Uma nota sobre pureza e apropriação
(Com Regina Marcelino)
A revista Organization publicou há umas semanas um artigo sobre o filme Paddington no Peru. Um caso de apropriação cultural, reclamou a autora. É verdade que as multinacionais são por vezes capazes de praticar o absurdo como o facto de uma delas querer registar a expressão Hakuna Matata, do swahili. Mas Paddington no Peru é um filmezinho sem história, com o urso antropomorfizado que atua como um cavalheiro inglês enquanto protagonista neste postal ilustrado daquele país da América do Sul. Sobre a profundidade da operação cinematográfica fica tudo dito. Um objeto indigno de uma guerra cultural.
Num outro artigo, mais rico, a mesma autora, Belinda Zakrzewska, estuda a tensão entre apreciação e apropriação na nova cozinha peruana: uns chefs homens e brancos apropriam-se de produtos e saberes ancestrais sem nada darem em troca. Percebe-se a ideia: no processo de produção devem ganhar todos e não apenas alguns. Mas a realidade é complexa.
Numa visita ao Peru, facilmente se constata o óbvio: as culturas são misturas, palimpsestos. A comida peruana de rua é híbrida, cheia de influências asiáticas. A religião é sincrética. A arte religiosa guia-se pela dualidade andina, uma mistura de catolicismo ibérico e costumes incas. A apropriação respeitosa, com reconhecimento das fontes, é a nossa condição cultural humana. A defesa da pureza (tribal, étnica, ideológica) sempre causou mais mal que bem. Celebremos pois a mistura nas suas muitas formas, porque é dela que nasce a tolerância e o respeito.