O coração acelera, a adrenalina dispara, as pupilas dilatam, a respiração encurta e os músculos ficam tensos. Lutamos ou fugimos? Enfrentamos ou evitamos? Estas reações e expressões são-nos familiares e fazem parte do nosso léxico comum, mas têm uma origem profundamente enraizada na biologia e psicologia humana. O que é o fight or flight? […]
O coração acelera, a adrenalina dispara, as pupilas dilatam, a respiração encurta e os músculos ficam tensos. Lutamos ou fugimos? Enfrentamos ou evitamos? Estas reações e expressões são-nos familiares e fazem parte do nosso léxico comum, mas têm uma origem profundamente enraizada na biologia e psicologia humana.
O que é o fight or flight?
A resposta de luta ou fuga, proposta por Walter Cannon em 1915, é uma reação automática a uma ameaça percebida. Face ao perigo, o hipotálamo desencadeia várias reações através de dois sistemas: o sistema nervoso simpático, que atua rapidamente por impulsos nervosos, e o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, que responde pela corrente sanguínea. Juntos, libertam hormonas como adrenalina e cortisol, preparando o corpo para agir.
Este mecanismo foi essencial à sobrevivência da nossa espécie. Embora hoje vivamos em ambientes mais seguros, a resposta fisiológica à ameaça manteve-se. Os «predadores» modernos, contudo, manifestam-se sob outras formas: decisões difíceis, confrontos inevitáveis, reuniões críticas, mudanças abruptas e pressões de desempenho. E embora o corpo reaja com igual intensidade, a fuga já não é para a savana, mas sim para o silêncio, a apatia ou a resignação.
Hoje, a psicologia reconhece que esta resposta não é apenas fisiológica, envolve também processos cognitivos e emocionais, como a avaliação da ameaça e a perceção de controlo. É partindo desta dimensão psicológica que refletimos neste artigo: Quando é esta resposta ativada? O que distingue quem enfrenta de quem evita? E como navegar esta reação instintiva de forma consciente?
Quando é esta resposta ativada?
A resposta de luta ou fuga tem uma componente contextual. É mais intensa quando a ameaça é ambígua, imprevisível, incontrolável e tem consequências importantes. Ora, o contexto organizacional moderno favorece isto mesmo: excesso de informação, pressão para resultados e ambientes VUCA (voláteis, incertos, complexos e ambíguos). Líderes enfrentam o desafio de manter clareza e direção, tomar decisões rápidas e eficazes em cenários incertos. Estes fatores aumentam a ameaça percebida e a tendência para reações impulsivas – de enfrentar ou evitar. Mas responder eficazmente neste ambiente exige mais do que rapidez: requer visão, compreensão, clareza e agilidade – o “novo VUCA” proposto por alguns autores. E a forma como se enfrenta ou evita molda a cultura e o futuro da organização.
Quem enfrenta e quem evita?
A resposta à ameaça varia. Líderes com maior autoeficácia, resiliência, tolerância à ambiguidade, experiência com risco e apoio da equipa e organização enfrentam mais diretamente as ameaças. Por outro lado, culturas de «erro zero», medo de errar ou responsabilização excessiva, favorecem o evitamento: adiamento de decisões, procrastinação e paralisia por análise.
Líderes resilientes desenvolvem formas eficazes de modular a sua resposta, reinterpretando a ameaça como desafio. Aqui reside uma distinção essencial: ao invés de percecionar uma situação como ameaça (“isto é maior do que eu”), quando a vemos como um desafio (“tenho meios – competência, experiência, apoio – para lidar com isto”), a intensidade da resposta fisiológica é atenuada, e a clareza mental, persistência e resultados são potencializados.
O otimismo realista (crença de que, mesmo na adversidade, existem oportunidades) e a confiança (recebida e dada) também amortecem a ameaça, permitindo uma resposta de “luta” mais construtiva.
Lutar sempre? Fugir nunca? E agora? Equilíbrio e a sabedoria de escolher batalhas.
Enfrentar não é agir por impulso, mas reconhecer a ameaça e responder conscientemente.
E enfrentar não é apenas lutar – por vezes, é recuar estrategicamente. Como se diz, “é sensato escolher as batalhas para vencer a guerra.”
A chave está no equilíbrio entre ativação e regulação. Técnicas como grounding, respiração consciente ou reenquadramento cognitivo ajudam a ativar um modo de “luta serena”: com foco, coragem e clareza. Adicionalmente, promover culturas que tolerem o erro inteligente, valorizem feedback e promovam confiança é fundamental para que enfrentar se torne possível.
Enfrentar não é sempre melhor do que recuar: lutar sem estratégia desgasta, fugir sem consciência enfraquece. Muitos líderes bem-sucedidos descrevem que a sua resiliência foi construída não por enfrentarem tudo, mas por saberem escolher as batalhas certas. Reenquadrar o “fugir” como “poupar recursos” pode ser um gesto de sabedoria estratégica.
Atualmente, é pedido aos líderes que sejam analíticos, mas intuitivos; realistas, mas criativos; assertivos, mas empáticos; ágeis, mas ponderados. Que saibam quando lutar e quando recuar. Dualidades difíceis de conjugar, mas indispensáveis à liderança. Talvez a resposta não esteja em lutar sempre ou fugir nunca, mas em cultivar a consciência para reconhecer o impulso e, depois, escolher a resposta. Em aprender a distinguir a ameaça real do ruído e manter a lucidez para não lutar guerras alheias nem fugir do que realmente importa.
Este artigo foi publicado na edição nº 30 da revista Líder, cujo tema é ‘Enfrentar’. Subscreva a Revista Líder aqui.

