“O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem.” Apesar da lenga-lenga, é comum sentirmos que temos falta de tempo e que, na verdade, o tempo não tem tempo nenhum. Em Portugal trabalha-se muitas horas, em horários […]
“O tempo perguntou ao tempo
quanto tempo o tempo tem.
O tempo respondeu ao tempo
que o tempo tem tanto tempo
quanto tempo o tempo tem.”
Apesar da lenga-lenga, é comum sentirmos que temos falta de tempo e que, na verdade, o tempo não tem tempo nenhum. Em Portugal trabalha-se muitas horas, em horários que se estendem, e em rotinas que não deixam espaço – ou tempo – para fazer mais do que trabalhar e tarefas domésticas. Para trás vão ficando projetos, tempo com amigos ou de qualidade com a família. O tempo livre nos dias de folga é passado a tratar de tudo o que não conseguiu ser feito nos dias de trabalho – limpar a casa, fazer as compras, cozinhar para a semana seguinte, ajudar as crianças com TPC. Não é só no rendimento que encontramos desigualdade entre pessoas e entre famílias em Portugal – também no tempo a encontramos, o que tem consequências na saúde mental, nos laços familiares, no acompanhamento das crianças.
A construção de um país mais justo e onde todas as pessoas vivam melhor passa também pela definição de políticas de tempo, focadas em permitir mais tempo para viver e com esse tempo bem distribuído. Por isso, e logo nos primeiros meses do LIVRE na Assembleia da República defendemos a realização de um projeto-piloto da semana de quatro dias em Portugal.
O projeto-piloto arrancou e, em 2023, com 41 empresas e mais de 1000 trabalhadores no setor privado. Os resultados preliminares vêm comprovar o que já intuíamos: com mais tempo livre, os trabalhadores melhoraram a sua saúde mental, com os índices de ansiedade, fadiga, problemas de sono, estados depressivos e tensão a melhorarem cerca de 20%. A conciliação entre trabalho e família melhorou, com apenas 8% a indicarem que é uma conciliação difícil, face aos 46% de antes do teste-piloto. Até o índice de solidão encolheu 14%.
Os resultados não são apenas bons para trabalhadores. 95% das empresas avalia de forma positiva o teste-piloto e várias mantiveram ou estão a considerar manter a redução do tempo de trabalho. Ou seja, também as empresas perceberam o valor e o benefício que a semana de quatro dias pode ter para o seu negócio.
Não é à toa que a semana de quatro dias tem uma grande aceitação. Facilmente se percebe a vantagem que tem para pessoas, famílias, empresas e para o país, com ganhos em produtividade, em bem-estar, em saúde mental, em tempo para o convívio e companhia tão essenciais para a coesão social. A implementação tem, claro, muitos desafios, num país onde os salários são ainda tão baixos, onde muitas pessoas têm dois empregos ou estão precárias ou onde tantas pequenas e médias empresas gerem o seu orçamento à risca. Mas estes desafios entrecruzam-se e têm de ser resolvidos de forma conjunta.
A próxima legislatura é a altura certa para continuar as experiências da semana de quatro dias, de forma a que, em breve, adotemos esta redução do tempo de trabalho em Portugal. Será uma das prioridades do LIVRE. Para que possamos responder ao tempo que temos tanto tempo quanto tempo precisamos.
