de respostas e soluções.
António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, não teve quaisquer dúvidas em afirmar, logo na primeira semana do evento, que os «ricos causam o problema e os pobres pagam o preço mais alto». Basta relembrar a Cop27 que destacou o Chade, a Somália e a Síria como os países mais vulneráveis às mudanças climáticas. Nesse sentido, a atribuição de um montante para defender estes e outros territórios da destruição ambiental continua sem acordo.
Adonia Ayebare, representante do Uganda e que preside o grupo G77 + China, formado por países em desenvolvimento, disse à agência de informação Reuters existir um sentimento de «frustração». A expetativa era que as nações ricas fornecessem 1,2 milhão de milhões de euros por ano, até 2030, em financiamento público para o clima. Porém, rumores do que se tem passado nos bastidores da cimeira, avançados pela Reuters, apontam que a União Europeia tem em mente uma proposta mais baixa, entre 190 e 280 biliões de euros.
Números informais e que já foram desmentidos pela instituição. Ainda de acordo com a Reuters, o comissário climático da UE, Wopke Hoekstra, justifica que o bloco não está disposto a falar sobre o valor até que tenha mais detalhes estruturais, comparando o momento a um «cesto de compras com um preço sem se saber o que está lá dentro».
Cabeças de dinossauro para quem não tem ambições ecológicas
A passividade dos encontros também foi posta em xeque pelas organizações ambientalistas. Ainda sem um valor para o “Novo Objetivo Coletivo Quantificado” (NCQG), nome dado ao documento que será a bússola da transição ecológica, os ativistas presentes na conferência das Nações Unidas atribuíram esta quarta-feira à UE o “fóssil do dia”, um prémio satírico que censura o desempenho europeu. Os ambientalistas, agrupados na “Climate Action Network” (CAN, uma rede internacional que junta quase 2.000 organizações), atribuem os “galardões” em cada cimeira climática da ONU. Com os “fósseis do dia”, que têm a forma de uma cabeça de dinossauro, visam os países ou entidades que, na sua opinião, não estão a mostrar ambição nas negociações da transição climática.
Apesar das incertezas, Wopke Hoekstra convergiu com os ambientalistas sobre alguns assuntos. Em conferência de imprensa, considerou, na quarta-feira, o projeto de acordo final «inaceitável» e «insuficientemente ambicioso em matéria de redução dos gases com efeito de estufa», muito devido à oposição dos países produtores de petróleo. Destaque para a presença recorde de pelo menos 1.773 representantes do lobby e indústria petrolífera nesta cimeira.
Apesar das divisões, já há acordos com olhos no futuro
Centrais a carvão – Mesmo numa senda de divisões e discórdias, há acordos com olhos no futuro. Sobre o carvão, 25 países, a maioria deles ricos, comprometeram-se, nesta quarta-feira, a não inaugurar mais centrais a carvão sem sistemas de captura de CO2. O Reino Unido, que acaba de fechar a sua última central a carvão, Canadá, França, Alemanha e Austrália, um grande produtor de carvão, assinaram esse apelo voluntário durante a conferência da ONU sobre o clima em Baku. China, Índia e Estados Unidos não apoiaram a iniciativa.
Combustíveis Fósseis – Também houve progressos sobre a eliminação dos combustíveis fósseis. Reino Unido, Colômbia e Nova Zelândia anunciaram a adesão à Coalizão Internacional para a Eliminação Gradual de Incentivos aos Combustíveis Fósseis (COFFIS). A iniciativa, lançada em 2021 durante a COP26 de Glasgow, passa a contar com 16 membros que se comprometem a ir para a próxima COP30 no Brasil com um plano nacional para eliminar gradualmente os subsídios neste setor.
Emissões de metano – A cimeira da ONU sobre o clima promoveu uma declaração para inverter as emissões de metano provenientes dos resíduos orgânicos, responsáveis por cerca de 20% das emissões do gás. De acordo com a Avaliação Global do Metano do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA), para conter o aquecimento global em 1,5°C, o mundo deve reduzir as emissões de metano da indústria de resíduos em entre 30% e 35% até 2030 e em cerca de 55% até 2050.
Energia Nuclear – Apesar de ser um tema tabu, a energia nuclear começa a ganhar força nas alternativas energéticas. O movimento começou já na conferência climática do ano passado, nos Emirados Árabes Unidos, quando 22 países prometeram, pela primeira vez, triplicar o uso mundial de energia nuclear até a metade do século para ajudar a conter o aquecimento global. Na cúpula deste ano, no Azerbaijão, mais seis países assinaram o compromisso.
Oceanos – Com o aumento das temperaturas dos oceanos, também estes ganharam protagonismo ao longo da cimeira. A degradação da biodiversidade muito se deve a este flagelo. As funções dos oceanos são determinantes para o bom funcionamento do planeta, dando equilíbrio e vida aos ecossistemas. Está agora em marcha um plano de financiamento para preservar e assegurar áreas marinhas, por exemplo como os Açores. No próximo ano a cimeira da ONU sobre o Oceano terá lugar no mês de junho, em Nice, França.
Informação – A Iniciativa Global para Integridade da Informação sobre Mudanças do Clima também foi assunto de discussão. Este grupo de trabalho quer mais força no combate à desinformação sobre as alterações climáticas. O Relatório Riscos Globais de 2024, do Fórum Económico Mundial e publicado em janeiro, colocou os eventos climáticos extremos no topo da lista dos 10 principais riscos que as populações globais enfrentarão ao longo da década. Já no curto prazo, a desinformação é apontada como o fator de maior perigo para as economias.
Em discurso nesta quinta-feira, em Baku, António Guterres disse que o “fracasso não é uma opção”, alertando que o resultado da falta de ação poderá ser catastrófico.


