A busca pelos segredos de uma vida longa e, sobretudo, saudável levou o Biólogo dinamarquês Nicklas Brendborg e a sua trupe a viajar pelo Mundo, desde o mar da Gronelândia até à ilha da Páscoa e aos reinos de túneis africanos do rato-toupeira-nu. Ao longo desta expedição, encontrou aventureiros da velha guarda, auto experimentalistas e alguns dos melhores cientistas do Mundo. Mas a grande sabedoria, essa, descobriu-a contida nas plantas e nos animais.
A investigação sobre o envelhecimento está ainda na infância, mas como ficámos a saber através do primeiro livro de Nicklas, As Medusas Envelhecem ao Contrário, da editora Contraponto, já deu muitos passos importantes. Não existe um remédio milagroso ou um elixir mágico da juventude eterna, mas há uma série de estratégias que podemos seguir para envelhecer mais lentamente e nos sentirmos mais jovens ao longo do caminho.
Sugerimos que entre a bordo de uma entrevista de exploração sobre um dos maiores enigmas da vida humana: o envelhecimento, com um dos mais jovens especialistas e um dos talentos mais promissores em Biotecnologia.

É considerado um dos mais prodigiosos Biólogos Moleculares. A que é que se tem dedicado a estudar nos últimos anos?
Estou atualmente a fazer o meu doutoramento na Universidade de Copenhaga e no Centro de Investigação da Atividade Física do Rigshospitalet.
Em 2021, publiquei o meu primeiro livro, As Medusas Envelhecem ao Contrário, sobre a ciência do envelhecimento e como viver uma vida longa. Desde então, o livro foi traduzido para 30 línguas em todo o Mundo, incluindo recentemente em português.
O livro faz parte de uma triologia de livros científicos que estou a escrever e o segundo, Vanedyr, foi publicado em dinamarquês no ano passado e será lançado internacionalmente no final deste ano, espero que também seja publicado em português no próximo ano.
Quais são os temas que aborda o segundo livro?
Aborda muitos dos problemas de saúde não relacionados com o envelhecimento que temos na nossa sociedade: A epidemia de obesidade, os níveis recorde de solidão, a toxicodependência, entre outros. Pode não parecer que exista um fio condutor, mas verifica-se mais uma vez que um único fenómeno está por detrás de todas estas crises de saúde pública.
Em 2016, o Prémio Nobel da Medicina foi atribuído ao Biólogo Yoshinori Ohsumi, pela sua investigação sobre autofagia. Vivemos uma época gloriosa para a pesquisa no campo da Biologia Molecular?
Novas técnicas e descobertas significam que podemos aprender muito mais do que antes sobre o funcionamento molecular do nosso corpo. O progresso está a acelerar, mas o sucesso não está de forma alguma garantido.
Porque é que decidiu escrever o livro As Medusas Envelhecem ao Contrário. Aprenda os Segredos da Longevidade com a Natureza?
O envelhecimento afeta todas as pessoas vivas e é a causa principal de grande parte do sofrimento no mundo moderno. Já há muito a fazer para retardar o processo de envelhecimento, mas também há muitos mitos e vendedores de banha da cobra por aí.
Com As Medusas Envelhecem ao Contrário quis traduzir as descobertas científicas em algo disponível para leigos, avaliando o que funciona e o que não funciona.
E quanto tempo demorou?
Demorei mais de um ano a escrever o livro, mas ainda mais tempo para o conseguir publicar. Inicialmente, o livro foi rejeitado por todas as grandes editoras dinamarquesas. Pensei que teria de pedir dinheiro emprestado aos meus pais para o publicar eu próprio. Felizmente, consegui encontrar uma editora recém-criada que acreditou no projeto e, pouco depois, o interesse explodiu.
De facto, a natureza tem muito a ensinar-nos. O que destacaria como lições valiosas?
Muitas pessoas pensam que o envelhecimento é uma coisa fixa. Mas olhando para outros organismos, podemos ver que é surpreendentemente variável.
Os animais podem ter vidas muito mais curtas do que nós (como certas moscas que vivem algumas horas) e podem viver muito mais tempo do que nós (como o tubarão da Gronelândia que vive 3 -500 anos). Podem envelhecer gradualmente, como nós, mas também subitamente, como o salmão do Pacífico, que passa de nadar em cascatas a morrer de envelhecimento em cerca de uma semana. Alguns animais, como as lagostas, evitam mesmo o envelhecimento por completo.
As lagostas tornam-se simplesmente maiores, mais fortes e mais férteis ao longo do tempo. Não vivem para sempre – eventualmente crescem tanto que acabam por morrer devido a problemas físicos – mas a velhice para uma lagosta não é sinónimo de fraqueza e declínio como acontece com os humanos.
Por fim, há mesmo organismos que podem envelhecer ao contrário, tal como descrito no título.
A maioria das medusas não é capaz de fazer este truque, mas algumas, como a minúscula espécie Turritopsis dorhnii, podem reverter da fase adulta para algo chamado fase de pólipo, se estiverem stressadas ou famintas. Seria como se uma borboleta se transformasse novamente numa lagarta.
A partir da fase de pólipo, a medusa cresce de novo e pode repetir este truque vezes sem conta, o que a torna biologicamente imortal, pelo menos em teoria.
A causa da morte pode ser uma doença, mas a causa definitiva é o envelhecimento. A pergunta que se impõem é: O que está ao nosso alcance fazer para atrasar o envelhecimento?
Os pilares de qualquer estratégia antienvelhecimento têm de ser os básicos: Exercício físico, dieta e sono. Só quando estas áreas estiverem tratadas é que se deve passar às intervenções mais “excitantes” disponíveis.
O que sabemos em resumo:
Exercício: O cardio é melhor do que o levantamento de pesos, mas a estratégia ideal é fazer ambos. O exercício cardiovascular 2-3 vezes por semana é suficiente para a maioria das pessoas. Uma sessão deve levar a frequência cardíaca a > 90 pct do máximo durante algum tempo.
Dieta: Deve ser dada prioridade à ingestão de proteínas e fibras. O objetivo deve ser reduzir o colesterol LDL (pouca gordura saturada) e evitar a hipertensão arterial (pouca ingestão de sal).
Sono: > 7 horas por noite é o ideal. Deve ser o mais escuro possível, fresco e em horários consistentes.
A partir daí, também descrevo muitas outras intervenções no livro: Tornar-se dador de sangue, usar fio dentário, evitar a solidão, experimentar suplementos como a espermidina e o zinco, tomar vacinas específicas, etc.
O Biólogo Theodosius Dobzhansky disse certa vez: «nada na Biologia faz sentido, exceto à luz da evolução». O envelhecimento é um fenómeno difícil de compreender quando observado pelas lentes da evolução?
Sim, pelo menos à primeira vista. Explico porquê no livro, mas, resumidamente, o envelhecimento parece uma má estratégia para espalhar os genes. No entanto, a explicação mais provável é que uma vida mais longa nem sempre é adaptativa em ambientes incertos com muitos perigos.
Fala-se muito em abrandar o relógio biológico. Porque é que as mulheres tendem a ter vidas mais longas do que os homens?
Não sabemos ao certo, mas é um fenómeno muito comum nos mamíferos. Os únicos mamíferos em que as fêmeas não vivem mais do que os machos são aqueles em que os sexos têm o mesmo tamanho.
Descobrimos com o seu livro que a maioria das apostas na procura da saúde ainda são feitas às escuras. Uma coisa pode ser saudável para uma pessoa e não o ser para outra. O seu livro dá-nos muito que pensar. O que gostaria de partilhar com os nossos leitores e de os deixar a refletir?
Vejam a lista acima.
E depois, para além disso, mantenham os olhos no campo do envelhecimento. Esperemos que nos próximos anos surjam intervenções ainda melhores.
O que diria sobre a longevidade dos portugueses?
É um pouco desanimadora em comparação com os seus vizinhos mediterrânicos. A zona mais longeva da Europa é uma faixa que se estende do norte de Espanha ao sul de França, Suíça e norte de Itália. Historicamente, tem sido este o caso e levou a muita investigação sobre a Dieta Mediterrânica que é, sem dúvida, a melhor dieta para a longevidade que conhecemos.
A segunda área com maior longevidade na Europa situa-se no extremo norte: A Islândia, as Ilhas Faroé, a Noruega e a Suécia. Neste aspeto, a minha Dinamarca e Portugal são semelhantes. Somos outliers negativos com vizinhos longevos, embora vocês continuem a viver mais do que nós.
E, finalmente, a Humanidade está a fazer o derradeiro apelo é o tema principal da Leadership Summit Portugal. Se pudesse deixar apenas uma mensagem à Humanidade, qual seria?
O envelhecimento é a causa principal da maioria das doenças atuais e atinge todas as pessoas vivas. A luta contra este fenómeno tem sido considerada a tarefa comum da Humanidade. É o único domínio em que o progresso pode ajudar toda a gente.
Esta entrevista foi publicado na edição nº 27 da revista Líder, sob o tema Humanity is Calling – Be Silent, Decide with Truth. Subscreva a Revista Líder aqui.