Em tempos marcados pela instabilidade e fragmentação, a fé continua a ser um lugar de interrogação, sentido e compromisso. Mas mais do que o que distingue cada religião, prevalece o que move cada fiel a professar e celebrá-la.
A propósito do Dia Mundial da Religião, assinalado a 21 de janeiro, a Líder reuniu testemunhos de vozes de três credos: islão, catolicismo e budismo. Cada uma sintetiza o papel da fé num mundo em guerra, a legitimidade da dúvida, o sentido da pertença religiosa e aquilo que, no essencial, a fé continua a oferecer às sociedades contemporâneas.
Nelson Faria, Jesuíta, Editor-geral do Ponto SJ
Vivemos um contexto geopolítico complexo e cada vez mais bélico. Que papel tem a religião na resolução destes conflitos?
As religiões são muitas vezes manipuladas de forma a justificar perseguições que servem interesses políticos. Aqueles que seguem Cristo devem assumir, sem reservas, a sua vocação como agentes de reconciliação, promotores da paz e construtores de pontes entre os desavindos.
Nestes tempos, é legítimo interrogar a presença de Deus?
Na visão católica, Deus não se impõe à vontade da pessoa. O mal moral tem a sua fonte na liberdade do ser humano e cabe a cada um dos católicos ser sensível à forma como Deus se manifesta e habita situações de desespero e nos chama a ser luz e fonte de esperança.
A Igreja tem receio de perder fiéis?
O único receio que a Igreja deve ter é não ser fiel ao Evangelho, ao anúncio de uma confiança e alegria que ultrapassam todas as expetativas, que tem a sua base na nossa identidade profunda como filhos queridos e amados de Deus. Quem vive pelos números, acabará sempre por se encerrar nos becos sem saída da autossuficiência. A pergunta-chave, em cada momento, é: «Senhor, onde queres que eu vá? Seguindo-te, sei que não me perderei». É esta liberdade para o seguimento de Jesus que deve ocupar o coração do crente.
Essencialmente, para que serve a fé?
A fé, tal como tudo o que realmente interessa, como a música, a amizade, a literatura, o amor e todas as demais dimensões relacionais, não é uma coisa mais que está ao nosso dispor, uma ferramenta ou instrumento que se mede pela sua utilidade. A fé não serve para nada, a fé serve; não tem utilidade, nem recompensa, é um caminho reconhecido e verdade acolhida.
A fé liberta-se da nossa imaginação, do nosso próprio amor, querer e interesse, e coloca-nos em movimento para o que realmente importa: dar vida, dando a própria vida.
Comunidade Islâmica de Lisboa
Vivemos um contexto geopolítico complexo e cada vez mais bélico. Que papel tem a religião na resolução destes conflitos?
As religiões foram reveladas para os humanos criarem uma ligação com o Criador. E também ter uma relação humana como seres humanos. Infelizmente, alguns querem impor aos outros as suas ideologias, usando a força para dominarem o seu próximo.
O papel das religiões é muito importante na resolução dos conflitos porque, perante o Criador, todos nós somos iguais. Todos nós temos que respeitar e ser respeitados.
Nestes tempos, é legítimo interrogar a presença de um deus?
Quando o ser humano tem dúvidas é legitimo interrogar a presença de Deus. E Deus deu-nos vários sinais até chegarmos a Ele. Basta estar atento a esses sinais.
O islão tem receio de perder fiéis?
Não, o Islão não tem esse receio. O Islão não precisa de muçulmanos, os muçulmanos é que precisam do islão.
Essencialmente, para que serve a fé?
A fé serve para dialogarmos com Deus, e evoluirmos espiritualmente. Há momentos em que a nossa fé fica um pouco abalada, mas também há momentos em que a nossa fé cresce e evolui.
Paulo Borges, Cofundador e ex-presidente da União Budista Portuguesa
Vivemos um contexto geopolítico complexo e cada vez mais bélico. Que papel tem a religião na resolução destes conflitos?
A religião tem um papel fundamental a desempenhar na resolução dos graves conflitos e desafios contemporâneos se os responsáveis e seguidores das várias tradições religiosas e espirituais as puserem efectivamente em prática, de acordo com os exemplos e ensinamentos deixados pelos seus fundadores e pelos mestres, sábios e santos que os continuaram até hoje.
Se os praticantes religiosos deixarem que a sua religião transforme profundamente as suas mentes e corações, conectando-os com uma dimensão mais vasta do ser e da consciência, que diminua o sentimento de separação entre si e os outros, sem a reduzirem a uma adesão meramente social, intelectual ou dogmática, a religião fará sempre parte da solução e não do problema. Se isto não acontecer, todavia, a insuficiente compreensão e prática dos caminhos espirituais apontados pelas religiões do mundo leva a que elas sejam facilmente desvirtuadas e instrumentalizadas pelos poderes geopolíticos e económicos, tornando-se parte do problema e não da solução.
A resolução dos conflitos externos implica uma pacificação interna dos vários agentes e protagonistas, que somos todos nós. Isso passa, segundo Sua Santidade, o XIV Dalai Lama, pelo desarmamento interior, o que em termos budistas supõe a renúncia à ignorância, a percepção dualista da realidade, que estabelece uma fictícia separação entre eu e outro, nós e eles, bem como aos consequentes apego e aversão. São estas forças mentais e emocionais que, em primeira e última instância, estão na raiz do sofrimento humano e de todos os conflitos, à escala individual, social e civilizacional.
Nestes tempos, é legítimo questionar a presença de um ou vários deuses?
Hoje em dia, tal como em todos os tempos, existe uma grande diversidade de possibilidades e propensões mentais nos seres humanos, o que se traduz numa enorme variedade de interesses, inclinações e necessidades espirituais e religiosas, bem como de visões filosóficas acerca da natureza da realidade e do sentido da vida. Daí decorre o surgimento de diferentes tradições, teístas e não teístas, centradas ou não na existência de Deus ou de deuses, sendo o budismo exemplo de uma tradição não teísta, que, em vez de se focar na questão de Deus ou dos deuses, explora o infinito potencial da mente para se libertar do sofrimento que causa a si mesma.
As diferentes formas de crença num ou mais deuses, ou a confiança no ilimitado potencial da mente, constituem o rico património espiritual da humanidade, que deve ser cultivado num espírito de diálogo, compreensão e tolerância mútua, para o bem de todos.
Verifica-se que, nas diversas tradições religiosas, o treino ético é basicamente o mesmo ou muito semelhante e convergente, no sentido de haver valores e práticas transversais, como o cultivo do amor e da compaixão, do contentamento e da paciência e da renúncia às emoções perturbadoras e ao apego aos bens mundanos e efémeros, entre outros. No que respeita às mais elevadas aspirações de cada religião para os seus seguidores, a ênfase é que sejam bons seres humanos, para si próprios e para os outros (incluindo as formas de vida não-humana), valores que são essenciais para a sociedade em geral e para a preservação da harmonia ecológica.
O budismo tem receio de perder fiéis?
Como sustenta Sua Santidade o Dalai Lama, o objetivo do budismo não é que as pessoas sejam budistas, mas sim que sejam felizes. O budismo não é proselitista, não se esforça por converter pessoas, embora naturalmente esteja fortemente disponível e motivado para inspirar as pessoas pelo exemplo de uma prática espiritual autêntica e para divulgar e partilhar os ensinamentos do Buda com todos aqueles que neles estiverem interessados, do modo mais adequado a cada um. Isto assume-se como um exercício de compaixão, que contribua para a libertação do sofrimento e para a realização de todo o potencial espiritual dos seres humanos.
Neste sentido, se forem coerentes com os seus princípios, os responsáveis e as comunidades budistas não têm receio de perder seguidores, porque não têm a insegurança inerente à expectativa de os ter, que pode ser sinal de preocupações mundanas com o poder, a riqueza e o prestígio. O receio que um praticante budista pode legitimamente sentir é de não praticar autenticamente a via do Buda e assim deixar de ser benéfico e inspirador para os outros seres humanos.
Essencialmente, para que serve a fé?
Na tradição budista, o caminho espiritual apoia-se tanto na fé como na razão. A fé, entendida como uma confiança que vem da compreensão e da experiência, deve estar assente na razão e na sabedoria. Nesse sentido, o Buda referiu que os seus ensinamentos não deveriam ser aceites numa atitude de fé cega, mas que deveriam ser questionados, investigados e postos à prova da razão e da experiência, tal como um ourives testa com rigor a qualidade do ouro antes de o começar a trabalhar.
Assim, como referimos, a própria palavra ‘fé’ designa uma confiança adquirida a partir de uma investigação, que nasce da escuta e estudo dos ensinamentos budistas, que se aprofunda na reflexão sobre eles e que se confirma em pô-los em prática em termos meditativos e éticos. A partir daí, esta fé ou confiança converte-se numa fé e confiança nos próprios recursos internos do praticante, na sua capacidade de consciência, amor, compaixão e sabedoria, nas qualidades inatas da sua própria natureza de Buda. A fé/confiança no Buda (a consciência desperta que é a essência de todos nós), no Dharma (a sabedoria dos seus ensinamentos) e na Sangha (a comunidade dos que os praticam compassivamente) converte-se num refúgio inabalável pelas dúvidas, hesitações e oscilações da mente conceptual e emocional.
A tradição budista aponta três tipos de fé: o primeiro surge sob a forma de admiração ou devoção (por exemplo, pelos exemplos de vida dos grandes mestres e praticantes); o segundo é a fé como aspiração, a aspiração a tornar-nos Budas, seres despertos, para ajudarmos todos os seres a chegarem ao mesmo estado; o terceiro é a fé confiante, uma convicção interior na possibilidade do progresso espiritual e do Despertar que gera uma transformação profunda.
Deste modo, a fé/confiança é considerada um dos principais pilares do caminho budista que tem como finalidade a libertação completa do sofrimento, só possível pela dissipação dos véus mentais e emocionais que impedem o reconhecimento da nossa natureza autêntica e a manifestação de todas as suas qualidades, o que nesta tradição se designa como estado de Buda.


