A nova economia portuguesa quer deixar o mundo melhor do que o encontrou
Link copiado
Partilhe este conteúdo
10 Novembro, 2025 | 12 minutos de leitura
Há ideias que nascem de uma fadiga silenciosa de ver o mundo a repetir-se quando podia simplesmente fazer melhor. Outras nascem de uma vontade mais funda: a de reconstruir o que foi gasto, de devolver vitalidade ao que parecia irreversível. O Boutique Acceleration Program pertence a essa segunda espécie de ideias: as que não se […]
Há ideias que nascem de uma fadiga silenciosa de ver o mundo a repetir-se quando podia simplesmente fazer melhor. Outras nascem de uma vontade mais funda: a de reconstruir o que foi gasto, de devolver vitalidade ao que parecia irreversível. O Boutique Acceleration Program pertence a essa segunda espécie de ideias: as que não se contentam em ‘sustentar’, mas procuram regenerar.
O programa junta academia, empresas e investidores num mesmo propósito: acelerar uma nova geração de negócios que não medem apenas lucros, mas também o impacto que deixam no território, nas comunidades e no planeta. À conversa com a Líder Magazine, Bárbara Leão de Carvalho, Cofundadora da Boutique, e Joana Castro e Costa, Diretora Executiva do centro Nova SBE Leadership for Impact, explicam como a regeneração se tornou mais do que uma tendência. É, na verdade, um novo paradigma para pensar o crescimento, a liderança e o futuro da economia portuguesa.
O vosso programa fala em regeneração em vez de sustentabilidade. O que significa, na prática, dar esse salto de conceito?
Bárbara Leão de Carvalho (BLC): Significa olhar o mundo a partir de um ângulo biocêntrico — colocar a vida no centro de todas as decisões e agir a partir desse princípio. A sustentabilidade, na sua lógica tradicional, é antropocêntrica. Significa que coloca o ser humano no centro e procura atingir o ‘net zero’, reduzindo danos e evitando ‘piorar’ o que já existe.
A regeneração propõe uma visão mais ampla e viva do mundo. Parte da ideia de que tudo funciona como um sistema capaz de se renovar, fortalecer e gerar abundância para todos, incluindo os sistemas económicos.
É uma lógica de coevolução, onde o negócio deixa de ser apenas um agente que evita impactos negativos e passa a ser motor de revitalização de ecossistemas, comunidades e culturas.
Na prática, dar esse salto de conceito significa olhar para cada projeto como parte de um sistema maior e perguntar: como é que esta iniciativa pode deixar o ecossistema de um determinado lugar melhor do que estava antes?
Bárbara Leão de Carvalho é co-fundadora da Boutique. Ecologista de coração, cofundou várias organizações ambientais e acumula mais de 15 anos de experiência em regeneração e investimento de impacto. Doutorada em consumo consciente, tornou-se coach e mentora de centenas de projetos de inovação social. Dedica a sua vida à transformação do ecossistema regenerativo nacional e dá voz ao mundo através do seu trabalho teórico e prático. Atualmente, enquanto gestora do primeiro fundo de impacto liderado por mulheres em Portugal, Bárbara faz a ponte entre os mundos da Ecologia Profunda, do Marketing e do Investimento de Impacto.
O Boutique Acceleration Program junta academia, empresas e investidores. Como é que essa convergência pode acelerar uma mudança real no mercado português?
Joana Castro e Costa (JCC): Desde a criação do Nova SBE Leadership for Impact, em 2017, temos comprovado nos nossos projetos o poder de reunir diferentes mundos à volta da mesma mesa. Quando a academia — enquanto ator neutro — se junta a empresas, entidades públicas, organizações da economia social e cidadãos, surgem redes que geram movimentos de mudança mais sólidos e duradouros. Essa colaboração cria modelos mais criativos, muitas vezes híbridos, e dá origem a formas novas de nos organizarmos para o impacto.
O efeito é visível em vários níveis: transforma os ecossistemas das organizações, produtos e serviços, mas também a forma como se encaram os investimentos de responsabilidade social e os investimentos de negócio. Criou-se um círculo virtuoso. A academia informa a prática, oferecendo ferramentas e enquadramento teórico, e a prática devolve à academia novos problemas e soluções a estudar e compreender.
Em paralelo, notamos uma aproximação crescente entre gestão e impacto. É cada vez mais comum ver líderes do setor privado a colaborar com o setor público e social, num intercâmbio que enriquece todos os lados e redefine o papel da liderança no século XXI.
Joana Castro e Costa é Diretora Executiva do Centro de Conhecimento Nova SBE Leadership for Impact em Portugal, parceiro da Boutique. Fellow da League of Intrapreneurs e membro de diversas redes influentes internacionais, a Joana foi reconhecida como uma das 5 “Líderes Empreendedoras Femininas do Ano” no ensino superior pelos Triple E Awards 2023. Dedica-se a conectar a academia com a sociedade, promovendo o intraempreendedorismo para o impacto, mudança sistémica e a regeneração como uma nova abordagem à sustentabilidade.
Os participantes recebem apoio em áreas como medição de impacto e governança. Que ferramentas concretas levam consigo no final do programa?
BLC: Ao longo do programa, cada projeto desenvolve a sua própria Theory of Change, alinhando-se com métricas internacionais de impacto como o IRIS+ e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Aprende também a comunicar resultados de forma clara e estruturada a investidores e parceiros, traduzindo o impacto em valor tangível.
Na vertente de gestão, as equipas trabalham em mapas de tesouraria, indicadores financeiros e modelos de negócio preparados para diálogo com potenciais investidores. Já na governança, exploram modelos legais adequados a empresas de impacto e aplicam ferramentas de decisão mais transparentes e inclusivas.
No final, cada participante leva consigo muito mais do que conhecimento teórico. Leva um kit completo de ferramentas para gerir, medir e comunicar impacto de forma sólida e credível.
A apresentação final a investidores é um momento-chave. O que diferencia um projeto regenerativo aos olhos de quem financia?
JCC: A regeneração é um caminho e um processo. Para o investidor, um projeto regenerativo é aquele que procura gerar mais vida e mais valor, inspirando-se na natureza e na forma como ela cria equilíbrio e abundância. Esses projetos partem da convicção de que a colaboração, e não a competição, produz resultados mais duradouros e benéficos. Não só para a sociedade, mas também para quem investe.
São negócios que atribuem valor ao lugar onde operam e refletem sobre como esse território pode servir o entorno local e um contexto mais amplo. Em vez de extrair, procuram alavancar o potencial do local como elemento diferenciador na criação de produtos e serviços.
Um exemplo claro é o da Oceans and Flow, que apresentou no Faial um projeto de turismo regenerativo pensado para criar valor não apenas para a ilha, mas para todo o arquipélago dos Açores.
A plataforma digital Boutique promete dar visibilidade e criar ligações. Que oportunidades pode abrir para uma pequena empresa que, até aqui, tinha pouca voz?
BLC: Uma das maiores barreiras para as empresas regenerativas é a visibilidade. Fazem muito no terreno, mas permanecem invisíveis para investidores, parceiros e, por vezes, até para os próprios clientes. A Boutique surge precisamente para quebrar esse isolamento: será uma montra digital onde os projetos podem ser encontrados, avaliados e ligados a potenciais financiadores e redes internacionais.
Mas a plataforma vai além da vitrine. É um espaço vivo de conexão, onde podem nascer colaborações entre empresas que antes não se conheciam, abrir-se portas para investidores de impacto interessados em Portugal e até surgir convites para integrar cadeias de valor globais.
Assim, para uma pequena empresa, isso pode significar muito mais do que ganhar visibilidade. Pode ser a passagem de um trabalho solitário para a pertença a um ecossistema que multiplica o seu alcance e o seu propósito.
Há parceiros de peso — bancos, consultoras, institutos internacionais. Que papel têm estas instituições?
JCC: Estes parceiros são, antes de mais, um sinal claro de aposta na inovação. Assim, ao associarem-se à Boutique, estão a dizer às organizações e ao próprio país que o caminho da regeneração é o futuro. Mostram-se disponíveis para apoiar, de formas diversas, quem trabalha apaixonadamente para criar produtos e serviços com um objetivo simples e poderoso: injetar mais vida nos ecossistemas onde atuam.
Alguns contribuem com financiamento, outros com mentoria, contactos estratégicos ou apoio direto à equipa organizadora. Todos, à sua maneira, ajudaram a dar energia e confiança a um projeto que cresceu depressa e com consistência. Estes 9 meses passaram a correr e estamos muito orgulhosos do resultado final que vimos em setembro nos pitches e que ficarão em breve disponíveis online para que mais parceiros e investidores se associem.
Este programa é financiado pelo PRR e pela União Europeia. Portugal pode tornar-se referência em negócios regenerativos?
BLC: Portugal tem algo de raro no seu ADN: uma ligação profunda ao território, comunidades resilientes e uma tradição de inovação social que ganhou estrutura e escala através da Estrutura de Missão Portugal Inovação Social. Há mais de uma década que esse trabalho tem ajudado a construir massa crítica e a abrir oportunidades para organizações e ecossistemas de impacto.
Agora, com o apoio do PRR e da União Europeia, esse caminho ganha nova força.
Ao associar estas qualidades a um programa de apoio estruturado, estamos a criar condições para que o país seja visto como um verdadeiro laboratório vivo de soluções regenerativas.
A ambição é clara: posicionar Portugal como referência internacional em novas formas de fazer negócio — mais abundantes, mais inclusivas e mais ligadas ao território — e, com isso, atrair investimento estrangeiro interessado em inovação com impacto positivo.
Que mudanças concretas esperam ver nas empresas que completam o programa?
JCC: Já se começam a sentir mudanças concretas nas organizações que passaram pelo programa. Nota-se na forma como contam a sua história, na estratégia de go-to-market, nos materiais de comunicação e nas reuniões de follow-up com investidores — tanto os que estiveram presentes em setembro como outros que entretanto se interessaram.
Um exemplo é o Mezze, que já conseguiu investimento de um fundo e prepara-se para replicar o restaurante em mais duas localizações. E este é apenas o início: nos próximos meses, esperamos anunciar novos casos de investimento entre as doze organizações que integraram esta primeira edição.
Regeneração fala de ambiente, mas também de impacto social. Como equilibram essas dimensões?
JCC: A regeneração é, antes de tudo, um ato de criação de vida. E não podemos separar a nossa natureza social do ambiente que habitamos. Mais do que encontrar um equilíbrio entre dimensões, há hoje uma consciência crescente das interdependências entre o que, na linguagem da gestão, se designa por triple bottom line: o financeiro, o social e o ambiental.
Na regeneração, falamos precisamente disso. Da intenção criar vida em todas as escalas, reconhecendo que projetos e negócios existem dentro desse campo partilhado, onde o humano e a natureza se confundem. Ou, como resume a provocação final: Are we human, or are we nature?
Qual é a visão a longo prazo — imaginam o programa como rampa de lançamento para uma nova geração de empresas portuguesas?
BLC: Exatamente: o programa é mais do que uma aceleração, é uma incubadora de uma nova mentalidade empresarial. A nossa visão é que, dentro de alguns anos, as empresas que passaram pela Boutique sejam reconhecidas como casos de referência. Tanto pelo impacto positivo que geram, como pela sua capacidade de competir em mercados globais.
Queremos que sejam essas empresas a inspirar uma nova geração de empreendedores em Portugal, mostrando que é possível aliar a viabilidade económica à regeneração social e ambiental, e provar que o crescimento pode, também, devolver vida ao que o rodeia.
O que é que mais vos surpreendeu nas candidaturas recebidas?
BLC: Tem sido fascinante observar a diversidade das organizações que se aproximaram. Claro que há candidaturas em áreas mais ‘clássicas’, como a agricultura ou o turismo regenerativo. Mas também surgem propostas em setores inesperados, como tecnologia, novos materiais ou serviços financeiros, muitas delas a nascer de raiz ou a reinventar-se com lógicas regenerativas.
É surpreendente e profundamente inspirador perceber que a regeneração deixou de ser um tema restrito ao setor ambiental para se tornar um movimento transversal a toda a economia. Está a infiltrar-se em espaços que, até há pouco tempo, nem usavam essa linguagem. E isso diz muito sobre o rumo que o futuro quer tomar.
Se tivessem de convencer um empreendedor hesitante a candidatar-se, o que diriam?
JCC: Não existe outra aceleradora que trabalhe de forma tão personalizada o potencial de cada organização. Permite, por exemplo, que saiam com um pitch deck, uma apresentação detalhada para investidores e um plano de negócios pronto a investir. Nesse sentido, recebemos, com enorme alegria, os comentários dos participantes que descreveram a experiência como inigualável, muito diferente de outros programas em que já tinham estado. Também os investidores nos felicitaram pela qualidade dos pitches e pelo espírito de grupo que se sentiu na sala.