O vinho é um produto inspirador. Mas, mais do que isso, é também um produto com história e Estórias e muitas delas que atravessam o tempo e o transportam para uma dimensão que poucos produtos conseguiram alcançar. A última WYtalk to WYgroup tratou o tema das Histórias do vinho e de como este produto saído […]
O vinho é um produto inspirador. Mas, mais do que isso, é também um produto com história e Estórias e muitas delas que atravessam o tempo e o transportam para uma dimensão que poucos produtos conseguiram alcançar.
A última WYtalk to WYgroup tratou o tema das Histórias do vinho e de como este produto saído do conhecimento humano – o vinho não existe como tal na Natureza – ajudou e influenciou a Medicina, a História, a Literatura, e o Marketing (mesmo antes dele existir!).
Para descobrirmos algumas destas Histórias convidámos Margarida Esperança Pina, Doutorada em Literatura Francesa, tendo trabalhos de investigação em áreas como a Literatura Medieval, a História da Medicina e Food Studies. A Cultura da Vinha e do Vinho tem sido objeto de estudo desta investigadora desde 2006.
Joana Bahia e Lígia Marques são ambas da Sogrape Wine Academy, a área da Sogrape que tem por missão divulgar e difundir conhecimento sobre o vinho, em toda a extensão da sua cadeia de valor, e a cultura vínica no mundo. Profundas conhecedoras do mercado do vinho, ocuparam ao longo dos anos múltiplas posições dentro do Grupo Sogrape. Ambas têm certificação (nível 3 e nível 4, respetivamente) do Wine and Spirits Education Trust, a principal entidade certificadora mundial na área dos vinhos.
Vinho e o percurso da Humanidade
Margarida Esperança Pina falou-nos da presença do vinho nalgumas obras fundamentais da Idade Média, dando como exemplo o romance arturiano, Perceval ou o Conto do Graal. E a primeira história, verdadeiramente curiosa, surge com a utilização de um copo para a partilha do vinho. Esta prática comum até ao Renascimento, pois os recipientes não abundavam, está na origem de um dos nossos hábitos comuns, a limpeza da boca antes de beber. Como existia uma partilha do copo, tornou-se necessário que quem fosse beber pelo copo partilhado, limpasse a boca antes de o fazer. Esse ritual tornou-se um hábito que se repete, felizmente, até aos nossos dias. Outro exemplo, curioso, foi o ritual de pôr a mesa. Na Idade Média punha-se literalmente a mesa, empilhada umas tábuas sobre um cavalete, que era retirado logo que a refeição terminasse. As mesas são agora presença constante nas nossas casas, mas a designação manteve-se através dos tempos, daí dizermos “pôr a mesa” e “levantar a mesa”.

Também a Medicina foi impactada pelo vinho e pelas suas múltiplas formas variedades. Um compêndio médico produzia recomendações sobre o tipo de vinho que devia de ser utilizado para a cefaleia, pois todos nós sabemos que a melhor maneira de curar uma ressaca é nunca parar de beber… Talvez esta parte não seja recomendada pela ciência moderna, mas que também ficou no léxico e nas anedotas, sobre isso não há dúvidas.
A história de George Sandeman
Lígia Marques partilhou a história de uma das marcas mais icónicas da Sogrape – a Sandeman. Fundada por um escocês que queria ser rico antes dos 30 anos, George Sandeman depressa aprendeu que a melhor maneira de fazer uma pequena fortuna no mundo dos vinhos é quando começamos com uma grande…
No entanto, George, e depois os seus descendentes, foram pioneiros e inovadores em muito do que se faz neste fantástico mundo. Desde logo começou a marcar as suas pipas com as suas iniciais, diferenciando os seus Portos e Sherries de todos os outros concorrentes. E isto 70 anos antes do registo oficial de marca se ter iniciado no Reino Unido (Trade Marks Registration Act 1875)
Depois começaram a fazer publicidade aos seus produtos, dizendo claramente por que razão eram diferentes dos demais e utilizando a sua marca como chancela de qualidade e de prova de autenticidade. Mesmo que a publicidade na altura fosse considerada como algo supérfluo e desnecessária. O tempo veio a mostrar que afinal não era bem assim.
A família Sandeman continuou procurando a sua diferenciação, e para que a sua publicidade fosse sempre distintiva, comprava obras de reputados pintores, alguns da Royal Academy, que utilizava na sua publicidade, mesmo que algumas vezes pedisse pequenas alterações nas obras para que os seus produtos entrassem nelas. Afinal, não foram os americanos que inventaram o “product placement”. A ligação às artes mantém-se até hoje, com nomes como Mário Belém a reinterpretarem a marca.
Anos mais tarde, e com o advento da publicidade exterior, os anúncios luminosos ganham expressão e a Sandeman resolve que os seus em Piccadilly Circus têm de ter animação, vendo-se neles uma garrafa que se move para que o seu líquido verta para um cálice. Um dos Sandeman tinha como “hobbie” ir até ao centro de Londres e ficar a olhar, parado na rua, para o seu reclame luminoso. Quando conseguia reunir uma pequena multidão que procurava curiosa a razão para aquela contemplação, saía discretamente deixando os transeuntes entusiasmados a verem os anúncios.

Sinal dos tempos, também nos anos 20, destacam vários posters, sobretudo os comprados aos ateliers Vercasson em Paris – como o fantástico e polémico “Centauro” – que reforçaram a notoriedade da marca e abriram portas a novas propostas, como a do icónico “Sandeman Don” em 1928.
Mas a marca não ficou por aqui e juntou-se a todo este arrojo a presença na televisão com anúncios cheios de humor britânico que são atualmente verdadeiras pérolas de comunicação.
O vinho é isto mesmo, são histórias que juntam pessoas. Que entusiasmam e que nos deixam com vontade de partilhar. Porque o vinho para ser vinho também tem de ter partilha. Nada é melhor que uma boa conversa em torno de um bom copo de vinho, e a nossa excelente conversa não poderia acabar sem termos provado e aprovado um fantástico Porto Sandeman 20 anos que nos pediu para que nunca parássemos de falar sobre o vinho e as suas histórias. Assim faremos.



