Quando o calendário se aproxima do último dia e o país se prepara para atravessar mais uma fronteira simbólica, a passagem de ano continua a ser, para a maioria dos portugueses, um gesto doméstico. Sem grandes deslocações, sem excessos de aparato, a noite faz-se sobretudo dentro de casa, em redor da mesa, com a família por perto e os amigos escolhidos.
É isso que revela o mais recente estudo da Escolha do Consumidor, dedicado aos hábitos e intenções dos portugueses para uma das noites mais aguardadas do ano. Segundo os dados recolhidos, 65% dos inquiridos tenciona celebrar a entrada em 2026 em casa, com a família. Outros 13% optam pelo mesmo cenário, mas em companhia de amigos. As festas organizadas e os eventos pagos atraem uma minoria (8%), enquanto as celebrações em espaços públicos, como praças ou zonas com fogo de artifício, surgem como opção para 7% dos participantes. A passagem solitária da noite é assumida por uma percentagem igualmente residual.
A escolha pela intimidade reflete-se também na mobilidade. A larga maioria dos portugueses (71%) não planeia viajar e permanecerá em território nacional. Entre os que escolhem sair do país, a Europa lidera as preferências (12%), seguindo-se destinos mais distantes e menos frequentes, como África (2%) e as Américas, Ásia ou Oceânia, todas com valores residuais. Há ainda quem, à data do inquérito, não tivesse decidido o rumo da viagem.
Sobre finanças e gastos
No plano financeiro, a entrada no novo ano é marcada por contenção. Mais de um quarto dos consumidores (26%) prevê gastar menos de 50 euros na noite de passagem de ano, enquanto 25% estima um orçamento entre os 50 e os 100 euros. Cerca de 19% admite despesas entre 100 e 250 euros e apenas 11% antecipa gastos superiores a 250 euros. Um pequeno grupo ultrapassará os 500 euros, enquanto 14% prefere manter o orçamento em aberto até mais perto da data.
Em relação ao ano anterior, o cenário mantém-se estável. Seis em cada dez portugueses afirmam que irão gastar sensivelmente o mesmo que em 2024, enquanto 27% espera reduzir a despesa. Apenas 13% admite um aumento do orçamento para esta celebração.
As tradições, essas, resistem ao tempo com a mesma discrição com que se repetem. O brinde com champanhe ou espumante continua a ser o ritual mais comum (29%), seguido das clássicas 12 passas, acompanhadas de desejos silenciosos (28%). Há ainda quem escolha a roupa interior azul, quem vista uma peça nova ou quem suba a uma cadeira com o pé direito à meia-noite. Ainda assim, uma parte significativa dos inquiridos (16%) assume já não seguir qualquer ritual específico.
Quando o olhar se projeta para 2026, os desejos revelam um país pragmático, mas não resignado. Melhorar a situação financeira surge como a principal aspiração (27%), seguida da saúde e do bem-estar. Viajar mais, passar mais tempo com família e amigos e alcançar um melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional surgem igualmente entre as prioridades. Há também quem pense em progresso académico ou profissional e quem formule desejos mais amplos, de alcance coletivo, ligados à paz e à melhoria das condições de vida.
A passagem de ano, conclui o estudo, continua a ser menos um espetáculo e mais um momento de pausa, vivido, na maioria das vezes, onde sempre foi vivido: em casa, com os de sempre, com contas feitas e esperanças guardadas.


