O ano de 2026 deverá marcar um ponto de viragem nos mercados financeiros globais. Ao contrário de outros ciclos económicos caracterizados por recuperações sincronizadas, o atual cenário desenha-se fragmentado e desigual, com clivagens evidentes entre setores, geografias, políticas monetárias e até classes sociais. Para Bruno Janeiro, analista e cofundador do Grupo AIR Trading, o conceito que melhor resume este contexto é o de «polarização multidimensional».
Apesar de um enquadramento geopolítico tenso e de sinais de desaceleração no mercado de trabalho, a economia global deverá manter alguma resiliência em 2026. O crescimento será sustentado por estímulos fiscais antecipados e pela continuidade do ciclo de investimento em inteligência artificial (IA), embora subsistam riscos relevantes. O consumo nas economias desenvolvidas tende a abrandar, as empresas mostram-se mais cautelosas na contratação e a inflação continua acima das metas em várias regiões.
A probabilidade de uma recessão global é estimada em cerca de 35%, mas a robustez dos balanços empresariais, condições financeiras ainda favoráveis e políticas orçamentais expansionistas poderão evitar um cenário mais negativo. A expectativa é de que o crescimento do PIB global ganhe tração na primeira metade do ano, à medida que o investimento e a confiança empresarial recuperam.
Um mercado acionista cada vez mais dividido
Nos mercados acionistas, a clivagem é clara. Os setores ligados à inteligência artificial continuam a captar uma fatia desproporcional dos fluxos de capital, beneficiando de uma nova vaga de investimento e de ganhos de produtividade, enquanto os setores mais tradicionais permanecem dependentes dos ciclos económicos convencionais.
Esta dinâmica está a conduzir a uma concentração extrema do mercado, com um número reduzido de empresas a dominar os principais índices. Ainda assim, o cenário permanece construtivo: são esperados ganhos de dois dígitos nos principais mercados desenvolvidos e emergentes, apoiados pelo crescimento dos lucros, pela descida gradual das taxas de juro e por um alívio dos riscos regulatórios. Tecnologia, saúde, serviços financeiros e defesa surgem entre os setores com maior potencial, num contexto em que a seletividade será determinante.
Divergência monetária como desafio central
Um dos principais desafios para os investidores em 2026 será a divergência entre políticas monetárias. Nos Estados Unidos, a Reserva Federal poderá avançar com cortes adicionais de 50 pontos base, enquanto o Banco do Japão deverá seguir o caminho inverso, aumentando as taxas na mesma magnitude. Na Europa, os bancos centrais tenderão a manter uma postura mais estável ou a concluir os ciclos de afrouxamento no primeiro semestre.
Apesar da desaceleração, a inflação continua ‘pegajosa’, sobretudo nos EUA, onde os custos laborais e os preços dos bens permanecem elevados. Esta combinação de crescimento relativamente sólido com um mercado laboral mais frágil desafia a atuação dos bancos centrais e deverá traduzir-se numa subida gradual das yields obrigacionistas.
Dólar sob pressão, euro com margem de recuperação
No mercado cambial, o dólar deverá apresentar alguma fraqueza em 2026, ainda que menos acentuada do que no ano anterior. O abrandamento da economia norte-americana e uma Fed mais cautelosa poderão pesar sobre a moeda, embora a inflação persistente limite movimentos mais bruscos.
O euro, por sua vez, poderá beneficiar de uma maior expansão fiscal na Alemanha e de sinais de estabilização económica na zona euro. Já a libra esterlina deverá recuperar no início do ano, mas as incertezas políticas e orçamentais do segundo semestre poderão travar essa tendência.
Crédito: foco no risco específico
Nos mercados de crédito, o foco desloca-se do enquadramento macroeconómico para a análise micro. O aumento da emissão de dívida — associado ao investimento em IA, operações de fusões e aquisições e programas de recompra de ações — poderá pressionar os spreads, sobretudo no segmento investment-grade nos EUA.
Ainda assim, os retornos totais esperados continuam positivos. As projeções apontam para cerca de 3% no crédito de alta qualidade e para 5,5% no segmento high yield europeu, onde os níveis de incumprimento deverão estabilizar entre 3% e 4%.
Emergentes com margem, mas vulneráveis a choques externos
Os mercados emergentes deverão manter um crescimento estável em 2026, beneficiando de menor volatilidade macroeconómica e de políticas monetárias mais flexíveis. Excluindo a China, o crescimento médio deverá situar-se nos 3,3%, com destaque para países exportadores integrados no ciclo tecnológico global.
A inflação está, em geral, a regressar às metas dos bancos centrais, abrindo espaço para novos cortes nas taxas de juro. No entanto, estes mercados continuam vulneráveis a choques externos, como uma inflação mais persistente nos EUA ou uma correção abrupta nas bolsas norte-americanas.
Commodities: petróleo pressionado, ouro em destaque
No mercado das matérias-primas, a oferta deverá superar a procura de petróleo em 2026, o que poderá manter o preço do crude WTI em torno dos 50 dólares por barril. Ainda assim, cortes de produção — voluntários ou forçados — poderão evitar quedas mais acentuadas.
No gás natural, a entrada em funcionamento de novos projetos de GNL deverá contribuir para uma descida dos preços. Em sentido contrário, os metais preciosos deverão beneficiar de uma procura sustentada por parte de bancos centrais e investidores. O ouro poderá atingir os 5.000 dólares por onça até ao final de 2026, com a prata a acompanhar essa tendência.
Um ano para investir com método
Para Bruno Janeiro, «2026 será um ano de navegação cuidadosa». A coexistência de riscos elevados com oportunidades relevantes exige uma abordagem disciplinada, informada e seletiva. «A polarização dos mercados não significa ausência de oportunidades, mas sim a necessidade de interpretar corretamente os fluxos, os ciclos de investimento e as movimentações das máquinas algorítmicas que moldam cada vez mais os preços», sublinha.
Num contexto em que a velocidade e o poder de execução das grandes instituições são difíceis de replicar, a vantagem competitiva dos investidores passa pela capacidade de leitura do mercado, consistência estratégica e adaptação a um mundo financeiro cada vez mais polarizado. Em 2026, mais do que prever, será essencial saber agir.


