Os desequilíbrios de poder entre os sexos e a posição do “outro” que as mulheres ocupam no Mundo são retratados n’O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. A pertinência desta obra, ao fim de quase 75 anos, parece não ter envelhecido. Ainda assim, os condicionalismos sociais que levam à construção de categorias como “mulher” ou “feminino” – e que estão na base da opressão das mulheres – têm sido finalmente convocados a desconstruir, a eliminar, a alinhavar, por muitas mulheres de vários parâmetros da sociedade.
Aliás, Susan Sontag sabia-o, há já 50 anos: «As mulheres têm outra opção. Podem aspirar a ser sábias e não apenas simpáticas; competentes e não apenas prestáveis; fortes e não apenas graciosas.»
A Líder tenciona dar palco e voz às líderes e empreendedoras que souberam ser fortes, mas também sensíveis. O desafio parte de um guião de perguntas comum a todas. Definitivamente, no mundo corporativo, e apesar de todos os avanços, as mulheres não estão em lugar de igualdade em relação aos homens – salários, oportunidades de progressão de carreira, maternidade e trabalho, expetativas de resultados, entre outros. Fora da bolha do mundo ocidental, ainda há uma inequívoca discriminação, violação de direitos humanos, desigualdades profundas.
Celebrar ser mulher, sim. Hoje e sempre, enquanto houver voz, palavras e histórias. Preparados para “ventilar o coração”? (Marjane Satrapi sabia o que dizia.)
Teresa Paixão, Diretora da RTP2
Nasceu em Lisboa, em 1960, numa família de mulheres e homens feministas. Pensou ser conservadora de um museu, mas a vida trocou-lhe as voltas e levou-a em 1986 para a RTP. Durante 25 anos foi responsável pelos programas infantis e há 9 anos é responsável pela RTP 2. Viveu uma vida profissional magnifica e pessoal cultivando uma grande simplicidade.
De que matéria são feitas as grandes mulheres?
As grandes de átomos de coragem , atrevimento, sensibilidade, muito bom senso e um grão de sorte. As que não são consideradas grandes é tudo igual, mas sem o grão de sorte.
Em que sentido a vulnerabilidade pode ser uma força para os que lideram?
Há um ditado popular que diz que devemos fazer das fraquezas forças. Reconhecer e verbalizar a vulnerabilidade quando ela surge para mim é a maior das forças. A pior vulnerabilidade é andar a fingir que se é forte.
O que foi determinante no seu crescimento pessoal e profissional?
As pessoas que encontrei ao longo da vida pessoal e profissional, sempre e sempre as pessoas. E a sorte de ter encontrado na profissão a maior paixão da minha vida (com todos os riscos que tem uma paixão).
Que conselho daria hoje ao seu ‘eu’ mais novo?
Tome muito a sério o seu trabalho, mas nunca se tome a sério e já agora não despreze a alegria nem a etiqueta profissional.
Que ensinamentos deixa para outras mulheres?
Apenas que não tomem a liderança masculina sempre como modelo porque aquele modelo não serve sempre. Inovem de vez em quando.
Como lida com o erro?
Muito, muito bem. Acho o erro uma coisa normalíssima, de resto não gosto que me peçam para não errar, prefiro que me exijam que corrija. Fujo a sete pés das pessoas que se dizem perfeccionistas, diz-me a experiência que elas só querem estragar tudo.
Quais são as suas referências e fontes de inspiração?
Aprendi imenso nos filmes americanos sobre liderança, as lideranças autoritárias, mimadas e tontas acabavam sempre mal e vencia sempre a liderança amável e decente. Não quero dizer os nomes, mas foram sempre pessoas gentis, pontuais, cultas, práticas e decididas que me inspiraram. Já lhes disse pessoalmente muitas vezes o quanto lhes estou grata.