O mundo apresentou-se em Davos com a compostura dos impérios em declínio: fatos bem cortados, discursos limpos e a garantia íntima de que algo essencial já se perdeu. Trump voltou a insistir nas tarifas, recuando apenas quando necessário. A sua ideia é simples e dura: o conflito é a própria regra que organiza o mundo. Zelensky subiu ao palco para acusar a Europa de hesitação enquanto a guerra se aprende a si própria todos os dias. Já Macron discursou como um homem que sabe que a História não espera por consensos, e talvez por isso ainda acredite que o velho continente pode servir de escudo. Davos, esse anfiteatro alpino da globalização, limitou-se desta vez a registar as regras que deixaram de ser obedecidas.
O eixo dominante do 56º World Economic Forum (WEF) foi a geopolítica, ou mais precisamente, a ideia de que a velha ordem internacional que prometia regras, direitos e cooperação está a desmontar-se à vista desarmada.
O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, lançou talvez a frase mais cortante: «Estamos no meio de uma ruptura, não de uma transição». Longe do lapso retórico, a sua tese foi um diagnóstico frio de que o mundo ordenado desde 1945 deixou de existir.
Ao contrário de discursos mais performativos, Carney falou a partir de uma posição intermédia, a de um país integrado nas alianças ocidentais, mas atento aos limites dessas mesmas estruturas. A sua leitura apontou para um mundo em que a fragmentação económica, o regresso da política de poder e a erosão das regras multilaterais não são desvios temporários, mas características duradouras. Em Davos, a sua intervenção é um diagnóstico pragmático sobre o tempo da gestão incremental que terminou, e o custo de não o reconhecer tende a ser pago em instabilidade prolongada.
Da mesma forma, o chanceler alemão Friedrich Merz avisou que o planeta está a entrar numa era de «política de grandes poderes», onde a força, e não a diplomacia, volta a ser a moeda de câmbio principal.
Sobre isto respirou tudo o resto do fórum: tensão entre Estados Unidos e Europa sobre comércio, sobre segurança, sobre poder no Ártico e até sobre um pedaço de terra gelada chamado Gronelândia.
Trump e a erosão das regras
Se algum convidado roubou o palco foi Donald Trump. Longe das métricas que um diplomata clássico esperaria — melhor cooperação, clima, inclusão — a sua presença catalisou aquilo que está a acontecer: a incredulidade das instituições.
Trump usou Davos para reafirmar a sua visão «America First», tecendo uma narrativa económica e estratégica que, em muitos momentos, se chocou com o consenso tradicional de Davos. Os provérbios da globalização pacífica dissolveram-se num discurso que ponderava tarifas, protecionismo e segurança continental.
Haurindo holofotes, Trump também renovou com provocação a sua retórica sobre a Gronelândia e até sugeriu teoricamente um acordo de segurança que concederia aos EUA «total acesso» à ilha, reacendendo debates que até há pouco pertenciam ao domínio da especulação geopolítica.
Este tipo de afirmações vai além da espuma na boca dos media e evidencia que a diplomacia que era tradição está a perder o monopólio da linguagem internacional, substituída por negociações abertas, onde o que se diz pesa, por vezes, mais do que o que se cumpre.
Europa: entre a nostalgia e a realidade brutal
O discurso da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, foi, na verdade, um grito contido: «A velha ordem acabou». Esta constatação veio acompanhada de avisos bem vincados que a nostalgia não constrói um futuro real.
A Europa, que por décadas se aninhou sob o guarda-chuva ocidental de regras e confiança mútua, acordou para um problema simples: não existe mais um «ocidente» unificado contra todo o resto. Há interesses, prioridades e ambições que não se alinham. Isso foi dito num tom que misturava urgência com uma leve ansiedade institucional.
Mas a voz que ecoou com maior impacto veio de Emmanuel Macron, presidente de França, armado de uma fórmula quase lapidar: estamos a deslizar para «um mundo sem regras», um lugar onde o direito internacional é pisado e a lei do mais forte avança.
Macron usou uma linguagem que reflete tensão e urgência comparáveis às de von der Leyen, mas com um tom mais explícito de confrontação. Para ele, aquilo que se partiu não foi apenas um consenso diplomático, mas a própria lógica de cooperação que sustentava a noção de Ocidente unido. O francês alertou que novas tarifas, pressões económicas e movimentos geopolíticos são tentativas deliberadas de enfraquecer e subordinar a Europa.
No palco de Davos, Macron denunciou também um aumento da autocracia e de conflitos simultâneos — mais de 50 guerras ativas — e a normalização da violência como ferramenta de poder internacional. Também Zelensky foi claro: sem apoio real, a conversa sobre valores europeus é irrelevante. A Ucrânia não é um símbolo, mas um teste. E, até agora, o teste tem sido passado com classificações medianas e muitos comentários de rodapé.
Entre apelos à autonomia estratégica, à reindustrialização e a uma política de defesa mais robusta, ficou claro que a Europa se encontra numa fase intermédia: consciente de que o passado não regressa, mas ainda hesitante quanto ao grau de assertividade necessário para enfrentar um cenário global mais duro, mais competitivo e menos previsível. Davos não ofereceu respostas definitivas, contudo, expôs a distância crescente entre a memória de um mundo regulado e a realidade de um mundo em disputa.
AI, emprego e riscos existenciais
Se houvesse um segundo tema dominante depois da geopolítica, foi a inteligência artificial e o seu impacto sobre emprego, sociedade e soberania humana. Kristalina Georgieva, diretora do FMI, escreveu que a IA vai transformar ou eliminar até 60% dos empregos em economias avançadas — um número que poderia, em outras circunstâncias, ter derrubado bolsas e paralisado dirigentes em pânico.
Em Davos, porém, a reação ao risco foi menos pânico do que fricção: líderes tecnológicos a prometer futuros quase redentores, líderes políticos a exigir regulação, equidade e algum sentido social, todos reunidos à volta de uma pergunta incómoda: o que fazer com o trabalho humano?
Apesar de todos os alarmes geopolíticos e tecnológicos, houve consensos, meros mas significativos, de que a economia global ainda mantém alguma resiliência. O Fundo Monetário Internacional, o Banco Central Europeu e a OMC sublinharam que o crescimento não está a desmoronar, embora seja insuficiente para lidar com dívidas e desigualdades crescentes.
Os economistas tratam-no como nota de rodapé, mas o que prevaleceu foi a confirmação de um mundo factual e perigosamente mais fragmentado, onde cooperar já não é um gesto civilizado, mas uma concessão arrancada a custo.
Depois de Davos
Retirado o aparato, Davos 2026 deixa apenas três verdades difíceis de contornar. A ordem mundial pós-Guerra Fria já não existe. Foi substituída por uma geopolítica direta e sem creme. A tecnologia, especialmente a IA, promete mas também ameaça. E o velho espírito de Davos de consensos diplomáticos foi trocado por um realismo quase militarizado de interesses nacionais.
O prognóstico não é otimista. O mundo que pensamos que tínhamos de interdependência simbiótica, regras partilhadas e confiança mútua, já era. O desafio agora é menos falar do futuro e mais decidir quem controla o presente.


