O Presidente da República marcou presença na 10ª edição do Encontro Anual do Conselho da Diáspora Portuguesa (CDP), relembrando o papel central da diáspora na projeção internacional de Portugal.
Ao encerrar o encontro, mencionou o soft power português como um dos principais ativos estratégicos do país. «Temos um soft power poderosíssimo», afirmou, resultante da história, da geografia, da diplomacia, das Forças Armadas e, sobretudo, da diáspora portuguesa espalhada pelo mundo.
O Presidente sublinhou ainda que a dimensão real da diáspora portuguesa é frequentemente subestimada, defendendo que o país é, hoje, numericamente maior fora do que dentro do território nacional. Marcelo Rebelo de Sousa destacou também o crescimento progressivo do CDP, desde um núcleo inicial até à consolidação de uma rede global de excelência, reunindo portugueses de referência nas áreas da educação, ciência, tecnologia, cultura e empresariado.

O seu discurso, o último enquanto presidente honorário do CDP, terminou com um apelo mobilizador aos conselheiros da diáspora, convocando-os para uma atitude ativa, inconformista e criativa ao serviço do país: «Continuem insubmissos e rebeldes, isso é fundamental, não deixem de sonhar». E concluiu, citando a cultura portuguesa como motor de futuro: «Porque, como dizia um grande poeta português, é pelo sonho que vamos.»
O Encontro da CDP, que reúne 376 conselheiros portugueses, presentes em 44 países dos cinco continentes, aconteceu no dia 18 de dezembro, em Cascais. Com mais de 200 convidados, Paulo Rangel, Emídio Sousa, João Rui Ferreira e José Manuel Durão Barroso, foram algumas das personalidades que também marcaram presença.
A Diáspora está cada vez mais forte e destaca-se em cada país que pisa
António Calçada de Sá, Presidente da Direção do CDP, iniciou a sessão com uma reflexão sobre o papel da diáspora enquanto capital humano e estratégico, referindo que se quer «uma diáspora cada vez mais forte, mais relevante, visível, útil, plural e transformadora. Esta é a nossa visão e, nesse sentido, estamos a trabalhar na organização de novas iniciativas e projetos para 2026, em 14 núcleos regionais nas diversas geografias».

Nuno Piteira Lopes, presidente da Câmara Municipal de Cascais, acrescentou que «uma narrativa que a nossa diáspora continua a assegurar é a de prestigiar e elevar o nome de Portugal para lá das fronteiras.»
Paulo Rangel, Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros e vice-presidente honorário do CDP, afirmou que «a diáspora portuguesa é uma prioridade dos governos portugueses», reforçando que os conselheiros têm tido «resultados concretos por todo o mundo». «A sua missão é fundamental; os conselheiros são uma extensão da nossa enorme – e altamente competente – máquina diplomática», acrescentou.
O Ministro deixou ainda uma palavra de apreço pelo trabalho de diplomacia económica que os conselheiros têm desenvolvido a favor de Portugal e dos portugueses: «A influência e capacidade de chamar a atenção em cada cidade e país em que vivem, é mesmo relevante. Esta é a importância que damos ao CDP: a capacidade de afirmar Portugal no exterior.»
«Ainda estamos longe do potencial que temos pela frente»
Emídio Sousa, Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, que falou também a partir da experiência pessoal, de «filho da diáspora», defendeu a necessidade de «mudar o conceito de nação»: que deixa de ser entendida apenas como «um território limitado» para se assumir como «uma nação global de pessoas e de comunidades».
Se retirarmos o critério geográfico, sublinhou, «somos os maiores do mundo, ou quase os maiores, estamos em todo o lado». Destacou igualmente o papel da diáspora como um ativo estratégico, afirmando que os portugueses no exterior são «os nossos grandes embaixadores», com uma notável «capacidade de integração, adaptação cultural e de desenvolver negócio», distinta, quando comparada com outros povos. Embora, reconheça, «ainda estejamos longe do potencial que temos pela frente». Deixou, por isso, um compromisso claro de «estabelecer e fortalecer esta relação com a diáspora», assente em três pilares: competitividade, inovação e ambição.

João Rui Ferreira, Secretário de Estado da Economia, sublinhou a diáspora portuguesa como um dos maiores ativos estratégicos do país, destacando a «grande capacidade de integração» dos portugueses e a sua «capacidade cultural de adaptação não só às línguas, não só à forma de vida, mas também à forma de desenvolver negócio», uma característica que considera distintiva à escala global.
Defendeu que Portugal «não se impõe pela força, mas impõe-se pelo soft power», valorizando uma diáspora que «não tem medo de arriscar» e que recusa a zona de conforto, funcionando como verdadeiro motor de ideias, propostas e desafios. Num contexto internacional marcado por grande incerteza e por uma transformação profunda do comércio global, afirmou que Portugal está hoje «bem posicionado para não ser apenas um espectador, mas um ator ativo nesta transformação europeia». Concluiu deixando um compromisso claro: «temos ainda um potencial enorme pela frente» e o Governo continuará a trabalhar de forma próxima com o Conselho da Diáspora Portuguesa, cuja ação classificou como «um grande fator de orgulho e de motivação» para o país.

Fugir dos três P
Moderado pela jornalista Joana Petiz, o debate Talento Português e Liderança foi lançado por João Vale de Almeida, antigo Embaixador da União Europeia, que afirmou que «somos todos embaixadores de Portugal, em qualquer atividade, e temos de assumir orgulhosamente essa atividade», refutando a ‘Síndrome dos 3P’, segundo o qual «Portugal é um país pequeno, periférico e pobre». Em alternativa, propôs uma ‘Abordagem 3A’: «Em vez de pequeno, ágil; em vez de pobre, ambicioso; em vez de periférico, atrativo. Temos de assumir limitações, mas amplificar capacidades, procurando sempre a excelência».
E referiu: «A imagem de um país é uma síntese de uma série de estímulos sensoriais, experiências e emoções que as pessoas sentem quando pensam em Portugal. São pequenos sinais que compõem a imagem do país». E concluiu que o sentido de urgência, eficácia e eficiência é o que ainda falta a Portugal, mas mostrou-se otimista: «Portugal não se deixa ficar mal». Manuel Santiago, Presidente da Music Series Festivals Association, alertou que «há um mundo para explorar, mas sem apoio financeiro sério, não se consegue promover a excelência». Ilustrando a sua posição com múltiplos exemplos ligados ao talento musical português, reforçou que «não há visibilidade internacional da nossa excelência. Necessitamos de pontes para essa visibilidade» e que «confiança é um argumento essencial para se avançar com estes projetos».

Em entrevista com Catarina Carvalho, fundadora e diretora do jornal digital Mensagem de Lisboa, José Manuel Durão Barroso, presidente da Assembleia Geral do Conselho da Diáspora, defendeu que os portugueses têm de ser realistas: «Fui o único presidente da Comissão Europeia que não veio de um dos grandes países; somos vistos com alguma condescendência, e temos, por vezes, de justificar estarmos nestas funções. Mas temos de assumir a nossa posição sem complexos».
Os portugueses, exemplificou, assumem o compromisso, são mais claros sem criar expectativas, menos categóricos, e mais humildes, mas é necessário encontrar um equilíbrio entre confiança e arrogância: «Se detesto o complexo de inferioridade que muitas vezes os portugueses têm, também detesto o complexo de superioridade de que somos os melhores do mundo».

Fotografias: Conselho da Diáspora Portuguesa




