Nem todas as datas fundadoras nascem do conflito ou da rutura. Algumas afirmam-se pelo contrário: pela contenção, pela escolha consciente e mais segura. São datas que abrem estruturas, criam hábitos, instituem regras invisíveis que passam a governar o presente. A entrada de Cabo Verde no ciclo das eleições livres e multipartidárias aconteceu a 3 de janeiro de 1991, quando os cabo-verdianos se reuniram para escolher, pela primeira vez, o seu Governo e Presidente da República num regime verdadeiramente plural.
Este ato cívico extinguiu, de vez, o monopólio de partido único e inaugurou o ciclo institucional que molda ainda hoje a vida política do arquipélago: uma democracia parlamentar, com eleições regulares, alternância de poder e participação ativa de diversas forças políticas.
As próximas etapas desta jornada estão já marcadas no calendário cívico de 2026: as eleições legislativas estão agendadas para 17 de maio e as presidenciais para 15 de novembro, com a possibilidade de uma segunda volta a 29 de novembro, se nenhum candidato alcançar maioria absoluta na corrida pela Presidência da República. A fixação destas datas foi anunciada pelo Presidente da República, José Maria Neves, após consultas alargadas aos partidos políticos e à Comissão Nacional de Eleições, num apelo à participação plena e à mobilização da diáspora cabo-verdiana no escrutínio.
As celebrações
As celebrações deste 35.º aniversário são mais do que simbolismo protocolar. Ao longo de uma semana, o país revive a sua caminhada e reafirma compromissos pela liberdade e pela dignidade do voto — com exposições culturais, festivais populares e debates académicos que promovem o espírito crítico e criativo da sociedade cabo-verdiana. A inauguração do Monumento à Liberdade e Democracia e um programa de atividades que envolve comunidades locais e a diáspora — de Lisboa a Dakar e Brockton — evidenciam a dimensão comunitária desta celebração.
Na sessão solene na Assembleia Nacional, os líderes políticos reconheceram que o 13 de janeiro continua a ser um marco estrutural do sistema político cabo-verdiano, ao mesmo tempo que reiteraram o compromisso com instituições fortes e com o reforço do Estado de Direito. Entre discursos, apelos à renovação política e à defesa das instituições — incluindo justiça independente e ética parlamentar — emerge a percepção de que a democracia não é um ponto de chegada, mas uma missão contínua de reforço e aperfeiçoamento.
Olhando para trás e para a frente
Olhando para trás, os 35 anos de eleições em Cabo Verde contam também histórias de alternância política e consolidação democrática, como noticiou o Expresso das Ilhas. Desde a vitória inicial do Movimento para a Democracia (MpD) em 1991, passando por sucessivas legislativas e presidenciais, até ao papel crescente de partidos como o PAICV e a UCID, o eleitorado tem demonstrado uma maturidade cívica que desafia estereótipos e coloca o país entre os exemplos de estabilidade e participação política no continente.
Mas a celebração vai mais longe que a retrospetiva. Há vozes que lembram que a democracia cabo-verdiana enfrenta desafios contemporâneos — desde debates sobre a justiça e a autoridade pública até à necessidade de aprofundar a inclusão dos jovens na vida política e reforçar a integridade dos processos eleitorais. Mais do que recordar, as comemorações servem para reforçar a chama cívica que move Cabo Verde, como um arquipélago onde o voto é um ato de pertença comunitária e de esperança coletiva.
Neste território onde o Atlântico encontra a terra, a democracia celebra 35 anos de existência viva, construída por gerações que souberam transformar o exercício do voto num instrumento de afirmação da soberania e de diálogo permanente com o futuro. A história cabo-verdiana de eleições é, acima de tudo, uma história de participação, resistência cultural e vontade de fazer da liberdade política uma experiência diária, do Mindelo à Cidade da Praia, de cada ilha à diáspora espalhada pelo mundo.


