Sempre senti — e, infelizmente, continuo a sentir — uma batalha silenciosa dentro das organizações: de um lado o bem-estar, do outro a performance. Como se cuidar das pessoas significasse baixar expectativas. Como se exigir resultados implicasse desgaste, pressão constante e vidas desequilibradas. Nunca acreditei nisso. E talvez o verdadeiro problema esteja precisamente aí: em continuarmos a olhar para estes dois temas como opostos.
O bem-estar nas empresas não se constrói com fruta à quarta-feira, massagens ocasionais ou discursos inspiradores no LinkedIn. Constrói-se quando alguém se sente visto, ouvido, respeitado e desafiado. Quando existe espaço para crescer sem precisar de fingir que somos todos iguais. Porque não somos.
Há pessoas mais rápidas a executar. Outras mais analíticas. Algumas precisam de silêncio para se concentrarem. Outras funcionam melhor em equipa. Há quem adore trabalhar remotamente e quem precise da estrutura do escritório para conseguir manter foco e disciplina. Há quem esteja numa fase da vida em que quer desacelerar. E há quem queira crescer, aprender, testar limites e dar mais de si. Nenhuma destas pessoas está errada.
Durante muito tempo achei que havia algo errado comigo. Demorava mais tempo do que outras pessoas a estruturar ideias, criar estratégias ou tomar decisões. Via colegas mais rápidos e questionava-me se seria suficientemente boa. Com o tempo percebi duas coisas importantes: a primeira é que nem todos temos os mesmos ritmos; a segunda é que performance não é velocidade — é consistência, impacto e capacidade de evoluir. Foi precisamente quando deixei de tentar funcionar como os outros que comecei a crescer mais depressa.
Hoje fala-se muito de equilíbrio, mas pouco de responsabilidade individual. Espera-se que as empresas criem culturas perfeitas, líderes perfeitos, flexibilidade perfeita. Mas relações de trabalho saudáveis nunca foram construídas apenas de um lado. Exigem compromisso mútuo.
Sim, existem empresas tóxicas. Mas também existe uma narrativa perigosa de que qualquer desconforto é negativo, qualquer exigência é injusta e qualquer esforço adicional representa falta de equilíbrio. Não representa. Há fases da vida e da carreira em que é natural dar mais. Aprender mais. Estar mais disponível. E isso não tem de significar exploração — desde que exista escolha, reconhecimento, respeito e sentido no caminho.
Os estudos mostram-nos que equipas com maior bem-estar tendem a ser mais produtivas, mais criativas e mais comprometidas. Mas talvez estejamos a simplificar demasiado o tema quando tentamos transformar wellbeing numa fórmula universal.
Talvez o futuro das organizações não esteja em tratar todos da mesma forma, mas em compreender que pessoas diferentes precisam de condições diferentes para conseguir dar o seu melhor.
E talvez o equilíbrio perfeito que tanto procuramos nem exista. O que pode existir, sim, são culturas mais conscientes, líderes mais humanos e pessoas mais responsáveis pelo papel que também têm na construção do seu próprio bem-estar.
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