Durante décadas, o turismo em África foi contado a partir de fora. Olhado, descrito, medido e vendido por terceiros. Não é possível falar de crescimento sustentável, investimento sério ou políticas públicas eficazes quando o continente continua a depender de dados fragmentados, incompletos ou produzidos fora das suas próprias estruturas. O WA EoA Report 2025 e […]
Durante décadas, o turismo em África foi contado a partir de fora. Olhado, descrito, medido e vendido por terceiros. Não é possível falar de crescimento sustentável, investimento sério ou políticas públicas eficazes quando o continente continua a depender de dados fragmentados, incompletos ou produzidos fora das suas próprias estruturas. O WA EoA Report 2025 e o African Tourism Data Ecosystem 2025, produzidos respetivamente pela iniciativa WiTH Africa da Nova SBE e por equipas internacionais de análise, partem exatamente deste ponto desconfortável: a soberania turística depende da soberania dos dados.
Em 2025, o panorama do turismo africano emerge como um mosaico de potencial económico e inovação digital. O setor recuperou com vigor pós-pandemia, contribuindo com cerca de 168 mil milhões de dólares para o PIB e sustentando 18 milhões de empregos até ao final de 2024. Com uma população jovem, uma classe média em crescimento e vastos patrimónios naturais e culturais, o continente possui um potencial turístico quase ilimitado. Ainda assim, o crescimento acontece muitas vezes sem instrumentos sólidos de medição, fragilizando decisões públicas, afastando investidores mais exigentes e perpetuando a dependência de intermediários internacionais.
O paradoxo africano: crescimento sem controlo
África é uma das regiões do mundo com maior potencial de crescimento turístico nas próximas décadas. No entanto, este crescimento ocorre frequentemente sem uma arquitetura de dados à altura da ambição do setor. Sem dados fiáveis sobre fluxos, perfis de visitantes, impacto económico real, sustentabilidade ambiental ou retorno social, o turismo transforma-se num discurso otimista, mas politicamente frágil. Em termos simples: não há política pública sem dados, nem investimento sério sem previsibilidade.
O relatório deixa claro que os dados turísticos não são apenas técnicos, são políticos. Quem mede, define. Quem define, governa. Hoje, grande parte da informação sobre turismo africano continua a ser recolhida por plataformas globais, operadores internacionais ou entidades externas, muitas vezes com metodologias opacas e interesses desalinhados com as prioridades locais. Países que não controlam os seus próprios dados têm menos margem para negociar com investidores, planear infraestruturas ou proteger comunidades locais.
Dados abertos como alavanca estratégica
O acesso a dados turísticos abertos tornou-se um instrumento vital de transparência e planeamento. A adoção de formatos legíveis por software ou sistemas de inteligência artificial, como CSV e JSON, permite que governos, investigadores e empresas transformem números em decisões concretas. Cabo Verde, Quénia, Maurícias e Tanzânia mantêm-se como líderes incontestados, fruto de investimentos consistentes em sistemas de dados. Novos atores, como Togo, surgem como exemplos de progresso rápido e direcionado, alcançando visibilidade significativa no ecossistema de dados.
No entanto, o avanço não é homogéneo. Apenas 11 países atingiram a melhoria esperada na atualização dos dados, enquanto 26 registaram progressos inferiores a dois anos, revelando atrasos ou estagnação. A recência dos dados — quão atualizados estão — revelou-se o fator mais decisivo na pontuação global, sublinhando a necessidade de manutenção regular para decisões de política eficazes. Países como Marrocos sofreram quedas na atualidade dos dados, enquanto Malawi regista um salto notável de 18 anos, uma exceção rara de recuperação de atraso histórico.
Organizações internacionais, como o Banco Mundial, mantêm consistência e fiabilidade na disponibilização de dados, muitas vezes superando os governos nacionais em recência e padrões de acesso. Já as ONG, incluindo a plataforma Open Data for Africa, destacam-se por preencher lacunas críticas e garantir acessibilidade em formatos legíveis por máquina, embora sem ampliação significativa do número de indicadores.
Fragmentação, informalidade e assimetrias regionais
O ecossistema de dados turísticos em África é marcado por fragmentação institucional, fraca coordenação entre ministérios, escassez de capacidades técnicas e elevada informalidade no setor. Em muitos países, uma parte significativa da atividade turística simplesmente não entra nas estatísticas oficiais. Há assimetrias profundas entre regiões: a África Ocidental mostra lideranças claras em Cabo Verde, Burkina Faso e Serra Leoa, mas também limitações severas na Guiné-Bissau e Libéria; a África Oriental combina excelência em Maurícias e Tanzânia com desafios de infraestrutura em Etiópia e Sudão do Sul; o norte de África mantém estabilidade em países como Tunísia e Egito, enquanto Líbia e Argélia enfrentam barreiras técnicas; a África Central e Austral revela tanto boas práticas em Chade e República do Congo, como dificuldades em RDC e Gabão.
Alguns destinos já começaram a investir em sistemas digitais, observatórios de turismo e parcerias público-privadas para recolha e análise de dados. Outros continuam dependentes de estimativas rudimentares, muitas vezes desatualizadas ou inconsistentes. Esta desigualdade interna cria um continente a várias velocidades, onde o potencial existe, mas não é distribuído de forma equitativa.
Turismo como infraestrutura económica
O relatório propõe uma mudança de mentalidade: o turismo deve ser tratado como infraestrutura económica, ao mesmo nível que energia, transportes ou telecomunicações. Isso implica investimento contínuo em sistemas de informação, formação técnica, interoperabilidade de dados e cooperação regional. Vai além de atrair mais turistas, procura compreender melhor quem chega, porquê, quanto tempo fica, quanto gasta, quem beneficia e quem fica de fora. Sem esta leitura fina, o turismo corre o risco de reproduzir desigualdades, em vez de as mitigar.
Outro ponto central é a necessidade de cooperação entre países africanos. Harmonizar metodologias, partilhar dados e criar plataformas comuns é essencial para reforçar a posição africana no mercado global. África precisa de deixar de ser apenas um ‘destino’ contado por outros e passar a ser autor da sua própria história turística, com dados, números e evidência que sustentem políticas públicas e estratégias de longo prazo.
Conclusão: dados como catalisadores de desenvolvimento
Embora a evolução seja lenta e desigual, o ecossistema de dados turísticos africano amadurece progressivamente. O investimento em infraestrutura digital, capacidade técnica e formatos interoperáveis será decisivo para garantir que os dados deixem de ser meros números e se transformem em alavancas de desenvolvimento sustentável.
Num mundo onde os dados definem investimento, reputação e poder negocial, continuar a tratar o turismo como um setor leve é um erro estratégico. África tem o potencial, tem a procura e tem os ativos. Falta-lhe consolidar a infraestrutura invisível que transforma crescimento em desenvolvimento: dados próprios, fiáveis e politicamente conscientes.
Em suma, África aproxima-se de um horizonte em que transparência, planeamento estratégico e inovação digital convergem para transformar o turismo numa força económica resiliente, inclusiva e soberana. Quem mede o seu valor deixa de ser medido por outros.


