Há um fosso crescente entre a forma como empresas e profissionais encaram o futuro do trabalho. Os dados revelam um mercado em transformação acelerada, onde autonomia, colaboração e inteligência artificial redefinem expectativas — mas nem sempre alinham talento e empregadores.
A Randstad acaba de lançar os resultados do Workmonitor 2026, revelando um cenário de grande adaptação no mercado de trabalho. O estudo, que inquiriu 26.000 profissionais em 35 mercados (incluindo Portugal), destaca um desalinhamento a nível de confiança: em Portugal, 100% dos empregadores estão confiantes no crescimento para o próximo ano, mas apenas 46% do talento partilha desta visão, um valor abaixo da média global de 51%.
Autonomia é a nova definição de sucesso pessoal
Os dados revelam que 39% do talento em Portugal pretende seguir um percurso de carreira tradicional e linear, ao passo que 27% afirma preferir uma “carreira de portfólio”, com mudanças de setor e funções (38% globalmente).
No que respeita à retenção, o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal é o principal motivo para 51% dos profissionais permanecerem na função atual, superando a remuneração e benefícios (23%) e a segurança no emprego (22%). No recrutamento, 87% do talento é atraído pelo salário, mas 42% não aceitaria um novo emprego sem flexibilidade de local e 41% rejeitaria uma função sem flexibilidade de horário. Entre a Geração Z, 67% prefere traçar o seu próprio percurso em vez de seguir uma hierarquia definida.
Adicionalmente, 50% dos profissionais já abandonaram um emprego por falta de independência concedida pelas chefias, embora 80% dos empregadores concordem que a autonomia aumenta o compromisso e a produtividade.
Colaboração: O valor do talento entre gerações
Os indicadores de colaboração mostram que 65% do talento em Portugal possui uma relação forte com o seu gestor direto e 73% confia nos seus colegas. A produtividade é influenciada pela diversidade: 84% dos profissionais acreditam ser mais produtivos quando colaboram com diferentes perspetivas e 78% afirmam contar com pessoas de gerações distintas para alargar a sua visão.
Do lado das empresas, 100% dos empregadores inquiridos em Portugal destacam a diversidade geracional como uma alavanca de produtividade. Contudo, 90% dos empregadores referem que o trabalho remoto ou híbrido tornou a colaboração mais desafiante. Os dados indicam também que 70% dos profissionais procuram mais pontos de contacto com os seus empregadores devido à incerteza no mercado e 68% dizem estar mais dispostos a colaborar se os seus líderes o fizerem.
IA & Adaptação: O novo paradigma da agilidade
No domínio tecnológico, 89% das empresas em Portugal planeiam reforçar a utilização da IA nos próximos 12 meses, embora apenas metade (50%) dos profissionais acredite ter as competências necessárias para potenciar esta tecnologia. Relativamente à produtividade, 60% do talento e 70% dos empregadores sentem que a IA ajuda a melhorar o desempenho, mas 44% do talento considera que a adoção da IA beneficiará principalmente as empresas e não os trabalhadores.
Face a este cenário, 72% dos profissionais afirmam precisar de adaptar as suas competências atuais para manterem a relevância. Os dados indicam ainda que 65% das empresas listam a agilidade como uma das três principais características procuradas em novas contratações, num momento em que a maioria dos trabalhadores receia que as funções
de entrada possam desaparecer nos próximos cinco anos devido à automação.
«O mercado de trabalho atravessa um momento de pressão e transformação profunda. A IA não deve ser vista como uma ameaça de substituição, mas como uma ferramenta de aumento de tarefas, permitindo que as pessoas se foquem em funções onde o toque humano é insubstituível», refere Isabel Roseiro, Diretora de Marketing da Randstad. «O sucesso das organizações dependerá da sua capacidade de oferecer a autonomia que o talento exige e de promover uma colaboração geracional eficaz».



