Acordámos em 2026 com uma sensação estranha de que, embora tenhamos delegado todas as tarefas chatas à Inteligência Artificial, estamos mais cansados do que nunca. Prometeram-nos que a tecnologia nos devolveria o tempo, mas a verdade é que ela apenas acelerou o ritmo a que o perdemos.
Hoje, o recurso mais escasso nas empresas portuguesas não é o capital, nem o talento, nem a inovação. É o silêncio. E para quem lidera, o silêncio não é ausência de som; é a capacidade de pensar sem o ruído constante do algoritmo a exigir a nossa próxima reação.
O erro de cálculo desta década foi acreditar que a liderança era uma questão de processamento de informação. Se assim fosse, o melhor gestor de Portugal seria um servidor algures num data center. Liderar, na verdade, é um exercício de curadoria da atenção. Numa economia onde todas as marcas, políticos e causas gritam por um milissegundo do nosso olhar, quem consegue proteger o seu foco torna-se detentor de um superpoder. O líder de 2026 já não é aquele que sabe tudo, mas aquele que sabe o que ignorar.
Esta é a grande disrupção que raramente discutimos nas conferências: a inteligência artificial tornou o “fazer” barato, mas tornou o “decidir” caríssimo. Quando a máquina nos entrega dez soluções perfeitas em três segundos, a angústia da escolha recai inteiramente sobre o humano. Sem a capacidade de nos desligarmos do fluxo incessante de notificações e métricas, tornamo-nos líderes reativos, especialistas em apagar fogos digitais enquanto o plano estratégico ganha pó numa pasta qualquer da cloud.
A pegada que deixamos hoje no mercado já não se mede apenas pela faturação, mas pela qualidade da presença que entregamos. O mercado sente quando uma marca
está a comunicar por desespero de algoritmo ou por convicção de propósito. Em 2026, os consumidores e os colaboradores desenvolveram um radar apuradíssimo para detetar o que é sintético. Eles não procuram empresas perfeitas; procuram empresas presentes. E a presença exige que o líder recupere o controlo do seu tempo e da sua intenção.
O meu desafio para este novo ciclo que agora iniciamos nesta revista é simples, mas profundamente difícil: comecem a auditar o vosso tempo com o mesmo rigor com que auditam as vossas contas. Percebam onde termina a ferramenta e onde começa a vossa autonomia. A tecnologia deve ser o motor que nos leva mais longe, nunca a mão que nos tapa os olhos.
No final do dia, quando fechamos o portátil e saímos do escritório, a única coisa que realmente levamos connosco é a satisfação de termos sido nós a carregar no “enter” da nossa própria vida. E esse, acreditem, é o maior luxo que 2026 nos pode oferecer.
