A Companhia das Culturas é uma Casa Agrícola com 40 hectares no barrocal algarvio que está na família do Francisco, meu marido, há sete gerações. Quando chegou o momento de ser ele a zelar por este património, viemos viver para S. Bartolomeu do Sul. Foi há 30 anos, em meados dos anos 90. A proposta […]
A Companhia das Culturas é uma Casa Agrícola com 40 hectares no barrocal algarvio que está na família do Francisco, meu marido, há sete gerações. Quando chegou o momento de ser ele a zelar por este património, viemos viver para S. Bartolomeu do Sul. Foi há 30 anos, em meados dos anos 90. A proposta de restauro da arquitetura rural ainda não fazia parte do caderno de encargos dos apoios comunitários e, também por isso, o mercado não estava dotado de empresas de reconstrução de casas de barro e cal.
Sob a orientação do arquiteto Pedro Ressano Garcia, que é também o autor do projeto, eu investi-me em empreiteira em regime de adjudicação direta dos mais diversos oficiais. Durante sensivelmente 10 anos, entre 1998 e 2008, ano de abertura da Companhia das Culturas, restaurámos os primeiros 1000 m2. O processo de restauro e adaptação às novas funções prolongou-se até 2015, nesta década já noutras condições.
Atualmente, são 2000 m2 de área coberta, que integra a Casa Grande, com sete quartos, três casas duplex, e uma de piso térreo, no total de 15 quartos, várias áreas comuns, uma Cork Box – a antiga garagem da máquina debulhadora, totalmente forrada a cortiça, constitui o mais impressivo espaço para a prática de Yoga, Pilates ou outras performances pelo conforto acústico e táctil. E um Hamam, o primeiro feito de raiz, do Portugal contemporâneo e de uso privado, para o máximo de quatro pessoas, forrado com mármore de Estremoz.

A arte a dar a toada do acolhimento
Se as obras de arte são objetos, gestos, sons, movimentos ou aromas que não relevam de uma relação funcional e utilitária, então eu diria que o trabalho de reconstrução do Pedro Ressano Garcia foi feito para suscitar essa relação ambígua/sensível com o mundo em redor. A arte, seja ela qual for o suporte ou o médium, é o lugar da incerteza; uma coisa é muitas coisas.
Uma das qualidades deste projeto arquitetónico é a de nunca sabermos ao certo se uma parede é deste tempo ou do tempo em que foi construída a chaminé da antiga cozinha que o artífice assinalou, 1828, ou como o artigo de Cristina Cordeiro, na revista de arquitetura Cubo, em 2008, sublinhava “as paredes da Companhia das Culturas são uma espécie de cartografia do tempo».
Os mais de 40 metros de comprido da parede de vidro do alpendre, com teto e telhado em cortiça queimada, vertiginosamente virada para as oliveiras multiseculares deixa-nos fora de nós. Os desenhos a carvão de Jorge Feijão de grandes dimensões, os desenhos com fios de algodão de cores matizadas de Tomás Cunha Ferreira nas paredes mais ou menos invisíveis dos quartos, salas ou corredores, os desenhos animistas da Mumtazz, os tapetes voadores com a técnica dos tapetes de Arraiolos da dupla Tomba, os monumentais desenhos de tinta da china de Thierry Simões, são, juntamente com os objetos de Eneida Tavares – jarras de cerâmica e ondulantes fibras vegetais, tapetes de encosto e com almofada integrada feitos com os restos de fios da indústria têxtil, a taça de fruta em cortiça com lápis de cores a servir de pé de Fernando Brízio e que de pernas para o ar é um porta lápis são cada um deles, outros modos de fazer mundo, e todos nos oferecem a possibilidade de ser outro.
E se o centro deste negócio, a hotelaria, lato senso, zela pelo bem-estar de outros, a arte onde incluo o trabalho de restauro arquitetónico, enquanto a mais generosa relação com o mundo, dá a toada do acolhimento.

Um contraponto ao turismo convencional
Na capa da revista Cubo de 2008, vinha a chamada a um artigo sobre a Companhia das Culturas cujo título era “Companhia das Culturas, O primeiro anti resort no Algarve». Por tudo que foi dito dá para entender que a Companhia das Culturas é um projeto com raiz, que é um trabalho de interpretação de um lugar onde convivem vários tempos, várias gerações.
Não quisemos nem apagar, nem reificar uma época ou uma estética específica, mas fazer conviver em simultâneo e no mesmo espaço vários tempos, várias técnicas, estilos e práticas de vida, sem hierarquizar.
A esta presença simultânea de vários tempos se chama contemporaneidade ou a consciência de que uma época pode ser muitas épocas. É isso que eu acho que somos, de um tempo com muitos tempos.

Fotos: Companhia das Culturas
Este artigo foi publicado na edição nº 32 da revista Líder, cujo tema é ‘Simplificar’. Subscreva a Revista Líder aqui.




