A atual crise em torno do petróleo venezuelano é mais do que um choque diplomático ou uma jogada pontual de política externa dos Estados Unidos. O que está em cima da mesa revela uma mudança profunda na geopolítica da energia: os recursos continuam a ser ferramentas de influência internacional, mas a forma como os mercados […]
A atual crise em torno do petróleo venezuelano é mais do que um choque diplomático ou uma jogada pontual de política externa dos Estados Unidos. O que está em cima da mesa revela uma mudança profunda na geopolítica da energia: os recursos continuam a ser ferramentas de influência internacional, mas a forma como os mercados e os investidores respondem a eles está a mudar com rapidez.
Segundo Simonetta Spavieri, gestora de Active Ownership e responsável pelo Climate Engagement na Schroders, as ações dos EUA na Venezuela não representam uma viragem radical na relação energética com Caracas — pelo contrário, são um passo incremental num dossier que sempre teve nuances. Mesmo durante a administração Maduro, a Chevron manteve operações no país em condições restritas e com supervisão norte-americana. O interesse renovado de Washington no petróleo venezuelano encaixa nesse quadro: mais um ajuste do que uma revolução.
A euforia e a relevância estratégica
No mercado financeiro, a reação foi imediata. As ações das grandes refinarias dos Estados Unidos subiram nos dias seguintes ao anúncio, numa antecipação clara de que um eventual alívio das sanções poderia abrir o acesso ao crude (petróleo bruto) pesado venezuelano. As refinarias da Costa do Golfo dos EUA foram configuradas, há décadas, para processar precisamente esse tipo de petróleo — pesado e rico em enxofre — vindo de países como Venezuela, México ou Canadá.
Mas esta euforia de curto prazo esconde uma realidade mais complexa e menos excitante. A política de sanções pode mudar de um dia para o outro, e os fluxos de crude podem ser reconfigurados com grande rapidez — por exemplo, desviando-se de compradores como a China, que chegou a receber cerca de 80% das exportações venezuelanas até meados da década passada. A verdade é que nada disto altera, de forma substancial, o quadro global de oferta.
A relevância estratégica da Venezuela não decorre tanto da produção actual, mas sobretudo do tamanho das suas reservas comprovadas, apontadas pelos Energy Institute e por várias revisões globais de energia como as maiores do mundo — cerca de 300 mil milhões de barris. No entanto, produção e reservas são duas coisas diferentes. A produção diária caiu de picos superiores a 3,5 milhões de barris por dia para cerca de 1 milhão atualmente, segundo dados consolidados mais recentes, uma retração que espelha décadas de má governação, subinvestimento e falhas de gestão.
E o petróleo continua a ser tudo para a economia venezuelana: responsável por mais de 90% das exportações e pela maior parte dos rendimentos em moeda estrangeira. Esta dependência extrema deixa o país exposto a qualquer perturbação no setor. E são muitas.
A produção, os mercados e a sustentabilidade
Produzir petróleo na Venezuela também nunca foi barato nem simples. A maior parte da produção provém do Orinoco Belt, um tipo de crude pesado e extra pesado que exige tecnologias mais complexas, maiores custos de extração e aditivos importados. O custo de produção por barril é, em muitos casos, dos mais altos do mundo. A isto juntam-se fatores que ficam «acima do sol»”: instabilidade política persistente, insegurança jurídica crónica, infraestruturas degradadas e litígios não resolvidos que assustam investidores.
E, ao mesmo tempo, o contexto global mudou. Os mercados de petróleo entraram em 2025 com oferta relativamente confortável, inventários elevados e preços moderados, como mostram dados da International Energy Agency (IEA). Por outro lado, os grandes investidores em energia, pressionados por acionistas e mercados financeiros, têm privilegiado disciplina de capital, fluxo de caixa estável, dividendos e recompra de ações em vez de grandes gastos em exploração de alto risco.
Isto tem consequências claras: investimentos em energia de baixo carbono foram reduzidos, e os orçamentos de exploração e desenvolvimento em países de risco elevado têm sido cortados ou adiados. Num mundo em que a rentabilidade e a segurança de retorno são critérios dominantes, um mega-projecto verde ou negro em território venezuelano parece cada vez menos alinhado com as expectativas do mercado global de capitais.
Este contraste alinha-se com uma das grandes transições do nosso tempo: a definição cada vez mais clara de que segurança energética não é apenas assegurar mais petróleo e gás, mas também garantir electrificação robusta, infraestruturas resilientes, controlo sobre minerais críticos e tecnologia capaz de sustentar uma economia de baixo carbono. Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, muitos países europeus e asiáticos colocaram exatamente isto no centro das suas políticas: reduzir dependências de combustíveis fósseis importados, incluindo GNL, e reforçar cadeias produtivas críticas.
É aqui que a Venezuela se torna um caso exemplar de uma contradição crescente no sistema energético global: o país continua a ser geoestrategicamente relevante — suficiente para mover mercados, influenciar políticas e até justificar ações militares — mesmo quando é estruturalmente pouco atrativo para o investimento privado de longo prazo.
O que realmente interessa aos investidores
Para investidores, a lição é simples: o petróleo continua a importar, mas a geopolítica não anula a realidade económica. Os ativos que só se tornam competitivos mediante intervenção política estão precisamente na mira de risco de se tornarem obsoletos ou «encalhados» (stranded) no processo de transição energética.
Em síntese, a história venezuelana mostra ter reservas gigantescas não é suficiente para ser um protagonista energético forte. É preciso estabilidade, capital, tecnologias e um quadro jurídico e político estável, variáveis que, neste momento, se encontram em défice. E isso explica porque, mesmo quando opções geopolíticas colocam a Venezuela no centro dos holofotes, o mundo financeiro não corre para lá com capital à velocidade exigida pelas necessidades do próprio país.


