As competências emocionais dos líderes passam a ser mais relevantes no atual cenário. Caminhar e afinar os sentidos, errar e voltar a acertar o passo, sem nunca perder o rumo. O trabalho de um líder é de constante aperfeiçoamento. Ainda para mais, numa época com uma guerra em aberto, um Planeta em apuros e em […]
As competências emocionais dos líderes passam a ser mais relevantes no atual cenário. Caminhar e afinar os sentidos, errar e voltar a acertar o passo, sem nunca perder o rumo.
O trabalho de um líder é de constante aperfeiçoamento. Ainda para mais, numa época com uma guerra em aberto, um Planeta em apuros e em ressaca de uma pandemia com a inflação a disparar.
A mentalidade de um líder deve ser mais plural e próxima, e os locais de trabalho mais híbridos, flexíveis, diversos e inclusivos. É urgente explorar áreas de conhecimento novas e multidisciplinares, numa relação aberta com os colaboradores, onde se conjugam vontades. Um líder é mais do que um energizador, é um criador do sentido de pertença, um (re)conector da cultura e um guia, agora também emocional e, quem sabe, espiritual?
Perguntámos a alguns especialistas de soluções estratégicas de liderança e Recrutamento de Executivos: Pode um líder ser vulnerável e sensível? Filipa Costa, Principal na Korn Ferry, responde:
“Assistimos na altura da pandemia a um verdadeiro “regresso a casa”, um exercício de pura humildade ao assumirmos que não sabíamos o que estávamos a viver e de como tudo iria acabar. Todos, sem exceção, com mais vontade de investigar ou não sobre o que estávamos a vivenciar, tivemos de olhar para nós e para os outros. Ainda que com muitas perdas no mundo, talvez tenha sido esta uma das grandes vitórias que a pandemia trouxe ao mundo empresarial: o autocuidado e o cuidado para com os outros.
Temos acompanhando um movimento através de debates e conferências bastante voltada para as temáticas da Saúde Mental, onde se colocam no centro as pessoas. Atualmente passamos a escutar líderes e colaboradores, a partilharem cada vez mais a sua história de vida, a forma como derruíram, o modo como, de um momento para o outro, tudo deixou de fazer sentido nas suas vidas, acabando por muitos deles não se reconhecerem. Perante olhares atentos e plateias silenciosas, passou a escutar-se de viva-voz a forma como os líderes se sentiam, as emoções que tiveram de acolher e de como se tornaram vulneráveis. Ficou para segundo plano os debates de outrora sobre práticas de gestão estruturadas e planos de negócio estratégicos e de sucesso. Passou a valorizar-se a liderança genuína e empática, uma liderança mais humanizada e por consequência mais real.
Os líderes das organizações de hoje precisam de ter capacidade de transformar. Hoje não chega só apresentar resultados sólidos. Também é necessário reunir a força de trabalho em torno do propósito e da visão da organização, e capacitá-la para tomar as medidas certas para o amanhã. Isso requer uma compreensão profunda de como a organização está conectada ao ecossistema e que impacto isso tem na sociedade. Também significa operar num mundo com fronteiras fluídas. Os modelos tradicionais de liderança não são adequados para este mundo mais complexo e ambíguo. A abordagem Enterprise Leadership lançada recentemente pela Korn Ferry, oferece um modelo multidimensional em que o “enterprise leader” apresenta um mind-set orientado ao propósito, coragem, autoconsciência, inclusão e pensamento integrativo. São líderes radicalmente humanos e conseguem unir uma organização em torno de um propósito comum, mas com empatia e compaixão. Uma pesquisa global da Korn Ferry concluiu que representam menos de 14% dos executivos. Felizmente, a boa notícia é que podemos despertar as organizações para desenvolverem esta liderança.
Nesta nova era organizacional, o ego tem vindo a perder palco e começou a dar lugar à grande força de outros tempos: a vulnerabilidade. Ser vulnerável permite-nos assumir as nossas áreas de desenvolvimento e as nossas fraquezas. Permite-nos assumir os períodos de exaustão emocional e até física, e assim de repente, são estas as histórias que passaram a ser partilhas inspiradoras. A questão é: porque é inspirador? Este movimento ocorre através da empatia, da capacidade de reconhecer e compreender emoções nos outros, da habilidade que temos de nos colocar no lugar dos outros, escutando a voz que nós muitas vezes anulamos internamente. Estar no topo era sinónimo de poucos erros, onde as fraquezas não deviam ser partilhadas, sob pena de não estarmos à altura do desafio. Acredito que ninguém irá cair no papel de vitimização organizacional pois a liderança verdadeira e inspiradora tem um propósito: aproxima-nos aos outros, traz ao de cima aquilo que todos somos: Seres Humanos!
Processos de recrutamento, desenvolvimento de liderança e executive coaching, para além de tocarem no mapeamento e potenciação de todos os skills mais sofisticados de gestão, que continuam a dar lugar a uma liderança credível e de sucesso, junta-se cada vez mais a capacidade de ser pessoa, de sentir e de partilhar a história de cada um, com nomes reais e emoções que nos aproximam do verdadeiro regresso a nós. Queremos e precisamos de ter nas organizações pessoas que se reconectem e recentrem em si, não se esquecendo que existem outros que também passam pelos seus processos de autodescobrimento. Este é igualmente, um processo de respeito pela jornada de cada um. Marcos de carreira, são fundamentais escutar, mas a história de cada um é outro capítulo fundamental.
Os programas de mindfulness, de meditação e de well-being estão a ganhar cada vez mais aderência nas nossas empresas, não é porque são moda ou tendência, é porque precisamos de silenciar todas as “vozes” que ecoam dentro de nós, com crenças e ambições que muitas vezes nem são as nossas, mas que nos fizeram crer que sim. Para conhecer internamente, é preciso silenciar o externo, é preciso conectar, é preciso resignificar novos conceitos e novas abordagens. Está comprovado o impacto real que não cuidar da saúde dos colaboradores, leva a perdas significativas de lucro.
Que tenhamos assim a coragem de abrir espaço para o novo, um novo que sempre nos pertenceu e do qual nos afastamos: nós mesmos. Fica o convite para se abrir caminho para uma nova era mais real, mais verdadeira e em que a capa de liderança brilha mais no escuro! Pois é no escuro que todos somos iguais e vulneráveis, será no escuro que todos damos as mãos e cooperamos genuinamente. E de braço dado com a empatia, saberemos que este é o momento em que mostramos aos outros que nos importamos e conseguimos “sentir” as suas dores e alegrias.
Esta é a nova liderança para um novo mundo, ou esta é a liderança que foi esquecida e tem de ser relembrada: liderança radicalmente humana!”
Este artigo foi publicado na edição de primavera da revista Líder.
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